CAMPANHA NACIONAL DE EDUCAO DOS CEGOS
MINISTRIO DA EDUCAO E CULTURA

ANAIS DO 1 CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAO DE
DEFICIENTES VISUAIS

DE 9 A 13 DE NOVEMBRO DE 1964
ANFITEATRO DA ASSOCIAO PAULISTA DE MEDICINA

SO PAULO - BRASIL - 1966


NDICE
        PREFCIO .......................................................................................................................................         7
        COMISSES DO CONGRESSO .....................................................................................................        9
        HOMENAGEADOS .......................................................................................................................        11
        PARTICIPANTES ..........................................................................................................................        13


Dia 9 de novembro

SESSO DE ABERTURA:
        Comisso Executiva        18
        Palavras do Dr. Zeferino Vaz, Presidente da Sesso        20
        Palavras de D. Dorina de Gouva Nowill, Presidente da
        "O Lugar da Pessoa portadora de deficincias fsicas e  mentais na Sociedade" - Dr. Antnio dos Santos Clemente Filho        25

1 SESSO PLENRIA:

"Progresso e necessidade da educao de cegos" - Profa. Luzia Lopes Lima       35 
"Programa Educacional para atender s necessidades dos Deficientes Visuais" - Profa. Josefa Calazans da Cruz         42
 "Sorob -- Aparelho de clculo para cegos" - Sr. Joaquim  Lima de Moraes        48

2 SESSO PLENRIA:
"Formao de Pessoal" - Profa. Maria de Lourdes Gomes Guerra        56
 "Determinao e Extenso do Problema da Cegueira no Brasil" - Dr. Maury Atanes        64
 "Treinamento Sensorial, Educao e Reabilitao, em funo da experincia sensvel" - D. Mathilde Ncder        68


Dia 11 de novembro

3  SESSO PLENRIA:
"Mobilidade e Locomoo" - Sylas Fernandes Maciel .... 80
"A Famlia como unidade biossocial. A Famlia e a
Escola" - Nizia Lopes de Figueiredo        89

4 SESSO PLENRIA:

"Atividades Sociais para os educandos deficientes visuais"
        - prof. Flora Barro de Albuquerque        96
        "Problemas Tcnico-Formais e suas implicaes na educao
        dos Deficientes Visuais" - Prof. Luiz Geraldo de Mattos         106

Dia 12 de novembro
5 SESSO PLENRIA:

"A Orientao Profissional de Educandos
Deficientes Visuais Sr. Haroldo Pedreira - 119

"O Instituto Perkins" - Dr. Edward Materhouse -129

Dia 13 de novembro
6 SESSO PLENRIA:

"Consideraes sobre a educao dos retardados mentais portadores de Deficincia Visual" - Profa. Wanda Ciccone Paschoalick - 135

"Consideraes sobre educao de deficientes audiovisuais" - Profa. Nice Tonhosi Saraiva - 154

7 SESSO PLENRIA:

"A Importncia da Avaliao dos Casos" - Mary Franklin de Andrade - 167

"Legislao no Campo da Cegueira" Profa. Dra. Nair Lemos Gonalves - 179

"A Educao do Pblico" - Prof. Silvino Coelho de Souza Netto - 186

"Educao do Pblico em Geral" Da. Sarah Couto Csar - 189

"A Educao do Pblico" Dr. Jairo Moraes
191

SESSO DE ENCERRAMENTO:

Palavras do Prof. Dr. Flvio Suplicy de Lacerda, Presidente da Comisso Executiva - 197
Palavras da D. Dorina de Gouva Nowill, Presidente da Comisso Executiva - 199
Palavras do Dr. Adhemar de Barros, D. D. Governador do Estado de So Paulo - 202
Palavras do Prof. Dr. Flavio Suplicy de Lacerda, Presidente da Comisso Executiva - 204


PREFCIO


Os Anais do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, realizado de 9 a 13 de novembro de 1964, na Capital do Estado de So Paulo e patrocinado pela Campanha Nacional de Educao dos Cegos, do Ministrio da Educao e Cultura, renem todos os trabalhos apresentados pelos educadores e tcnicos. Esses representam o pensamento e por vezes, as atividades dos tcnicos que presentemente militam no campo da educao de deficientes visuais.

O conclave teve como objetivo oferecer aos professores e tcnicos especializados, uma oportunidade para conhecerem as iniciativas ora em desenvolvimento em nosso pas, atravs das organizaes particulares e rgos oficiais. Por outro lado j se fazia sentir a necessidade de uma troca de experincias e de um ensejo para que educadores de norte a sul pudessem expressar seus pensamentos e suas aspiraes neste campo da educao especializada.

O Ministrio da Educao e Cultura contou com a colaborao integral dos diferentes Estados da Unio por intermdio de suas organizaes oficiais e particulares.
Assim como, dos educadores que participaram do conclave, quer pela apresentao de trabalhos quer pelo interesse demonstrado durante as sesses de discusso dos problemas inerentes  educao de deficientes visuais neste pas.

Atravs das discusses e trabalhos pudemos depreender que embora incipiente, a educao de cegos no Brasil j  uma realidade, ficando a sua implementao e desenvolvimento dependentes dos esforos e dinamismo dos educadores especializados, presentemente vinculados a este ramo da educao.

Os nossos agradecimentos s entidades cooperadoras, que no mediram esforos para o sucesso deste conclave.

DORINA DE GOUVA N0WILL -
Diretora Executiva da Campanha Nacional de Educao dos Cegos


1 CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAO DE DEFICIENTES VISUAIS PROMOVIDO PELA CAMPANHA NACIONAL DE EDUCAO DOS CEGOS - MINISTRIO DA EDUCAO E CULTURA


PRESIDENTE
Sua Excelncia
Prof. Dr. Flvio Suplicy de Lacerda
DD. Ministro da Educao e Cultura


COMISSO EXECUTIVA

Presidente: Dorina de Gouva Nowill
Assessora Tcnica: Luiza Banducci Isnard
Vice-Presidente: Julia Collet e Silva
Edy Pinheiro Alves
Dr. Jairo Moraes

Secretria Geral: Teresinha Fleury de Oliveira Rossi
1 Secretria: Jurema Lucy Venturini
1 Tesoureiro: Dr. Rogrio Vieira
2 Tesoureiro: Dr. Jos Rodrigues Louz
Divulgao e Relaes Pblicas: Roberto Jos Moreira Isnard


ASSESSORIA DA COMISSO EXECUTIVA

Dr. Rubens Belfort Mattos
Luiza Banducci Isnard
Maria Lcia de Toledo Moraes
Dra. Nair Lemos Gonalves
Dr. Armando de Arruda Novaes
Rosa Florenzano
Manoel da Costa Carnahyba


ENTIDADES COOPERADORAS

Instituto de Reabilitao da Universidade de So Paulo
Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Federao Nacional das APAES
Instituto Padre Chico
Centro do Professorado Paulista
Liga do Professorado Catlico
Associao Paulista de Medicina
Lions Club
Departamento de Educao Fsica do Estado de So Paulo

1 CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAO DE DEFICIENTES VISUAIS
PROMOVIDO PELA CAMPANHA NACIONAL DE EDUCAO DOS CEGOS
MINISTRIO DA EDUCAO E CULTURA

COMISSO TCNICA

Joel Martins, Yone Krahembull, Mathilde Neder, Dolores Molina Munhoz, Sylas Fernandes Maciel, Thomazia Dirce Perez Lora, Geralda Amaral de Moura Estevo, Miriam
Paiato

COMISSO DE RECEPO E HOSPEDAGEM

Coordenador: Maria Figueira Andrade
Membros: Teresinha da Rosa Goulart
Nylsa Sampaio Coelho
Roberto Jos Moreira Isnard
Ceclia Maria Martinelli de Oliveira
Maria Orgarita de Moraes
Nomia Pereira Neves
Lucy Osrio

COMISSO SOCIAL

Coordenador: ngelo Mangando
Membros: Rosa de Aquino Belfort Mattos
Helena de Athayde Vasone
Tarcylla de Andrade Novaes
Maria Carolina Pinto Coelho Carvalho
Olmpia Ana Sant'Ana Sawaya
Dr. Jos Manoel Monteiro de Gouva
Elza Corra Granja
Teresinha Von Zuben
Maria Luiza Sanchez da Costa
Rosa Helena Affonso dos Santos
Guiomar Costa Manso
Ceneide Maria de Oliveira Cerveny

EXPOSIO TCNICA

Coordenador:Regina Piraj da Silva
Membros: Maria Stella ZuIlo
Lourdes Martins
Isabel Calazans de Cruz
Norma da Silva Monteiro
Ins Rossi Cmara

HOMENAGEADOS

Sua Excelncia Senhor
Mal. HUMBERTO DE ALENCAR CASTELO BRANCO - DD. Presidente da Repblica

Sua Excelncia Senhor
D.  ANTONIO MARIA ALVES SIQUEIRA
Arcebispo Vigrio Capitular da Arquidiocese de So Paulo

Sua Excelncia Senhor
DR. AURO SOARES DE MOURA ANDRADE D.D. Presidente do Senado Federal

Sua Excelncia Senhor
DR. PASCOAL RANIERI MAZILLI
D.D. Presidente da Cmara Federal

Sua Excelncia Senhor
DR. RAIMUNDO DE BRITO
D.D. Ministro da Sade

Sua Excelncia Senhor
DR. ADHEMAR PEREIRA DE BARROS
D.D. Governador do Estado de So Paulo

Sua Excelncia Senhor
DR. CYRO DE ALBUQUERQUE
D.D. Presidente da Assemblia Legislativa de So Paulo

Sua Excelncia Senhor
DR.FRANCISCO PRESTES MAIA
D.D. Prefeito da Capital

Sua Excelncia Senhor
Gal. AMAURY KRUEL
D.D.Comandante do 2 Exrcito

Sua Excelncia Senhor
DR. LUIZ ANTONIO DA GAMA E SILVA Magnfico Reitor da Universidade de So Paulo

Sua Excelncia Senhor
DR. OSVALDO ARANHA BANDEIRA DE MELLO - Magnfico Reitor da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo

Sua Excelncia Senhor
DR. ZEFERINO VAZ - D.D. Presidente do Conselho Estadual de Educao

Sua Excelncia Senhor
DR. JOS CARLOS DE ATALIBA NOGUEIRA - D.D. Secretrio de Estado dos Negcios da Educao

Sua Excelncia Senhor
DR. JOS SALVADOR JULIANELLI - D.D. Secretrio da Sade e Assistncia Pblica do Estado

Sua Excelncia Senhor
DR. LUIZ DOMINGUES DE CASTRO - D.D. Presidente da Cmara Municipal de So Paulo

Sua Excelncia Senhor
DR. CARLOS DE ANDRADE RIZZINI - D.D. Secretrio da Educao e Cultura da Prefeitura de So Paulo

Sua Excelncia Senhor
DR. SEBASTIO SAYAGO LAET - D.D. Secretrio da Higiene da Prefeitura de So Paulo

Sua Excelncia Senhor
DR. EDWARD WATHERHOUSE - D.D. Presidente da Conferncia Internacional de Educadores de Jovens Cegos

Sua Excelncia Senhor
DR. ERIC T. BOULTER - D.D. Presidente do Conselho Mundial para o Bem Estar dos Cegos


PARTICIPANTES

BAHIA
Ana Maria Rodrigues de Castro - Bolsista CNEC


PAR
Nazar Leo - Escola Jos lvares de Azevedo

BRASLIA
racy Vaillatti Mafra - Superintendncia Departamento de Educao
Maria do Rosrio Penedo - Superintendncia Departamento de Educao
Pia Ignez Pieri - Secretria da Educao da Prefeitura do Distrito Federal
Moema de Almeida Andrade - Secretria da Educao da Prefeitura do Distrito Federal
Ezilda Teresa R. Pereira - Ensino Mdio do Distrito Federal
Vernica dos Santos Lamosa - Ensino Mdio do Distrito Federal

GUANABARA
Dirce Ferreira da Cunha Pires - Instituto Oscar Clark
Yacy de Oliveira Nery - Departamento de Educao Primria
Lygia Costa de Menezes - Departamento de Educao Primria
Altair Barbosa Ferreira - Cruzada de Recuperao e Assistncia aos Cegos Fluminenses
Marialva Feij Frazo - Departamento de Educao Primria
Elisionete S. Lima Cajazeira - Instituto Oscar Clark
Wanda Rodnigues Maio - Instituto Oscar Clark
Thomaz Bernardo Costa Filho - Instituto Oscar Clark
Luiz Antnio Milleccof - Sociedade Pr-Livro Esprita em Braille
Rosa Abi Ramia Haddock Lobo - Governo do Estado do Rio
Irm Maria das Graas - Sodalcio da Sacra Famlia
Irm Maria da Apresentao - Sodalcio da Sacra Famlia
Carlos Coelho Lousada - Conselho Estadual para o Bem-Estar dos Cegos
Waldemar Pinto Ferro - Instituto Oscar Clark
Francisco Jos da Silva - Associao Brasileira de Professores de Cegos e Amblopes

MATO GROSSO
Cristino P. Barbosa - Instituto Mato Grossense para Cegos
Nazareth Pereira Mendes - Instituto Mato Grossense para Cegos
Maria Garcia Pereira - Instituto Mato Grossense para Cegos

MINAS GERAIS
Virginia Amanda Lage - Hospital Carlos Chagas
Anita M. da Cunha - Secretaria da Educao
Naly Burnier Pessoa de Melo Coelho - Instituto So Rafael
Maria Mercs Marques Almeida - Instituto So Rafael
Ambrosina Viotti Azevedo - Instituto So Rafael
Edith de Abreu Souza - Instituto So Rafael
Dalva Guido Fernandes - Instituto de Cegos Brasil Central
Aparecida Garcia - Instituto de Cegos Brasil Central
Efignia Elias Vidigal - Secretaria da Educao
Maria das Mercs Fonseca - Secretaria da Educao
Ruth Soares Ferreira - Secretaria da Educao
Irm Margarida Maria Soares - Colgio Imaculada Conceio
Irm Catarina Mouro - Colgio Imaculada Conceio

PARAN
Eliza Maria Annunziatto - Instituto Luiz Braille
Dalcio Annunziatto - Centro de Reabilitao Luiz Braille
Tenente Jos Almeida - Centro de Reabilitao Luiz Braille
Brasilio Starepravo - Centro de Reabilitao Luiz Braille

PERNAMBUCO
Maria Jos Carneiro - Instituto de Cegos do Recife
Maria Clvia Calbria - Bolsista CNEC

RIO GRANDE DO SUL
Nilton Monti - APAE
lula Herve - Instituto Santa Luzia
Getlio Vargas Zauza - Instituto Santa Luzia
Irm Helena Barbosa - Instituto Santa Luzia
Irm Rosa Catharina Carollo - Instituto Santa Luzia
Susana Costa - SOEE - Centro de Reabilitao
Walqurio Ughini Bertoldo - E R. G. C.
Nlida Rosa Zorzan - Escola Antnio Francisco Lisboa
Haide C. Zorzan - Escola Antnio Francisco Lisboa
Wilma Portuguez Kortz - Escola Antnio Francisco Lisboa
Eclair Silveira - Bolsista CNEC
Marlene Oliveira Ramos - Bolsista CNEC

RIO DE JANEIRO
Dalka Viena de Moraes
Admar Augusto de Mattos - Associao Fluminense de Amparo aos Cegos
Ana Regina Abi Ramia Pereira - Classe Especializada
Solange Ribeiro do Rosrio - Cruzada de Recuperao e Assistncia aos Cegos Fluminenses
Violeta de Saldanha da Gama - Cruzada de Recuperao e Assistncia aos Cegos Fluminenses

SANTA CATARINA
Therezinha Seleme - Ginsio Estadual Almirante Barroso
Iolanda Pieczarka - Ginsio Estadual Almirante Barroso
Ana Augusta Correira - Bolsista CNEC
Teresinha Darei Gevaerd - Bolsista CNEC

SO PAULO
Maria Conceio S. Lima - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Ester Macedo - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Kiyoe Okamoto - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Jairo de B. Freire - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Fernanda Teixeira de Camargo - Fundao para o Livro do Ce~O no Brasil
Ivone Marilene Antonio - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Elisa Toma - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Keiko Tanagaki -- Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Nomia Rezende de A. Ramos - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Regina Maria Ignarra - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Marlene P. Rodrigues Silva - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Margot C. P. de Barros Souza - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Maria Lucia Telles de Siqueira - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Maria Luiza de Oliveira Lima - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Victalina Ribeiro Manrique - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Ana Carmelita Ferreira - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Norica Saito - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Maria Elisa de Oliveira Geribelo - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Maria Jos Savi Massaini - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Lucy Reinert - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Yvone Pranuvi - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Jos Ferreira Martins Junior - Associao dos Cegos de Ribeiro Preto
Dolores Munhoz Dini - Associao dos Cegos de Ribeiro Escolas para Cegos Helen Keller
Clotilde Pinto Miranda - Instituto Caetano de Campos
Wilma Pires de Miranda - Instituto Caetano de Campos
Atilio Joo Fumo - Lions Club de So Paulo - Penha
Dr. Marcos Zlochevski - Lions Club de So Paulo - Pacaembu
Francisco D'Alvia - Lions Club de So Paulo - Santo Amaro
Marilda Bossi - Biblioteca Infantil Municipal
Maria Ceclia de C. Ferraz - Biblioteca Infantil Municipal
Maria Aparecida Bianco - Secretaria de Educao
Maria do Carmo Ayres - Secretaria da Educao
Nely Garcia - Delegacia de Ensino Santo Andr
Dr. Antonio dos Santos Clemente - Federao das APAES
Yara de Oliveira Celentano - APAE
Alda Moreira Estrazulas - APAE
Ignez Aos. Enfeldt - APAE de Jundia
Azaury da Cruz Tiriba - Lar das Moas Cegas
Rosette Nazareth Oliva - Lar das Moas Cegas
Maria Helena Nolf - Lar das Moas Cegas
Elisa da Silva Leme - Instituto Padre Chico
Pedrina Sampaio Silveira - Instituto Padre Chico
Terezinha Silva Malta - Instituto Padre Chico
Luzia Aparecida Daniel - Instituto Padre Chico
Marina Pimentel de Mello - Instituto Padre Chico
Maria Ribeiro Magalhes - Instituto Padre Chico
Irm Apoline Camargo - Instituto Padre Chico
Irm Teresa Pontes - Instituto Padre Chico
Daisy Maria Belfort Furia - Instituto Padre Chico
Helena Augusta de Souza Mello - Instituto Padre Chico
Elza Silveira - Instituto Padre Chico
Isabel Teresa Guimares Alves - Instituto Padre Chico
Yone Krahenbuhl - Instituto Padre Chico
Ilda Victria T. N. Lima - Instituto Padre Chico
Hortncia Almeida de Carvalho - Instituto Padre Chico
Sylvia Rodrigues Teixeira - Instituto Padre Chico
Mariza Della Santa - Instituto Padre Chico
Olenka Reda Macedo Pio - Instituto Padre Chico
Luci Osrio Torres - Instituto Padre Chico
Vera Alice Carvalho Martins - Instituto Padre Chico
Clia Narciso Gomos - Instituto Padre Chico
Maria Jos Conrado Pereira
Thereza Adelina B. Tavares - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Erclia G. Ferraz
Thereza Ab1as Sandoval de Andrade
Orlando Candido de Mello
Cinira Roca Dordal
Maria Isabel F. Santos
Arisla Claudete dos Santos - Curso de Especializao
Luzia Ciscato - Instituto Padre Chico
Teresa Elisabee Ceccarelli - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Dr. lvaro da Figueira F. de Siqueira
Dr. Osvaldo Radeto Campanari
Ruh Magalhies Ferreira - Fundao para o livro do Cego no Brasil
Rubens Frada
Deinze Apparecida Cizotto - Fundao para o Livro do Cego no Brasil
Severina Areuri - Instituto Profissional Paulista para Moas Cegas
Angelina De Lucca Souza - Instituto Profissional Paulista para Moas Cegas
Carlos Souza .- Sociedade Organizadora de Trabalhos para Cegos
Therezinha Baungartner - Instituto de Puericultura
Helena Lavander - Instituto de Reabilitao
Ester Jorge - Curso de Especializao no Ensino de Cegos
Anary Gomes Morgan - G. E. Amenaide Braga de Queiroz
Deusiana Dias Bicalho - G. E. Prof Inah Mello
Maria Heloisa de Sousa Mello - G. E. Prof Inah Mello
Adalgisa Therezinha J. Matta - G. E. Prof Inah Mello
Julha Nakamura - G. E. Rural Alberto Torres
Eliana Barreta Saad - G. E. Rural Cel. Guido Junqueira
Cristina Midori Yamaga - G. E. Cel. Joaquim Jos
Marlene Bicha - 1 UniD. Cl. Esp. para crianas Defeituosas
Rute Savastano - Lar Escola So Francisco
Vera Maria Leite de Souza - Prefeitura Municipal de Santos
Anna Lazzati - Instituto de Reabilitao do Hospital das Clnicas
Anbal Sandano - SENAI
Geraldo Sandoval de Andrade - SENAI
Bartley Patrick Gordon - Embaixador -U.S.A.

SERGIPE
Jos Sobral         - Centro de Reabilitao "Ninota Garcia"

ARGENTINA
Ema M. C. de Chavanne - Inst. Chaqueiro para Ciegos
Maria Angola Gracia de Bassi - Inst. Chaqueiro  para Ciegos
Dora I. Saavedra - Pres. do 1 Centro de Copistas

PORTUGAL
Ana Maria Bernard Costa - Centro Helen Keller - Lisboa
Maria Luclia Freitas Lopes do Rego - Centro de Reabilitao Nossa Senhora dos Anjos

URUGUAI
Isabel Arruza Aguirre - Escuela Residencial de Ciegos y Amblopes
Maria Antonia Mintegui de Olhagaray -Escuela Residencial de Ciegos y Amblopes



SEGUNDA FEIRA, 9 DE NOVEMBRO DE 1964, 20,30 HORAS.

SESSO SOLENE DE ABERTURA

Prof.a DORINA GOUVA NOWILL. Presidente da Comisso Executiva do Congresso:

"Sras. e Srs. temos a grata satisfao de declarar aberto o I Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais. Passaremos agora,  composio da mesa que dirigir os trabalhos desta noite:
Prof. Dr. Zeferino Vaz, Magnfico Reitor da Universidade de Braslia e Presidente do Conselho Estadual de Educao de So Paulo; Dr. Edson Raymundo Pinheiro de Souza Franco, Secretrio da Educao do Estado do Par; Dr. Edward Waterhouse, Presidente da Conferncia Internacional de Educadores de Jovens Cegos e Diretor da Perkins School for the Blind; Dr. Rogrio Vieira, membro da Comisso de Campanha Nacional de Educao dos Cegos do Ministrio da Educao e Cultura; Sr. Roberto Isnard, membro da Comisso da Campanha Nacional de Educao dos Cegos do Ministrio da Educao e Cultura; Dr. Jairo de Moraes, Diretor do Instituto Benjamin Constant do Ministrio da Educao e Cultura; Dr. Agenor Prado Moreira, Chefe de Gabinete de Sua Excia. o Sr. Governador do Estado de So Paulo; D.D. Representante do Exmo. Sr. Comandante do 2 Exrcito; D D. Representante do Magnfico Reitor da Universidade de So Paulo; D.D. Representante de Sua Excia. o Secretrio do Trabalho Indstria e Comrcio do Estado de So Paulo; D.D. Representante de Sua Excia. o Secretrio da Justia e Negcios do Interior; D.D. Representante do Sr.. Diretor Geral do D. E. A; D.D. Representante do Diretor Geral do Departamento de Educao do Estado de So Paulo; D.D. Representante do Sr. Diretor do Servio de Higiene Mental da Secretaria da Educao do Estado de So Paulo; Revmo. Pe. Corbeil, membro do Conselho Estadual de Educao do Estado de So Paulo; D.D. Representante do Exmo. Sr. Secretrio de Educao do Estado de Mato Grosso; Da. Edy Pinheiro Alves, Diretora do Setor de Educao de Excepcionais da Secretaria de Estado de Educao e Cultura da Guanabara; Da. Jlia Collet e Silva, Presidente do Instituto para Cegos Padre Chico, de So Paulo; Dr. Jos Rodrigues Louz, Mdico-Assistente Administrativo do Instituto de Reabilitao da Universidade de So Paulo; Dr. Antnio dos Santos Clemente Filho, Presidente da Federao Nacional das APAES, Diretor Executivo da Campanha Nacional de Educao e Reabilitao dos Deficitrios Mentais e nosso orador desta noite."

(Execuo do Hino Nacional Brasileiro pela Banda da Guarda Civil de So Paulo).

Prof Dorina de Gouva NowilI:

"Sras. e Srs., autoridades presentes, antes de passar a presidncia dos trabalhos ao Magnfico Reitor da Universidade de Braslia, que hoje nos honra com a sua presena, que me seja permitido, como presidente da Comisso Executiva do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, dirigir nesta noite uma saudao entusiasta e carinhosa, pela contribuio, que a presena de todos os senhores traz nesta noite a este Congresso, e seguramente trar para o desenvolvimento e o progresso da Educao de Cegos em todo Brasil. A Campanha Nacional de Educao dos Cegos, que patrocina este Congresso, h trs anos, vem estendendo todos os seus esforos, a todas as regies do pas, procurando, estimular novos servios e incrementar os servios de educao de deficientes visuais existentes. Notamos, porm, que se fazia necessria uma tomada de conscincia do que existe em todo o Territrio Nacional em prol da educao de cegos. Precisvamos encontrarmo-nos educadores, tcnicos e todos aqueles que trabalham na educao e na reabilitao de cegos, neste pas imenso e que por vezes encontramos inmeras dificuldades, para atravs do nosso intercmbio, trocar experincias em favor do desenvolvimento dos programas existentes. Esta foi a razo pela qual convocamos o Congresso, que hoje os senhores vm abrilhantar. Piratininga, tocou a reunir, e o Brasil respondeu presente. Do Par aos Pampas, da Lagoa do Abaet at Cuiab, todos aqui esto, representando os servios existentes no Brasil e o desejo imenso de todos, de que os nossos servios possam progredir e satisfazer as necessidades da educao de cegos. Em nome dos educadores paulistas, de corao aberto, srs. Congressistas, a nossa saudao: que nosso trabalho seja profcuo, que tenhamos em mente o "slogan" deste Congresso: "Educar  promover" - Promover recursos para a educao e a reabilitao daqueles para os quais destinamos todos os esforos e servios; educar  elevar, educar sim,  elevar os educandos; elevar o homem para que possa atingir o fim sublime para o qual foi criado; e educar srs. Congressistas  acima de tudo libertar, libertar a infncia e a juventude, dos preconceitos e das contingncias que lhe impedem a realizao integral; educar  libertar, a inteligncia da obscuridade, da inrcia e da ignorncia; e, educar srs.,  sim, para ns educadores, libertar o esprito para que atravs do amor aos nossos semelhantes, possamos ns deslumbrar  grandeza de Deus. Finalmente, tenho a satisfao de passar a presidncia dos trabalhos ao Prof. Dr. Zeferino Vaz".


Prof. Dr. Zeferino Vaz:

"Exma. Sra. D. Dorina de Gouva Nowill, ilustre presidente da Comisso Executiva do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais; Exmo. Sr. Prof. Edson Raymundo Pinheiro de Souza Franco. D.D. Secretrio da Educao do Estado do Par, cuja presena entre ns, sobre-modo nos honra; Exmo. Prof. Agenor Prado Moreira. Chefe de Gabinete de Sua Excia. Sr. Governador do Estado de So Paulo e que representa o Sr. Governador do Estado neste Congresso, lamentando Sua Excia. o Sr. Governador no estar presente como desejava ardentemente, porque por motivos de ordem protocolar, deve estar esta noite em palcio; Exmo. Sr. Coronel Joo Batista Pereira, D.D. Representante do Sr. General de Exrcito Amaury Kruell, comandante do 2 Exrcito; Exmo. Sr. Dr. Edward Waterhouse; demais componentes da mesa; Exmas. Sras.e meus Senhores: O Presidente do Conselho Estadual de Educao do Estado de So Paulo deseja, antes do mais, agradecer a honra imerecida. que lhe conferiu a Presidente da Comisso Executiva deste Congresso, oferecendo-lhe a presidncia desta sesso solene de abertura. Devo inicialmente confessar que me sinto possudo da mais intensa humildade ao ver, que pessoas excepcionalmente bem dotadas de alma, entenderam de dedicar a sua vida ao trabalho de reabilitao funcional, daqueles que no possuem esse dom precioso que  a viso. Sinto-me tomado da mais intensa humildade, e quero afirmar-vos que guardarei a lembrana desta noite, como de um dia inesquecvel da minha vida. Falo-vos no apenas como Presidente do Conselho Estadual de Educao, profundamente interessado, em todos os problemas de reabilitao funcional e psicolgica de todos, de todos aqueles, que tem deficincias fsicas ou que tm deficincias de ordem mental ou espiritual. E falo-vos tambm na qualidade de mdico, mdico que se sente orgulhoso de ter sido o pioneiro no estabelecimento de um novo tipo de educao mdica, e da formao de mdicos que no tenham apenas a mentalidade, que se desenvolveu at agora na educao mdica, de que o mdico h de cuidar de um momento da doena, do momento clnico da doena. Mas estabeleceu o Instituto
de Educao Mdica, pelo qual se desenvolve e se incute nos jovens estudantes, que a funo do mdico,  conhecer antes, como se desenvolve a doena at o momento clnico, para que entenda o que  preveno verdadeiramente, e que, depois do momento clnico, se preocupe com a terceira fase, a reabilitao, a readaptao do indivduo que adquiriu qualquer tipo de deficincia, seja ela de viso, seja de locomoo, seja ela da respirao ou seja ela, deficincia pior do que estas fsicas as deficincias psquicas, as deficincias psicolgicas., aquelas que so capazes de transformar o homem num dependente, dependncia que o deprime, dependncia que o degrada, dependncia que o entristece., dependncia que o leva ao sofrimento. Este 1 Congresso de Educao de Deficientes Visuais  como primeiro Congresso, uma chamada de conscincia da nacionalidade, para a existncia de um problema grave, do problema de dar ao deficiente visual uma funo e uma utilidade, para que ele se sinta capaz de progredir, para que ele se :sinta capaz de ser til e no apenas um dependente. E os votos que fao agora como educador  que Congressos deste tipo, se realizem, se concretizem, e da se tirem medidas prticas para todos os tipos de deficincias. A deficincia da viso  aquela, que talvez, chame mais a ateno,  talvez a mais gritante, mas, h muitas outras, muitas outras talvez mais graves. Eu estou me lembrando de um indivduo que adquiriu a lepra, por exemplo, e que fica estigmatizado, ainda depois de curado, clinicamente, bacteriologicamente. Estigmatizado pela sociedade e pior do que isso, estigmatizado na prpria alma.
Recuperar este homem para o trabalho, recuperar este homem para sentir-se til e capaz de dar de si, porque cada um de ns s se realiza e sente satisfao profunda, quando  capaz de dar de si, um pouco para os demais. E eu me sinto humilde, quando vejo deficientes visuais, no apenas reabilitados, mas trabalhando intensamente, ardorosamente, com toda a alma, no sentido de sentir, no sentido de ver se estender a outros deficientes, aquele esprito, aquela satisfao interior profunda daqueles que so capazes de dar de si, daqueles que so capazes de realizar a caridade, no a caridade de dar pecnia, muito mais do que isso, a caridade no sentido alto que lhe deu So Paulo, na epstola aos. Corntios, a caridade de dar de sua alma, a caridade de dar de seu sangue, a caridade de dar de seu corao, fazendo algo em benefcio de algum. Quero desejar ardentemente, que deste primeiro Congresso saia um grito de alarma, uma tomada de conscincia, para que os poderes pblicos, para que os educadores, para que os responsveis pela sade pblica, prestem ateno, no apenas  educao dos deficientes visuais, mas sobretudo, para que numa campanha de profilaxia, promovam o levantamento das deficincias visuais to freqentes nas nossas crianas. Quantas e quantas crianas neste pas, tem defeitos e deficincias visuais, de que no tm conscincia, porque no sabem o que  a viso normal. Compete aos educadores, associados com os homens da sade, promover uma campanha de levantamento dessas deficincias visuais, em grande nmero de casos facilmente corrigveis, defeitos ortpticos de fcil correo e que quando no corrigidos podem conduzir  perda irreparvel da viso. Que desse primeiro Congresso. saia o grito de alarma, que desperte a conscincia de governantes e governados, de educadores e de homens de sade. E ao encerrar as minhas palavras quero cumprimentar vivamente os organizadores deste primeiro Congresso, desejando-lhes um trabalho profcuo e til, que reverter em benefcio da nossa ptria. Agora vou solicitar a secretria que proceda a leitura dos telegramas e mensagens enviadas ao Congresso".

Secretria Geral:

"Recebemos as seguintes mensagens enviadas para o 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais: Sou muito grato pelo convite que me foi enviado para a sesso solene de abertura deste Congresso formulando os votos revista todo o xito, realizao conclave. As.) Ranieri Mazzilli, Presidente da Cmara Federal; Ao 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, no momento em que na Capital do Estado de So Paulo se instala o 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, quero manifestar em nome do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no s o mais caloroso aplauso a esta iniciativa, como ainda os votos mais sinceros de que os trabalhos deste Congresso produzam os resultados que almejam quantos se interessam pelo desenvolvimento pessoal dos deficientes visuais e pela sua perfeita integrao na vida social. Deve merecer em verdade apoio decidido tanto do poder pblico como das entidades privadas e de todos quanto possuem sensibilidades para os grandes problemas humanos, a questo concernente ao amparo de que so credores os deficientes visuais.  preciso para isso incentivar o estabelecimento de programas e sistemas educacionais que confiram aos deficientes visuais condies para serem teis a si mesmos, s suas famlias e  sociedade. Mediante providncia adequada, podero eles ser integrados de tal forma na vida social que a se sentiro a vontade, pois, no figuraram como dependentes dela, na qualidade de beneficirios de favores, mas como participantes no desempenho do encargo que lhes for confiado, da tarefa comum de contribuir para o bem estar geral. Estou certo assim, de que o 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais marcar em nosso pas nova etapa na Campanha Nacional de Educao dos Cegos, estando fadada a produzir os frutos que todos ns governantes e governados, ardentemente esperamos. Porto Alegre, 9 de novembro de 1964. as.) Francisco Solano Borges, Governador do Estado em exerccio - Porto Alegre - Rio Grande do Sul; Em nome do Sr. Governador tendo a satisfao de acusar o recebimento de seu expediente datado de 7 de outubro do corrente ano, via do qual sua ilustre presidente endereou ao Sr. Governador convite para participar da solenidade de abertura do Congresso da Campanha Nacional de Educao dos Cegos a ser realizado em So Paulo no dia 9 de novembro prximo na Associao Paulista de Medicina s 20:30 horas. O governador por intermdio desta secretaria agradece a gentileza do convite o qual foi encaminhado  Secretaria de Educao e Cultura de Gois para os devidos fins. Nesta oportunidade renovo a V. Excia. os protestos de minha real estima e apreo. as.) Jos Cizenando Jayme, Secretrio Particular - Goinia - Gois; Agradecendo o gentil convite para participar do importante conclave apresento dignos organizadores do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficiente Visuais cumprimentos mui cordiais, certeza mesmo revestir-se- grande brilho, bem como, ter resultados teis e compensadores: as.) Ozair Motta Marcondes, Deputado Estadual - So Paulo -So Paulo; Pelo presente venho expressar os meus agradecimentos pelo amvel convite para assistir a sesso solene de abertura do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais que ser realizado de 9 a 13 do corrente ao mesmo tempo formular votos de xito no desenrolar do referido conclave. Aproveito a oportunidade para apresentar a V. S. os meus protestos de distinta considerao e elevado apreo: as.) Otvio Braga - Gabinete do Prefeito - So Paulo; Venho pela presente agradecer o convite de V. S. para participar do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais. Lamento profundamente que devido aos compromissos assumidos anteriormente e apesar de grande interesse que teria, no ser possvel assistir ao Congresso, tendo a UNESCO dois peritos em educao trabalhando junto ao Centro de Pesquisa Educacionais de So Paulo, estudarei com eles a possibilidade de representarem a organizao na sesso de abertura estarei sempre interessado em receber as resolues e recomendaes tomadas pelo Congresso, bem como outros documentos relativos ao assunto. Aqui permaneo ao inteiro dispor de V.Sa. e aproveito a oportunidade para enviar minhas mais cordiais saudaes: as.) Pierre Henquet, Chefe da Misso da UNESCO no Brasil: Sra. Presidente, em nome do Sr. Dr. Germano Jardim, diretor deste Escritrio Organizao dos Estados Americanos, Escritrio Regional da Unio Pan-Americana, que ora se encontra ausente do pas em objetivo de servio  me grato acusar o recebimento do seu ofcio SP 606/64 de 29/9 prximo passado, referente a realizao nesta Capital no perodo de 9  13 de novembro prximo vindouro do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais. Agradeo-lhe ao mesmo tempo o convite que teve a gentileza de transmitir ao diretor do escritrio o qual lhe dispensar a merecida ateno quando de seu regresso ao Brasil. Valho-me do ensejo para renovar-lhe as expresses do meu elevado apreo: as.) Valdemar Lopes, Diretor Adjunto da Organizao dos Estados Americanos.
Recebemos ainda, moes, telegramas e congratulaes de Da. Helena Dias Carneiro, da Sociedade Pestalozzi do Rio de Janeiro; do Sr. Incio Satustregue, diretor da Organizao Nacional de Cegos de Espanha Ministrio da la Governation; de Maria Teresa Tlio, Superintendente do Centro de Reabilitao Nossa Senhora dos Anjos, do Ministrio de Sade e Assistncia. Lisboa; de Maria Antonieta Taeschiler, Representante da American Foundation for Overseas Blind em Santiago - Chile. Luiz Pirega Gimenez, diretor do Instituto Nacional de Cegos - Peru - Lima; Deputado Juvenal Rodrigues de Moraes - Secretrio do Governo do Estado de So Paulo; Aminsio V. da Silva Servio de Orientao e Educao Especial da Secretaria da Educao do Rio Grande do Sul; Prof. Godoy Moreira, diretor do instituto de Reabilitao da Universidade de So Paulo; Instituto de Cegos da Paraba "Adalgisa Cunha"; Dr. Renato da Costa Bonfim; Dr. Richard Kanner e do Gerente do Departamento de Capacitacione y Seguritad Industrial Crdoba. Acabamos de receber tambm, uma carta do Sr. Adido Cultural Adjunto da Embaixada dos Estados Unidos da Amrica do Norte, que infelizmente, devido a compromissos inadiveis, o Sr. Embaixador Lincoln Gordon no poder comparecer a cerimnia, no entanto, ele faz votos de completo xito ao 1 Congresso".

Prof. Dr. Zeferino Vaz:

"Vou ter agora a grata satisfao de oferecer a palavra ao Dr. Edward Waterhouse, presidente da Conferncia Internacional de Educadores de Jovens Cegos.

Prof.a Dorina de Gouva Nowill: Eu tentarei interpretar Dr. Waterhouse, e ele diz que lhe foi solicitado dizer algumas palavras e ele vai comear pelo que os srs.ouviro".

Dr. Edward Waterhouse:

" uma grande honra estar representando, no apenas, a mais antiga escola de cegos dos Estados Unidos, fundada em 1829, mas tambm a Conferncia Internacional de Educadores de Jovens Cegos, que tem doze anos de vida. O mundo parece estar despertando repentinamente, para tomar conscincia do que as pessoas deficientes podem realizar. Este  o sculo em que estamos aprendendo a colaborar. Sei que h, aqui esta noite, representantes de vrias organizaes particulares, representantes de governos e servios governamentais, e eu espero que tenhamos uma excelente semana de trabalho, e estou muito orgulhoso de aqui estar com os senhores."

Prof. Dr. Zeferino Vaz:

"Muito obrigado Dr. Edward Waterhouse. E agora tenho a honra de dar a palavra ao meu caro e eminente colega Dr. Antnio dos Santos Clemente Filho que  Presidente da Federao Nacional da Associao de Pais e Amigos de Excepcionais e Diretor Executivo da Campanha Nacional de Educao e Reabilitao de Deficitrios Mentais,do Ministrio da Educao e Cultura. A conferncia versar sobre o tema "O lugar da pessoa portadora de  deficincia fsicas e mentais. na sociedade". Tem a palavra o Dr. Antnio Clemente Filho".



O LUGAR DA PESSOA PORTADORA DE DEFICINCIAS FSICAS E MENTAIS NA SOCIEDADE 

DR. ANTNIO DOS SANTOS CLEMENTE (Presidente da Federao Nacional das APAES, Diretor
Executivo da Campanha Nacional de Educao e Reabilitao dos Deficitrios Mentais).

"Srs. representantes das autoridades, srs. componentes da mesa, srs. congressistas, que aqui vieram, acorrendo de vrios pontos do pas, enfrentando dificuldades de toda ordem. as menores das quais no so sem dvidas, a distncia e o abandono de outros afazeres. Eu os ;sado. Falando a pessoas que tm por aspirao e tarefa, a reabilitao de deficientes visuais, parece-me que nada poderia ser mais importante que responder a estas perguntas. Para que desenvolver ao mximo a capacidade de suplncia do sentido ou aptido que foi negado ao deficiente? Com que objetivo faz-lo? que destino dever ele forjar com esta capacidade que ns lhe recuperarmos?por que posto dever ele lutar dentro da sociedade? Todos quantos participam da responsabilidade de fixar programas de reabilitao, sabem como  importante esta questo. Ns preparamos os deficientes, sejam sensoriais. mentais ou do aparelho locomotor, para integr-los na sociedade, mas em que grau de integrao, at que ponto sero eles aceitos pela sociedade? Como tem afinal a sociedade recebido os deficientes? Quando a humanidade se abrigava em cavernas, que tinham apenas coberto o forro, eliminava os seus deficientes to logo os percebia. Esta conduta que eufemisticamente poderamos chamar de eugnica, ainda se encontra em todas as sociedades primitivas. Menos fcil de se entender  no entanto, que a antigidade clssica, e em especial a civilizao greco-romana, eliminasse da mesma forma os deficientes, inspirada agora pelo ideal de perfeio. Homero. se Homero, realmente existiu, foi uma feliz exceo a esta regra, a mais notria entre outras excees que a histria registra. O desenvolvimento dos sentimentos religiosos, pouco melhorou a sorte dos deficientes, pois, a ignorncia impediu que a sua integrao social se processasse, e continuava como regra a sua marginalidade absoluta dentro da sociedade. A renascena viu florescer um renovado interesse na figura humana, e agora j despido do ideal de perfeio clssica, de tal forma que o deficiente comea a aparecer nos documentos da humanidade, embora  claro desconheam representaes anteriores.
So tambm mais numerosos os exemplos de deficientes fsicos, que conquistam lugares de destaque, vencendo a marginalizao que a sociedade lhes impe. No se pode dizer que a sociedade aceitava esses deficientes, antes reconhecia aqueles que a duras penas impunham  sociedade este reconhecimento. Seria o caso de lembrarmos, por exemplo, Milton e outros grandes, grandes com G maisculo com todas as letras maisculas, privados do sentido da viso, e que ajudaram a escrever a histria desse perodo do renascimento dos conhecimentos. Os sculos posteriores que se designam por idade moderna, viram crescer o interesse pelos deficientes fsicos e mentais, e as primeiras tentativas de reabilitao. Mas ainda no fim deste perodo que atinge os primeiros anos do sculo vinte, a tnica de todos os programas de reabilitao, era antes a segregao dos deficientes, numa tentativa que no sabemos se pretendia proteger, antes o deficiente, ou. proteger a sociedade contra o deficiente. No caso especfico dos deficientes visuais, os progressos no sentido da total aceitao social, foram muito sensveis nesse perodo. A reabilitao ganhou forma de cidadania e a educao especial foi em muitos pases tornada obrigatria, mas o progresso no foi geral e outros grupos de deficientes, os auditivos, os do aparelho locomotor, e o grupo maior dos deficientes mentais, continuaram marginalizados. Mas at que ponto esses deficientes reabilitados, eram aceitos na sociedade?
At que ponto se integravam, abriam caminho, ombreavam com os mais afortunados chamados normais?  um caminho longo e rduo. O esforo despendido no est nunca na proporo dos resultados obtidos, mas pouco a pouco, ganha o direito, ganha a voz para exigir os direitos que so inerentes a todas as pessoas humanas, pouco a pouco se desperta a conscincia social, e se admite a participao dos deficientes na sociedade. Lutamos pela integrao. Que o deficiente faa parte do complexo social, com os encargos e privilgios, que disso advm aproveitando ao mximo a sua capacidade, desenvolvida por mtodos que a sociedade tem obrigao de fornecer. 
 preciso que o deficiente integre a sociedade, que ela dependa do seu trabalho, como ele depende dela. Que o esforo enorme que realiza, embora para produzir minguados resultados, venha enriquecer o acervo social, como o trabalho de qualquer um dos cidados. Que se mea o esforo despendido, e no tanto os resultados obtidos. Os deficientes no pedem muito, querem ser apenas ajudados para poder ajudar, para poder ajudar como qualquer outro participante da sociedade na medida das suas foras, com o melhor de seus esforos. Se por um lado vimos como evoluiu a sociedade no sentido da aceitao do deficiente e da sua recuperao, no  menos verdade, que a sociedade evoluiu tambm das formas mais simples para um organismo complexo, e isso tambm influi na integrao dos deficientes.  relativamente mais comum e fcil, a integrao de um deficiente numa comunidade rural primitiva, do que a sua aceitao numa comunidade urbana mais desenvolvida. Isso nos pe diante da necessidade de considerar a integrao do deficiente, na sociedade atual, na sociedade em que vivemos, limitada pelos conceitos de nao, pas, e a tentativa de antever como ser o deficiente aceito na sociedade para a qual caminhamos. J foi de vrias formas visto, que a sociedade atual se distancia mais da sociedade do sculo precedente, que essa da sociedade do primeiro milnio depois de Cristo. A civilizao mecanotecnolgica que a humanidade forjou  sob certos aspectos radicalmente distinta de tudo o que conhecemos antes, e dentre suas caractersticas a mais evidente  a permanente  mudana; fatos, coisas, instituies evoluem, e se transformam de tal forma que nenhum grupo de conceitos pode ser fixo. As mudanas tecnolgicas vo em velocidade crescente transformando a fisionomia social e as formas de conceitos sociais para serem vlidos se alteram e adaptam a cada passo. Quando pensamos no futuro, quando imaginamos a  estrada que segue a frente na trilha da humanidade, os fatos parecem delinear os contornos do caminho, a conquista do espao pelo homem e a automatizao das mquinas, e a medida em que estas duas conquistas, possam afetar o destino humano. O homem libertado da priso terrena, lanado no espao, se engrandece e ombreia com os Deuses, no controle do espao e do tempo, os ideais de aptido fsica dos nossos dias so os requeridos para os astronautas, e os de habilitao intelectual so os que se exigem dos fsicos nucleares e dos cientistas do espao. Automatizao multiplica o trabalho da mquina e liberta o homem, drasticamente reduzindo a necessidade de mo-de-obra, qui levando a um cio construtivo, se soubermos aproveitar a oportunidade, ou ao desemprego e a fome e. necessariamente a marginalizao da mo-de-obra menos desenvolvida, se no soubermos aproveitar a oportunidade que se nos depara. No Brasil o relativo subdesenvolvimento, nos permite apreciar os perigos da evoluo como ela se processa nos outros pases, e quem sabe corrigi-los nos anos de espera, que esse subdesenvolvimento nos d. Mas de uma forma ou de outra, para l caminhamos, e se queremos obter o mximo das nossas possibilidades, devemos planejar o futuro, isto , antever os problemas e procurar dar-lhes soluo. A conquista do espao traz consigo aspectos positivos, que militam em favor do excepcional. Um primeiro  a propenso que temos para acertar compromissos antigos, sempre adiados s vsperas das viagens. A humanidade sente-se hoje as vsperas de uma grande viagem, a viagem do espao, e volta-se para compromissos sempre adiados, compromissos consigo mesma, para com os seus elementos menos favorecidos, para o problema da subnutrio de meia humanidade, para o problema do desenvolvimento econmico inadequado de dois teros da humanidade e tantos outros entre os quais, no em ltimo lugar est o problema dos portadores de deficincias fsicas ou mentais. O renovado interesse que se nota hoje em todos os continentes, pela sorte dos excepcionais, parece traduzir a vontade de resolver velhos problemas sempre adiados, antes da grande viagem. Outro aspecto da conquista do espao,  a reavaliao das dimenses humana diante dos prprios olhos da humanidade. Hoje o homem no se pode mais julgar o inconteste senhor do universo, talvez no seja o ponto mximo da evoluo, o pice da criao, mas apenas, um entre outros. num universo que talvez seja, um entre muitos outros, habitados quem sabe porque vidas, quem sabe porque evoluo maior. Da talvez se volte o interesse para o prprio desenvolvimento, para o desenvolvimento do homem interior, da talvez a necessidade de nos conhecermos melhor, nas nossas capacidades e deficincias, para desenvolv-las ou corrigi-las. Desenvolve-se a conscincia de que o subnormal, e normal so pontos de uma escala cujos limites nos escapam, e na qual se podem admitir graus diversos de desenvolvimento de uma mesma qualidade ou atributo desde o deficiente at o super dotado. Todo problema das deficincias fsicas ou mentais est sendo reavaliado, numa tentativa de obter o mximo da capacidade humana, que se espera expandir e desenvolver. Por outro lado quando as vistas se voltam para fora da terra, no faltam os que lembram, que nem tudo est feito aqui, que  praticamente necessrio fortalecer as bases terrenas antes de nos abalanarmos a outras conquistas. No participamos do medo de que a automatizao diminua os empregos. ao contrrio, todo o avano tecnolgico sempre resultou em ltima anlise na expanso do mercado de empregos. Tambm no cremos que a automatizao corte as possibilidades da mo-de-obra menos dotada, barre o caminho ao trabalho do deficiente. A evoluo da mquina, tem sido sempre no sentido da complexidade crescente das suas funes e na simplificao das alteraes, embora isso no se obtenha s vezes em incio. Tanto isso  verdade, que o treinamento requerido hoje para operao de um tear mecnico, altamente automatizado  menor que para operar os primitivos teares manuais. H fbricas na Holanda, onde retardados mentais, com quociente intelectual abaixo de cinqenta, montam aparelhos de preciso altamente complexos, apenas porque foi feita uma conveniente anlise das operaes necessrias e elas foram rearranjadas, dentro de um novo conceito, segundo um plano que o montador pudesse entender. Quando falamos do lugar do deficiente na sociedade, queremos significar o lugar que lhe compete integrado na sociedade, e no  sua margem; queremos dizer integrao social dos deficientes. Esta integrao no  rpida, nem  fcil, comea na famlia, traumatizada no seu ntimo pela presena do deficiente, e por isso mesmo, propensa a rejeit-lo de incio. Da rejeio inicial caminha para aceitao passiva e egostica, e desta para a aceitao ativa, o esforo consciente para recuperao e integrao familiar e social dos deficientes. Nem todas as famlias atingem essa terceira fase:  claro que no se poder pretender posio social, para algum que  marginalizado dentro da prpria famlia. Por isso, nenhum programa de recuperao, e integrao social dos deficientes, ser vlido, se no contiver o ncleo central, um programa de educao familiar, de educao dos pais. Realizada a integrao familiar resta a tarefa maior da integrao social dos deficientes.  atravs do trabalho produtivo, que o indivduo se integra na sociedade; nenhum programa educativo ser completo, sem o treinamento vocacional e profissional, sem dotar o indivduo para prover a sua subsistncia na medida em que esta subsistncia puder ser atingida pelas suas capacidades. A simples escolarizao no  um fim em si mesma, mas apenas um meio para o prosseguimento do aprendizado em bases mais prticas, das quais se derive a possibilidade de ganhar o prprio sustento. Creio que ser mais difcil conseguir hoje, misteres e ocupaes para os deficientes, dentro do complexo de produo e servios da nossa sociedade. No creio tambm que para o futuro isto venha a ser menos fcil; ao contrrio,  minha crena que o progresso da cincia e da tecnologia nos levar ao melhor conhecimento e domnio dos mtodos de aprendizados e anlise de trabalho, que afinal possibilitaro maior desenvolvimento das aptides, e maior rendimento dos trabalhos do excepcional. A integrao social, o lugar que aos excepcionais est reservado na sociedade, ter sempre a medida do sucesso dos nossos esforos; os deficientes tero em poucas palavras aquilo que nossos programas de reabilitao lhes puderem dar, da a responsabilidade que pesa sobre os ombros de quantos se ocupam dos excepcionais, onde quer que trabalhem e a que grupo de deficientes se dediquem. Do esforo de cada dia, da extenso dos programas de que participem, da iseno, da dedicao e do amor com que interpretam as restries relativas de seus educandos. resultar o menor ou o maior aproveitamento social do trabalho que realizarem e a sua menor ou maior integrao social. Sabem todos que no tenho qualificaes para falar-lhes como tcnico, e por isso me sinto pouco  vontade para adverti-los ou orient-los, mas permitam umas poucas palavras, derivadas da experincia alheia e prpria que me parecem justas nestas consideraes.
Precisamos usar palavras, para designar coisas, indivduos, qualidade, conjuntos de aptides etc. Para isso se cunharam terminologias especiais adaptadas a cada grupo.  preciso lembrar sempre, no entanto, que as palavras usadas para rotular um deficiente indicam sempre apenas impropriamente, um conjunto de impresses, obtidas de testes aplicados em determinada ocasio, com determinado objetivo, no devem nunca ter limitao, critrio de rejeio de oportunidades para os deficientes aos quais so aplicados. No podemos acorrentar os deficientes com palavras, lembro apenas um caso citado na literatura, e permitam que lembre casos, sempre referentes aos problemas de deficientes mentais com os quais estou mais familiarizado, de uma mongolide de 26 anos, com o quociente intelectual igual a 35 na escala de Binet e com idade mental de 6 anos e que ganha sua vida trabalhando oito horas por dia numa oficina de costura, costurando  mquina com a perfeio necessria para fazer trabalhos para fora e expor seus trabalhos na vitrina da loja. Alguns critrios classificariam esta jovem em nvel que no lhe concederia absolutamente a oportunidade do aprendizado que resultou na sua realizao e na sua integrao social. Ocorre-me mencionar tambm que a superproteo traz consigo uma subestima das aptides do excepcional levando, portanto a restrio das oportunidades desde educao e treinamento, e tambm, acentuar a necessidade de nos interessar por todos os excepcionais, todos os deficientes, no s pela ocorrncia de deficincias conjugadas, como tambm para conseguirmos, para todos eles as medidas de proteo e auxlio de que todos
necessitam. Ao encerrar lembro que jamais subestimaremos a fora interior que move e anima cada indivduo, e o que leva a superar o fsico e o ambiente, fora que d vista aos cegos, voz aos mudos, que levanta e faz andar o paraltico.. Entre ns, sentimos a presena desta fora, nas pessoas que superaram suas deficincias,  privados da vista se transformaram em guias e em vez de buscar apoio e proteo estendem os braos, amparam os menos favorecidos. So o exemplo vivo das possibilidades a natureza humana. Perenes agradecimentos, queles pioneiros que primeiro acenderam a lmpada de esperana que ilumina a vida dos deficientes. Penso nos trabalhadores e ontem e de hoje, aqueles que enfrentaram tabus e resistncias sociais para levar avante a tarefa de educao e recuperao dos deficientes fsicos e mentais e que os ajudam a ocupar o lugar que lhes cabe na sociedade. Mas no mencionarei nomes, alguns dos quais so especialmente reverenciados em nosso corao. Que seja este Congresso o esforo, o trabalho, e a dedicao de que foi e ser feito a homenagem que lhes dedicamos. Eu gostaria de merecer a homenagem e a honra que me foi concedida no momento em que me convidaram para lhes dirigir estas palavras, embora no merecida essa honra me foi profundamente cara, e eu agradeo. Muito obrigado".

Prof. Zeferino Vaz:

"Ao manifestar o quanto nos emocionou a sua brilhante orao, cheia de profundidade e conhecimento, mas cheia sobretudo de calor humano, desta chama sagrada de ideal, que conduz o homem, que supera todas as deficincias, este colega que  uma inspirao para todos ns.  um brilhante radiologista, um homem que merece da classe mdica o mais profundo respeito, como profissional, e que poderia dedicar toda a sua vida  sua profisso, que no lhe sobraria tempo, soube todavia, dirigir parte substancial da sua vida em benefcio de um ideal, do ideal da reabilitao dos deficientes de qualquer tipo, de qualquer grau, certo de que em todos eles se encontrar sempre alguma qualidade, que lhe permita produzir bem no servio, que lhe permita sentir se capaz na sociedade humana. Muito, muito obrigado Dr. Antnio dos Santos Clemente Filho. E agora vou ter a satisfao de devolver a presidncia da sesso a sua legtima presidente D. Dorina de Gouva Nowill."


Prof.a D. Dorina de Gouva Nowill:

"Ternos neste momento, a satisfao de fazer uma meno muito especial s organizaes que muito contriburam para a realizao deste Congresso. Organizaes que colaboraram com o Ministrio da Educao e Cultura e a Campanha Nacional de Educao dos Cegos. So elas: a Federao Nacional das APAES: o Instituto de Reabilitao da Universidade de So Paulo: o Centro do Professorado de So Paulo; a nossa Fundao para o Livro do Cego no Brasil: e muito, muito especialmente, o nosso agradecimento a este punhado de homens, que sabem realmente cumprir o que prev os estatutos da sua organizao, o Lions Club de So Paulo, e quando dizemos, Lions Club de So Paulo, permitam os senhores,  um dever, queremos mencionar, especialmente o Sr. ngelo Margarido".


Prof. Zeferino Vaz:

"Eu consulto a Sra. Secretria se h algum aviso, alguma comunicao ou alguma participao aos srs. congressistas? Nada. Ento amanh s 9 horas esto convidados todos os srs. congressistas a dar inicio ao trabalho efetivo. E encerrando esta sesso, eu quero agradecer aos srs. participantes da mesa e aos srs. congressistas, a honra que nos concederam em vir prestigiar, com presenas to ilustres, os trabalhos e a sesso solene deste 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, que eu estou certo h de realizar obra duradoura. e obra til  sociedade e a coletividade Brasileira. Est encerrada a sesso."

TERA FEIRA, 10 DE NOVEMBRO DE 1964. 9,00 HORAS.


1 SESSO PLENRIA

Presidente: Dr. ROGRIO VIEIRA
Secretria: MARIA ORGARITA DE MORAES
M. ELISA DE OLIVEIRA GERIBELLO

Ata da primeira sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais - So Paulo. Aos dez dias do ms de novembro de 1964, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina, situado  Avenida Brigadeiro Luiz Antnio, 278, 8 andar, teve incio a primeira sesso Plenria do 1 Congresso Brasileiro deEducao de Deficientes Visuais, sendo presidida pelo Dr. Rogrio Vieira, membro da comisso da Campanha Nacional de Educao dos Cegos, que tomou palavra, declarando aberta a sesso, e justificando a troca de Presidentes. Declarou que a Comisso Executiva do Congresso solicitava ao  Professor Elizirio Rodrigues de Souza - Coordenador do Plano Trienal de Educao do Ministrio da Educao e Cultura em So Paulo, permisso para tomar o lugar do Dr. Laerte Ramos de Carvalho - Diretor do Centro Regional de Pesquisas Educacionais de So Paulo, pois o Prof. Elizirio que havia vindo substitui-lo, encontrava-se afnico. Apresentou-se, o Dr. Rogrio Vieira, como membro da Campanha Nacional de Educao dos Cegos e Tesoureiro do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais. Concedeu a palavra  Secretria Geral do Congresso, D. Teresinha de Oliveira Rossi, que fez os seguintes avisos: 1) As adeses para o jantar dos Congressistas, devero ser feitas na Secretaria do Congresso; 2) Por gentileza do Instituto Brasileiro do Caf, haver nos intervalos  disposio dos congressistas "cafezinho" no dcimo primeiro andar; 3) Encontra-se na secretaria lista de inscries para visitas s Instituies, no perodo da tarde do dia doze, com nibus  disposio. partindo deste prdio s trs horas e trinta minutos. Retomou a palavra o Sr. Presidente da Sesso, dizendo que, antes de iniciar os trabalhos da Primeira Sesso Plenria. leria o regulamento do Congresso, e procedeu a leitura:

REGULAMENTO

Art 1 - O Primeiro Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais  promovido pela Campanha Nacional de Educao dos Cegos, rgo do Ministrio da Educao e Cultura, no perodo de 9 13 de novembro de 1964, na cidade de So Paulo.

Art. 2 - A direo do Congresso est a cargo da Comisso Executiva designada pela Campanha Nacional de Educao dos Cegos.

Art. 3 - So membros do Congresso todas as pessoas cuja inscrio tiver sido aceita pela Comisso Executiva e as que por ela tenham sido convidadas.

Art. 4 - Os membros do Congresso classificam-se em:
a) convidados
b) individuais
 1 - Os membros individuais esto sujeitos ao pagamento de taxa de inscrio no valor de Cr$ 1,500,00 (hum mil e quinhentos cruzeiros).
 2 - Os membros convidados esto isentos do pagamento da taxa de inscrio.

Art. 5 - S  permitido ingresso nos recintos destinados ao Congresso s pessoas possuidoras de comprovante de membro do Congresso.

Art. 6 - As atividades do Congresso se desenvolvem em:
a) Sesso solene de abertura no dia 9 de novembro s 20,30 horas. no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina, Av. Brigadeiro Luiz Antnio, 278 - 8 andar.
b) Sesses plenrias destinadas  apresentao de temas oficiais, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina - 8 andar de acordo com o programa.
c) Sesso solene de encerramento e entrega de certificado no dia 13 de novembro, s 17 horas, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina.. 8 andar.

Art. 7 - Cada um dos relatores de tema oficial, dispe de 30 (trinta) minutos para a sua apresentao.
 1 Aps a apresentao de todos os relatores de uma sesso, h uma hora, para respostas s perguntas formuladas, por escrito  mesa, que se reserva o direito de selecion-las.
 2 - Os relatores dispem de 3 (trs) minutos para responder cada pergunta.

Art. 8 - S sero aceitas perguntas formuladas por pessoas regularmente inscritas no Congresso.

Art. 9 - As apresentaes dos trabalhos podem ser ilustradas com documentao cinematogrfica, diapositivos, gravuras, grficos etc., porm sob nenhum pretexto podem ultrapassar o prazo estabelecido neste regulamento.

Art. 10 - Os trabalhos inscritos regularmente e cujos autores no comparecerem s sesses para a qual tiverem sido programados, podero ser apresentados no todo ou em parte por outro congressista, quer previamente indicado pelo autor, quer designado pela mesa.

Art. 11 - A mesa diretora em cada sesso plenria  constituda de um presidente e dois secretrios convidados pela comisso executiva.
Pargrafo nico - O presidente tem plenos poderes para cassar a palavra, adiar discusses, suspender a sesso, proibir dilogos, apartes ou debates de carter pessoal, poltico e religioso, decidindo como melhor lhe aprouver para marcha construtiva e disciplinar dos trabalhos.

Art. 12 - Os casos omissos neste Regulamento sero resolvidos pela comisso executiva.


Ao final fez um apelo para que este fosse cumprido. Prosseguindo nos trabalhos, justificou a troca de oradores: A palestra de Sra. Celina .Iunqueira, que versar sobre "A Formao Integral do Educando" e que seria o terceiro trabalho do dia, foi transferida, para o dia treze do corrente. Em substituio do Sr. Joaquim Lima de Moraes, Chefe da Oficina Protegida de Trabalhos para Cegos da Fundao para o Livro do Cego no Brasil - So Paulo - So Paulo, apresentar um trabalho sobre "Sorob - Aparelho de Clculo para Cegos". A primeira oradora D. Luzia Lopes Lima - Professora Especializada do Instituto So Rafael - Belo Horizonte, Minas Gerais, apresentou-se ao plenrio. Faltando cinco minutos para as dez horas iniciou a sua orao, cujo tema foi "Progresso e necessidades da Educao de Cegos", a que deu por terminada s dez horas e dezoito minutos.


PROGRESSO E NECESSIDADES DA EDUCAO DE CEGOS
 PROFa. LUZIA LOPES LIMA (Prof especializada do Instituto So Rafael - Belo
Horizonte - (Minas Gerais).

HISTRICO E EVOLUO - Ao tratarmos da educao de cegos, julgamos necessrio remontar a tempos longnquos. Entretanto parece-nos mais interessante comparar pessoas e pocas, em vez de citar cronologicamente os fatos. Assim, procuraremos destacar o que de mais importante se passou em relao  educao de cegos, como atitudes, conceitos e idias revolucionrias; procuraremos ainda situar o cego em cada poca, aceitando as condies que se lhe ofereciam ou se rebelando contra elas.

Nosso trabalho se iniciar da antigidade, quando, j encontraremos atitudes vrias. Em Roma, toda a educao girava em torno do fsico: visava aperfeioar o corpo e, por isso, aqueles que no pudessem dar  Ptria um trabalho fsico perfeito, eram eliminados.

Anteriormente, na Grcia, a educao espartana j apresentava as mesmas caractersticas. Atenas, se no exterminava os deficientes fsicos. abandonava-os, sendo as crianas colocadas  margem dos caminhos.

A mentalidade hebraica interpretava a existncia de defeitos fsicos como castigo divino; procuravam as famlias ocultar os portadores de deficincias, porque viam-nos como uma espcie de maldio dos cus. Falando pois dos hebreus, j podemos confrontar as pocas antiga e atual: conceitos e atitudes semelhantes nas camadas sociais, onde  diminuta a compreenso dos problemas relativos ao deficiente fsico. No  muito raro portanto, depararmos com algum que julgue ser o defeito fsico um castigo do cu.

Com o advento do Cristianismo, comea a fase de amparo s pessoas fisicamente defeituosas, construindo-se asilos, e foi essa a preocupao de S. Jernimo, Santo Agostinho e outros Padres da Igreja. A Idade Mdia, com o predomnio da religio, tendo a caridade entre as virtudes essenciais, foi poca propcia ao aparecimento de maior nmero de casas de amparo. Dessa forma, surgiu a primeira idia segregacionista, acentuada mais tarde, quando se pretendeu separar os cegos de outros deficientes.
Construam-se ento asilos para os cegos, espcie de confrarias, onde os membros se diziam irmos, tinham lugares prprios para se exibir e em algumas regies, tinham at uma lngua prpria. E, porque a mendicncia constitua um privilgio a ele concedido, o cego passou a ser explorado; era propriedade de algum. No mui raramente encontramos em nossos dias essa modalidade de tratamento dispensado ao cego.. Exploradores muito discretos. fingindo caridade, ainda so notados com relativa freqncia.

Os asilos tinham at a finalidade de mero amparo, quando surgiu na Itlia uma instituio chamada "Santa Maria dei Siege", na qual foi introduzido o ensino da msica. Talvez j naquela poca se pensasse (como at hoje se julga), que todo o cego tem ouvido treinado para a msica.

O sculo XVIII, considerado sculo da segregao e da mendicncia, foi apesar disso, marcado por um acontecimento importante: a primeira tentativa de educar o cego, dando-lhe instruo elementar. Foi quando, em 1784, Valentin Hay fundou em Paris o "Instituto Nacional para os Jovens Cegos". Surgiu dessa forma, a primeira escola residencial das muitas hoje existentes, das quais mais abaixo falaremos. Antes porm, ser interessante tratarmos de pessoas cegas que se evidenciaram por atitudes notveis, contrariando o esprito da poca. Remontando-nos ao sculo IV da era crist, vamos encontrar Didimus, em Alexandria. Estudou, apenas ouvindo as lies, teologia e filosofia humana, chegando a ser professor de teologia. Na Grcia lembramos a figura de Ho mero, cuja imaginao frtil, produziu os notveis poemas Ilada e Odissia. Mais tarde, s o 18 sculo nos mostra exemplos de cegos ilustres. Foram eles capazes de se libertar dos preconceitos segregacionistas, que como dissemos, acentuaram-se mais nessa ocasio. Na Inglaterra surgiram dois vultos: Nicollas Saunderson, que se instruiu profundamente. estudou e difundiu a teoria de Newton sobre luz e cor e foi hbil defensor da Universidade de Cambridge. John Netcalft, cuja cultura foi inferior  de Saunderson, mas que se destacou pela maneira de se conduzir: procurou viver com naturalidade entre videntes, viajando muito e praticando a natao. A histria, se no o supervalorizava, conta-nos que ele observou serem pssimas as estradas inglesas, sugerindo paviment-las com pedregulho. Na Alemanha lembramos Jacob de Netra, inventor de um sistema de escrita com letras de madeira, formando ento a primeira biblioteca para cegos, queimada, alis, aps sua morte.

Em Portugal, no sculo XIX, muito se distinguiu o famoso escritor Antnio Feliciano de Castilho, imortalizado por magnficas obras literrias. Apenas a citao desses nomes e predicados, vem provar o quanto valeu a esses cegos a fora de vontade muito mais necessria naquela poca que agora, quando a civilizao  mais evoluda.
Resta-nos ainda esclarecer que, se a sociedade daquele tempo via. de modo geral, o cego apenas como um ser fisicamente defeituoso, do meio dela surgiram pessoas que o observaram e aceitaram-no como indivduo, como criatura humana, da mesma forma que, dentre os segregados, emergiram os personagens que acabamos de citar.

Primeiramente Diderot, a quem se deve muito, pois foi o maior vulto de seu tempo. Estudou o problema do cego sob o ponto de vista da psicologia, estabelecendo teorias interessantes a respeito da percepo ttil e visual. Seus escritos foram de grande valia e revolucionrios pelas idias neles contidas. Depois Valentin Hay, fundador do Instituto Nacional para os Jovens Cegos, em Paris. Hay entusiasmou-se com os trabalhos de Rosseau sobre a educao e os do abade L'Epp sobre a educao dos cegos surdos. Depois de viajar muito e tomar conhecimento com a pianista cega Maria Tereza Von Paradis, iniciou a escola com um grupo de jovens e inventou um sistema de escrita em relevo no papel. Um dos alunos de Hay foi Louis Braille, inventor do sistema de leitura para cegos atualmente usado.

Aps a escola de Paris, Hay fundou ainda outra em S. Petersburgo Leningrado na Rssia e da em diante todas as grandes capitais da Europa. Foram essas escolas baseadas na obra valiosa de Hauy.

Tambm na Amrica o movimento tomou vulto; surgiram nos Estados Unidos, quase no mesmo tempo trs Instituies: Instituto Perkins de Boston, Instituto de Filadlfia e Instituto de Cegos de New York. O Brasil tambm cria suas escolas: no Rio de Janeiro, o Instituto Imperial dos Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant, em 1854; o Instituto So Rafael de Belo Horizonte, 1926; depois o Instituto Padre Chico, em So Paulo, em 1928 e outros. Foi esse o panorama que pudemos observar por muito tempo no tocante  educao de cegos. As escolas residenciais, o melhor sistema educativo que at ento se poderia oferecer ao cego, no cuidavam nem cuidam apenas do ensino de leitura e escrita, mas tambm da parte profissional e musical. De fato delas saram elementos de realce: do Instituto Benjamin Constant o professor
Aires da Mota Machado Filho, nas letras: do Instituto So Rafael o pianista Arnaldo Marchezotti. Com o correr do tempo, mais um passo foi dado na evoluo da educao de cegos: as escolas residenciais possuem somente os cursos primrio e ginasial, e ento muitos cegos que desejavam continuar os estudos comearam a freqentar escolas comuns. Percebia-se j que o cego poderia instruir-se entre os que vem, bastando-lhe apenas capacidade para aceitar suas limitaes e vontade para adaptar-se ao ambiente de colgio.

 o que tem acontecido na poca atual, com muita intensidade, embora no nos devamos esquecer dos exemplos antigos. O Brasil possui um grande nmero de deficientes visuais que estudam em escolas comuns.

Alguns grandes centros, porm, deram novo impulso ao processo de educao de cegos. Talvez o comportamento de muitos invidentes no convvio com pessoas que enxergam tenha inspirado a tentativa de fazer com que a criana cega no se isolasse da sociedade a que pertence, por outras palavras: pretendeu-se que era desnecessrio separar a criana da famlia, porque a limitao no a impediria de ter como as crianas de sua idade o mnimo de instruo. A tentativa se tornou coisa real, provada e aprovada.

Esse sistema educativo (educao integrada), requer logicamente um grupo de pessoas que oriente os educadores no sentido de proporcionar  criana cega um ambiente agradvel, sim, mas sem exageros de considerao. Nosso pas tambm acompanhou o movimento: D. Dorina de Gouva Nowill, paulista, professora diplomada pelo Instituto de Educao Caetano de Campos, estudou durante um ano nos Estados Unidos, de onde trouxe rica bagagem de conhecimentos, a respeito do problema que ora tratamos.
Regressando, criaram, ela e mais colaboradores, a Fundao para o Livro do Cego no Brasil, obra que assiste o cego amplamente facilitando-lhe o material para estudos e orientando-o em vrios setores.

Criou-se depois, pertencente ao Instituto de Educao Caetano de Campos e funcionando na Fundao, o curso de Especializao em Ensino de Cegos. Atualmente a Campanha Nacional de Educao dos Cegos, rgo federal, promove estgio na Fundao para assistentes sociais e psicologistas, elementos indispensveis ao movimento de educao integrada.

H hoje em So Paulo muitas crianas cegas que se educam junto de irmos e vizinhos no Grupo Escolar. E o Estado da Bahia tambm deu incio a esse tipo de educao 

SITUAO ATUAL

Do exposto, podemos observar que considerados desde tempos longnquos, os conceitos e atitudes com respeito ao invisual, esse progresso tem sido lento, comparado ao que a civilizao tenha atingido noutros aspectos.

Tratemos rapidamente da situao atual dos cegos, pois a anlise dos problemas de hoje, nos facilitar a conhecer o que precisamos para resolv-los. Falaremos especialmente do Brasil, porque nos interessa mais de perto. Outrossim, a situao brasileira  muitssimo semelhante  de outras naes. Dois aspectos podem ser considerados: educacional e profissional.

a) No campo educacional - Alm das escolas residenciais j mencionadas, existem ainda: Instituto de Cegos da Bahia, em Salvador; Instituto Santa Luzia, em Porto Alegre; Instituto de Cegos do Brasil Central, em Uberaba e outros. H em Pelotas, Rio Grande do Sul, uma escola mantida pela prefeitura; nessa escola os alunos so externos e assim, embora mantendo classes especiais para cegos, ela se aproxima do ideal de educao integrada, uma vez que a criana que l estuda no perde o contato com a famlia. O maior nmero de estudantes invisuais na escola comum. constitui-se de egressos de colgios para cegos, que ali desejam completar seus estudos. Uma minoria faz o curso primrio em Grupo Escolar, realizando-se esses, como dissemos, em So Pau]o e na Bahia.
b) No campo profissional distinguimos:
1 - pessoas que procuram emprego baseadas em suas reais qualidades: so orientadas profissionalmente e preparadas para o servio.
2 - pessoas cegas que reclamam emprego, pedindo ao empregador ateno  sua deficincia fsica. Sua carta de recomendao  pura e simplesmente a cegueira.
3 - grupo.s de pessoas cegas que possuem uma oficina de vassouras, espanadores e coisas do gnero, vendidas nas feiras livres ou nos mercados.

Existem ainda casas de amparo em que so ensinados o Braille e alguns trabalhos manuais.

Notamos, pois, que no que respeita a cegos, o Brasil tem ainda muito a desejar. O que possumos de melhor se restringe a uma pequena parte do pas..

Cumpre-nos acrescentar que, de modo geral,  bastante imperfeito o relacionamento entre a sociedade e a pessoa portadora de deficincia visual. Melhor dizendo, o cego, em sua_ maioria, no  um membro da sociedade, constitui-se em uma classe  parte. Se tentarmos explicar a razo desse separatismo cairemos num verdadeiro crculo vicioso: a sociedade no considera o cego como um de seus membros, porque ele, o prprio cego, no se entrosa nela. Est sempre desejando tratamento especial, condues gratuitas, preferncias, leis que lhe concedem favores. Por outro lado, o cego age dessa forma, porque nasceu e se criou entre pessoas que o julgavam uma criatura excepcional. Os diversos mecanismos que a famlia usa em relao ao invisual, resultam de concepes erradas, aprendidas de outros invisuais. 
Por esse motivo  que se criou em So Paulo, em novembro de 1962, o Centro de Reabilitao com objetivo de reorganizar totalmente o indivduo, preparando-o para se integrar perfeitamente na comunidade.

NECESSIDADE DA EDUCAO DE CEGOS E SUGESTES

O que dissemos do Brasil cremos poder dizer dos Estados de "per si". Em quase todos eles supomos  encontrarem-se os mesmos problemas. Permitam pois, senhores congressistas, que nos atenhamos ao caso de Minas Gerais, apenas para dar maior expanso a nosso trabalho.

A Capital do Estado possui uma escola residencial e duas associaes de amparo a cegos. Vrios ex-alunos do So Rafael estudaram e estudam em escolas comuns.

Temos tambm, e consideramos muitssimo importante um professor cego regendo classes de alunos que vem. Acresce que h um nmero razovel de invisuais trabalhando na Previdncia do Estado, bancos e indstrias.
Somos entretanto, forados a observar, que  ainda muito acentuado o esprito de segregao dentro e fora do Instituto So Rafael. Tem-se projetado vrios melhoramentos no sistema educativo para cegos, mas por enquanto a execuo de tais projetos no se fez sentir. O Instituto So Rafael agora  que procura maior contato com outros meios. Faz parte do plano de trabalho das professoras especializadas, de assistentes sociais e psicologistas que para isso precisariam estagiar aqui. A inspetoria federal do ginsio estadual do Instituto So Rafael, vem tentando despertar o interesse para tais estgios.

Acontece, porm, que as pessoas credenciadas s receberiam da Campanha uma bolsa para sua manuteno aqui e quase sempre j esto colocadas ou em vias de se colocar. Por conseguinte, ser necessrio intervir junto ao Governo e entidades particulares, a fim de que reconheam oficialmente as especializaes da Fundao e apiem financeiramente os referidos estgios.

A Secretaria da Educao j tem enviado professores a So Paulo.

O processo de reabilitao produziu um entusiasmo enorme; pensou-se imediatamente em criar um centro de reabilitao em Belo Horizonte. Entretanto, ser mais interessante e at mais lgico, tratar-se primeiramente de dar  criana cega melhor forma de educao, instruindo-a entre outras crianas.

Nosso ponto de vista baseia-se no seguinte: o processo de reabilitao, como temos tentado esclarecer em Minas, visa  reorganizao total do indivduo, preparando-o para desempenhar o papel que lhe couber na comunidade, dando o mximo do que  capaz, respeitando suas limitaes.  exclusivamente isto, e no um curso destinado a egressos da educao. Uma pessoa que, para se educar, no fosse segregada, que no se distanciasse da famlia, que tivesse, como outras crianas, oportunidades vrias para a escolha da profisso, seria mais tarde uma pessoa habilitada a viver em sociedade e no necessitaria de reabilitao. Precisaremos antes de tudo, do apoio do governo no sentido de garantir financeiramente os estgios aqui de pessoas que acompanham nosso grupo de trabalho.

Temos a impresso de que a simples divulgao pela imprensa de nossos projetos e do que se faz em So Paulo, por mais bem feita que seja, no poder motivar o interesse das autoridades e do povo pelo problema. Supomos ser necessrio coisa mais concreta. Pensamos pois, e estimaramos muitssimo a opinio dos senhores congressistas, iniciar nosso trabalho com uma experincia. As professoras especializadas, escolheriam um aluno do Instituto So Rafael, cursando o primrio, do 2 ano em diante e residente na Capital; tentaramos nos entender com os pais do aluno e com a diretoria e professores do Grupo Escolar. Sendo o nosso objetivo mostrar a possibilidade de a criana cega estudar entre videntes. naturalmente teramos certo cuidado na escolha dessa criana. Faramos ento o trabalho de uma professora da Classe Braille assistindo constantemente o aluno e orientando a professora. No estamos esquecidas de que o entendimento com a famlia do aluno e o encaminhamento deste  escola  tarefa do assistente social. Se tal pretendemos  no intuito de mostrar ao pblico qualquer coisa mais objetiva.

Concluindo, o que Minas Gerais mais precisa  que o deficiente visual se integre na sociedade; que os cegos adultos reconheam no formarem uma classe  parte e que nos dem seu apoio e colaborao no sentido de fazer que a criana cega no tenha razo para se considerar diferente de irmos e amigos que enxergam.

O senhor Presidente solicitou  ilustre oradora que entregasse seu trabalho em original,  mesa para ser encaminhado aos arquivos do Congresso, cumprimentando-a pela brilhante orao. O Sr. Presidente, suspendeu os trabalhos por dez minutos, para que fossem entregues por escrito, as perguntas referentes  primeira orao.
As dez horas e trinta minutos, foram reiniciados os trabalhos, e o Sr. presidente convidando a segunda oradora do perodo, D. Josefa Calazans da Cruz - Professora Especializada do Instituto de Cegos da Bahia - Salvador, Bahia, cujo tema foi "Programa Educacional para atender s necessidades dos Deficientes".



PROGRAMA EDUCACIONAL PARA ATENDER S NECESSIDADES DOS DEFICIENTES VISUAIS
 PROF JOSEFA CALAZANS DA CRUZ (Professora especializada do Instituto de Cegos da Bahia,
Salvador, Bahia).

Vrios so os conceitos de Educao: aquisio de hbitos, processo de adaptao, desenvolvimento de personalidade. formao do homem etc., justificando-se todos eles. Entretanto, nenhum por si s  suficiente para definir a educao em toda sua extenso. Ela consiste em tudo isso e algo mais. Os hbitos a serem adquiridos so aqueles que os indivduos em grupo aceitam como necessrios e teis, retos e importantes. A adaptao da criana implica no s na simples adaptao animal, mas, sobretudo, em um equilbrio biofsico necessrio  vida. A adaptao ao meio, no caso humano, diz respeito no s ao meio fsico e biolgico, mas aos outros seres humanos, aos seus modos de vida. A formao do homem deve consistir no apenas no desenvolvimento biolgico do individuo mas, tambm, do homem como pessoa, com todas as implicaes culturais, religiosas, sociais e morais.

Muitos dos conceitos tradicionalmente seguidos esto em via de erradicao. No particular, a educao de indivduos portadores de deficincias fsicas no constitui exceo.

A sociedade atual, principalmente em centros mais civilizados, j encara os deficitrios visuais sob novos aspectos. como indivduos que so.

Se os comportamentos adquiridos para viver como ser humano social mudam e so substitudos por outros, necessariamente tero que mudar tambm os meios de serem adquiridos,
isto , a educao.

Como sabemos, a educao de deficientes visuais tem sido feita atravs dos tempos, de modo que muito deixa a desejar. ficando o indivduo segregado em instituies e, via de regra. com campo de ocupao limitado.

Os mais modernos processos e conceitos encaram os deficientes visuais como seres iguais aos outros em tudo, faltando-lhes apenas um dos sentidos - a viso. As oportunidade de integrao do cego tm aumentado dia a dia, e para que haja um aproveitamento dessas oportunidades cabe, em contrapartida, aos responsveis pela educao do mesmo fornecer-lhe as condies que o tornem capaz de enfrentar, de igual para igual, os outros membros de seu grupo, na lida diria.

Atravs de um programa de educao bem orientado, poder ser feito esse trabalho. Muito se tem falado na integrao do cego na sociedade, na vantagem de se encaminhar a criana deficiente visual  escola comum.

E, como proceder para que este propsito seja cumprido e este objetivo seja alcanado?

A criana no vive as diversas situaes de modo dissociado. Na vida prtica o que ela encontra so fatos inter-relacionados, ligados entre si com antecedentes e conseqentes, que influiro grandemente na sua formao. Na escola necessitar, pois, de atividades globalizadas, unidas em torno de um objetivo comum - o preparo para a vida.

A organizao do programa moderno exige orientao e disposio diferentes, tendo em considerao as funes mais amplas e mais ajustadas s necessidades e exigncias contemporneas da sociedade. O ensino ou atividade escolar deve partir da inteno dos alunos no sentido de atender a algum propsito ou objetivo que possa satisfazer determinada necessidade de modo organizado e orientado.

O programa deve ser ainda orientado psicologicamente ao redor dos propsitos e objetivos dos alunos.

Ao tratarmos de programas globais sob o ponto de vista do aluno, e, principalmente, em se tratando do aluno com deficincia visual, no devemos esquecer das oportunidades que lhe faltam de entrar em contato com o mundo que o cerca e o cuidado assim deve ser maior, para proporcionar-lhe essas oportunidades.

Est provado que o mesmo programa poder ser seguido na mesma classe por estudantes cegos e videntes, com resultados positivos, devendo, entretanto, o mestre levar em considerao as condies subjetivas de uns e de outros.

Para alunos deficientes visuais, as atividades no podem ser predeterminadas, mas se realizam e se desenvolvem tendo em vista um grupo de crianas que so obrigadas a fazer frente a situaes sempre novas. O objetivo dessas atividades curriculares, sendo o de satisfazer as necessidades dos alunos. , em ltima anlise, o de desenvolver compreenso por parte deles a respeito de suas necessidades e problemas, ao mesmo tempo em que criar e fortalecer atitudes que levem  soluo de tais problemas.

O programa de atividades no se encerra, no  dado por terminado em ocasio alguma, pois, o seu objetivo  levar sempre a novos interesses e novos propsitos. Da a possibilidade de se organizar um plano flexvel, considerando os mnimos que a sociedade contempornea exige da escola. O problema , portanto. de como organizar esse plano com a integrao de todos esses mnimos, tendo em vista as possibilidades ou realidades infantis de um lado, e recursos em material e oportunidades de outro.

A criana cega em escola comum cumprir o programa para a regio e seguido por toda a classe. Havendo na escola a Classe Braille, caber  professora especializada atend-la no que diz respeito ao material em relevo e transcrio de trabalhos.

Notamos que, de modo geral, o aluno cego no tem participao nas atividades extracurriculares, limitando-se a ouvir e repetir lies como verdadeiro autmato. Sendo especializada em ensino de cegos, poder a professora da Classe Braille conseguir, junto  administrao da escola, que o aluno deficiente participe de todas as atividades comuns e extraclasse.

O mesmo diramos quanto  professora itinerante, que, pela prpria natureza de seu servio, entra em contato com maior nmero de escolas. Em ambos os casos, consideramos de fundamental importncia, no momento atual, um esclarecimento mais amplo ao corpo docente das escolas onde sero admitidos alunos cegos, antes dessa admisso. Dessa forma. deveria a professora de classe comum, antes de assumir to importante responsabilidade, ter um preparo " priori" para conseguir os objetivos desejados.

A educao da criana cega, como a de qualquer outra. deve obedecer a um programa previamente elaborado, procurando atender s suas necessidades e potencialidades.
Entretanto, mesmo assim,  de vital importncia que a aplicao desse programa seja feita de conformidade com a situao subjetiva de cada aluno. Necessrio se torna o conhecimento maior do mesmo, da a importncia do funcionamento de uma equipe especializada em torno do aluno.

O oftalmologista, que far o diagnstico e o prognstico do seu caso, dar, necessariamente, ao professor, o incio do caminho para consecuo dos objetivos.

No menos importante  a funo do assistente social. que estudar as condies de vida, atitudes da famlia etc.. procurando um maior entrosamento do binmio lar-escola.

O psicometrista e psiclogo indicaro as possibilidades intelectuais e emocionais, promovendo o segundo, atravs de um trabalho psicoterpico, uma melhor adaptao da criana deficiente.

Em seguida, vem o professor especializado. Como agente da sociedade, no pode evitar a responsabilidade de tomar decises sobre quais experincias so ou no educativas.
Portanto, trs fatores esto condicionados em relao ao professor especializado, para o bom xito na educao de deficientes visuais:
a) F no valor inerente a cada criana;
b) Entusiasmo pelo ensino;
c) Senso de responsabilidade.

F no valor inerente a cada criana - A aceitao emocional de cada criana, pelo seu valor potencial para a sociedade, qualquer que seja a sua capacidade ou conduta atual,  um dever de todos os professores de nossas escolas. Os professores que compreendem as crianas sabem que  necessrio aceit-las como so e prover experincias que iro ajud-las a realizar o melhor, com os seus prprios talentos, sejam eles poucos ou muitos.

Entusiasmo pelo ensino - Nenhum professor pode fazer um bom trabalho se no sente que est ligado  mais importante tarefa do mundo, se no gosta de trabalhar com crianas e se no deseja realizar o mximo para gui-las. O educador deve estar crescendo em sua vida pessoal quando experimenta e trabalha com novos problemas.
O mestre que  inseguro em sua existncia pessoal, que  infeliz no trabalho que est fazendo ou que  impaciente com os alunos, no se pode dedicar ao trabalho de compreender as crianas e guiar seu desenvolvimento.

Senso de responsabilidade - Antes do incio do ano letivo os professores das classes regulares devero ser informados sobre o programa e a funo do professor especializado.

Os professores devero ter a liberdade de consult-lo e devem ter suficiente conhecimento de seu trabalho para obter seu auxlio sem perturbar seu programa.

Antes de comear a trabalhar diretamente com crianas cegas, o professor especializado conferenciar com os colegas que em suas classes tm aluno.s deficientes visuais.
Estes professores precisam saber o que podero fazer e como o professor especializado poder auxili-los. Ele dever, de incio, visitar as classes para observar a criana no ambiente da sala de aula, para verificar como se acomoda a criana ao grupo, para determinar a reao das outras, verificar o equipamento especial de que necessita e a maneira do professor executar esse programa.

Cabe-lhe ainda a responsabilidade de obter ou preparar material especial de que a criana necessite como: transcries em Braille, mapas em relevo, mquinas de datilografia etc. Por esse motivo, o.s professores com bastante antecedncia devem informar ao professor especializado a respeito dessas necessidades.

Devemos lembrar que os sentimentos reais do professor sobre uma determinada criana determinaro os sentimentos e atitudes da prpria criana, de seus colegas, dos que trabalham na escola e de seus pais. Em outras palavras, sua atitude positiva de aprovao, apreciao e aceitao, provocam atitudes semelhantes por parte de todos aqueles com os quais a criana se associa. Sentir o professor sinceramente que a capacidade real da criana compensa sua deficincia, muito concorre para diminuir a importncia dessa mesma deficincia.

EXPERINCIA EM SALVADOR

O Instituto de Cegos da Bahia, embora tenha sido, por muito tempo, uma espcie de "asilo para cegos", vem passando por transformao radical nos ltimos tempos.

Tendo iniciado em 1961 seu novo perodo de atividade educacional, contando com apenas duas professoras especializadas em So Paulo, est, atualmente, com um corpo de 14 professores, sendo 10 especializadas, uma assistente social e uma psicloga, ambas tendo feito estgio na Fundao para o Livro do Cego no Brasil. Mantm classes Braille no Instituto de Educao "Isaias Alves" (Curso Ginasial, Colegial e Pedaggico) e na Escola Marqus de Abrantes (Curso Primrio), atendendo a 23 alunos com resultados os mais satisfatrios.

Iniciou, este ano, a modalidade de ensino itinerante, atendendo a quatro alunos em diferentes escolas.

No prprio Instituto funcionam 3 classes de alfabetizao no sistema Braille e uma classe de ajustamento.

Em So Paulo, atualmente, esto duas professoras especializando-se em atividades da vida diria e ensino de cegos.

CONCLUSES:

A)  da mxima importncia, para o xito de um programa de educao especial, o entendimento prvio do professor especializado com aqueles sob cujos cuidados estaro os alunos deficientes.
B) Indispensvel, tambm, para tal fim,  a programao de reunies peridicos de pais e mestres.
C) Outra colaborao que no pode ser prescindida  a do Orientador Educacional e do Assistente Social.

Terminada a palestra s dez horas e cinqenta e cinco minutos, o Sr. Presidente retomou a palavra e procedeu da mesma forma que findos os trabalhos da primeira oradora.
s onze horas e cinco minutos foram reiniciados os trabalhos; o Sr. Presidente reiniciou os trabalhos convocando o congressista Sr. Joaquim Lima de Moraes para apresentar seu trabalho. Antes, porm, a palavra foi concedida ao Sr. ngelo Margarido - Coordenador da Comisso Social do Congresso, que convidou os Congressistas para um jantar no Esporte Clube Pinheiros. s onze horas e oito minutos o orador iniciou a terceira palestra da 1 sesso. Colaboraram com o Sr. Joaquim Lima de Moraes, na demonstrao prtica do uso do Sorob, o Sr. Jairo de Moraes, na parte de operao de soma e subtrao, com participao do plenrio e D. Hortncia Almeida de Carvalho, na parte de operaes de multiplicao, diviso, decomposio de nmeros em seus fatores primos e mximo divisor comum de dois nmeros. Dr. Edward Waterhouse props um nmero para que fosse extrada sua raiz quadrada. O orador demonstrou as vantagens do sorob em clculos articulados com o uso da mquina Braille. Agradeceu a oportunidade de apresentar o aparelho, que considera o melhor e convidou D. Wilma Pires de Miranda professora do Instituto
de Educao Caetano de Campos - So Paulo - para citar experincias e resultados obtidos com o sorob.



SOROB - APARELHO DE CLCULO PARA CEGOS 
 SR. JOAQUIM LIMA DE MORAES. (Chefe da Oficina Protegida de Trabalhos para Cegos da Fundao p/a o Livro do Cego no Brasil- SP.).

"O sorob ou baco japons apareceu na Grcia cerca de trs sculos antes de Cristo. Aps invadirem esse pas os romanos adotaram o sistema sorob de calcular e o divulgaram em seu imprio. Ainda esto em uso na Rssia, China e Japo, modelos antiquados do sorob moderno que tem cinco contas por eixo.. O modelo russo tem dez contas por eixo; o chins, sete e, o japons, seis.

 inconteste serem os japoneses os fabulosos campees de velocidade no clculo aritmtico pois, empregando um sorob comum de 21 algarismos, tm vencido competidores que se utilizam modernas mquinas de calcular.

No podendo calcular num sorob para videntes, utilizei-me de um cubartimo para estudar a teoria do sorob; dando aos cubos os valores das contas do sorob em suas diversas ordens. Assim verifiquei que os cegos podiam efetuar as quatro operaes sobre nmeros inteiros e, como dispusesse de instrues para essas operaes apenas, inventei processos que me permitiram efetuar todas as outras operaes aritmticas.

Recebendo em janeiro de 1949, os trs primeiros sorobs adaptados para cegos, cuja execuo confiei ao fabricante de sorobs para videntes, Sr. Ikumossuke Miyata, verifiquei que a quinta conta de retngulo largo podia ser eliminada, sem prejuzo para nenhuma operao aritmtica mas at com grande vantagem para o tato. Dessa poca em diante, as encomendas de sorob para cegos foram executadas com cinco contas por eixo.

A borracha compressora, cuja funo  comprimir as contas aos eixos a fim de permitir a leitura ttil sem desmanchar os algarismos, foi aplicada ao sorob em julho de 1949, cem a valiosa colaborao de meu aluno, Sr. Jos Valesin, hbil arteso que cursara o Liceu de Artes e Ofcios de So Paulo, quando vidente. Esse melhoramento facilitou bastante a escrita de nmero e ampliou consideravelmente a velocidade do clculo para cegos, comparada com a que podia ser atingida antes, quando os eixos eram envernizados com a mesma finalidade. Desde ento, o sorob de 21 algarismos para cegos, tornou-se um aparelho perfeito, que atende cabalmente s necessidades, tanto de estudantes de qualquer grau de ensino, como as de comerciantes, industriais, engenheiros etc.

Havendo constatado que podia efetuar no sorob todos os clculos aritmticos, e, conseqentemente, os que deles se derivam, com surpreendente rapidez e exatido e, tambm, que as crianas e adultos, analfabetos ou no, aprendiam com muita facilidade a calcular no sorob, resolvi divulgar o que havia descoberto.

Publiquei em 1951, com o ttulo desta exposio, a primeira edio de 120 exemplares sobre a maneira de efetuar no sorob todas as operaes aritmticas. Desde o incio de minhas pesquisas contei com o decidido apoio da FUNDAO PARA O LIVRO IDO CEGO NO BRASIL (FLCB), que transcreveu para o Braille a mencionada edio. Presenteei, ento, todas as escolas brasileiras para cegos com um sorob e um exemplar das explicaes em negro e, a FLCB, presenteou-as com um exemplar em Braille. A mesma ddiva tambm foi enviada a muitos brasileiros que se interessaram pelo assunto.

Fiz a divulgao do novo sistema no exterior, presenteando, tambm, com um sorob e um exemplar das explicaes em tinta, s principais instituies e escolas para cegos dos seguintes pases: Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai, Bolvia, Peru, Equador, Colmbia, Venezuela, Panam, Costa Rica, Porto Rico, Estados Unidos, Canad, Inglaterra, Alemanha, Itlia, Espanha e Portugal solicitando-lhes um parecer sobre o mtodo. Poucos foram os pareceres favorveis e, numerosos, os desfavorveis.

Demonstrei a eficincia do sorob, submetendo-me em muitas ocasies,  efetuao de todas as operaes aritmticas, acompanhadas em geral por calculistas ao quadro negro, perante diretores, professores e estudantes de casas de ensino, rdio e televiso, seguintes:

Em So Paulo - Instituto Padre Chico; Curso de Especializao para Professores no Ensino de Cegos, mantido pelo instituto de Educao Caetano de Campos, no qual figura como disciplina h cerca de dez anos; Escola Politcnica (onde foi criado um curso facultativo) e Escola de Arquitetura da Universidade de So Paulo; rdio e televiso.

No Rio de Janeiro - Instituto Benjamin Constant.

No exterior, como bolsista da Organizao Internacional do Trabalho (OIT) em 1959:

Em Washington - Department of Health, Education and Welfare; Department of Vocational Rehabilitation. Government of District of Columbia;

Em Nova Iorque - American Foundation for the Blind Inc. (AFB), (importou de So Paulo, 50 sorobs de 21 algarismos adaptados para cegos, para estudos em 1960); Abilities Inc. (a famosa indstria de Henry Viscardi que s emprega deficientes fsicos)

Em Mineapolis, Society for the Blind; 
Em Toronto - Canadian National Institute for the Blind; Ontario School for the Blind Canadian Broadcasting Corporation, televiso;

Como consultor especial da American Foundation for Overseas Blind, Inc (AFOB) - Fundao Americana para Cegos de Alm-Mar - para colaborar com os poderes pblicos e particulares na organizao de dois centros de reabilitao para cegos em Montevidu (1961) e em Bogot (1962) e na criao de uma oficina protegida de trabalho para cegos em Montevidu (1964).

Em Montevidu Centro de Rehabilitacin para Ciegos Tibrcio Cachn y Talleres Anexos (onde instru dois professores e o sorob faz parte do processo de reabilitao) Departamento tcnico de Enseaza Especial; Asociacin Christiana de Jvenes;

Em Bogot - Centro de Rehabilitacin para Adultos Ciegos (onde instru dois professores e o sorob faz parte do programa de reabilitao); Federacin Nacional de Ciegos Y Sordomudos; Universidad Catlica Javeriana.

O pequeno xito alcanado na tentativa de introduzir um novo processo de calcular entre os cegos no me desencorajou, pelo contrrio, a cada insucesso, redobrava os esforos, pois estava e continuo convencido da excelncia do mtodo e no tenho dvida em afirmar que "o sorob  o sistema ideal de clculo para cegos", superando em todos os aspectos, qualquer outro aparelho usado pelos cegos at o presente.

Corroboram plenamente a alegao acima, duas notcias que me encheram de jbilo e que seguem:

a) Transmitida durante a palestra proferida por D. Dorina de Gouva Nowill, ilustre presidente da FLCB, em que relatou aos funcionrios da obra, sua participao na Conferncia Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, realizada em 1963, em Nova Iorque: "Nos Estados Unidos, j no se pensa em ensinar Aritmtica s crianas cegas, a no ser pelo sistema sorob";

b) Insuspeito depoimento me foi prestado no dia da instalao deste "Primeiro Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais" pelo nobre congressista, Dr. Waterhouse, eminente diretor do mundialmente famoso "Perkins Institute", que h cerca de dez anos me declarava no ter uma opinio formada, pr ou contra o sorob:
"Selecionamos dois grupos equivalentes de estudantes. A um ensinamos Aritmtica pelos processos tradicionais e, a outro, pelo sorob. A avaliao final revelou que o grupo do sorob havia aproveitado 40% mais do que o outro".

 com prazer que informo aos distintos congressistas ter recebido em maio deste ano, o honroso convite de D. Teresinha Fleury Rossi, dinmica chefe do Departamento de Educao da FLCB, para escrever novas explicaes sobre o sorob. Trs razes motivaram tal solicitao:

a) Preferncia pelo sorob demonstrada pela maioria de estudantes e professoras diplomadas pelo Curso de Especializao de Professores no Ensino de Cegos, mantido pelo Instituto de Educao Caetano de Campos de So Paulo;
b) A necessidade de divulgar os processos aperfeioados e simplificados de multiplicar e dividir no sorob, assim como o de colocar antecipadamente o sinal decimal no produto e no quociente, conseguidos em 1960;
c) A convenincia de que toda professora especializada disponha de um exemplar das explicaes para consulta.

A segunda edio, revista e melhorada, que tambm ser transcrita para o Braille pela FLCB, j est bem adiantada, devendo estar concluda em princpio de 1965.
Como a FLCB j transcreveu para o Braille todos os compndios de Matemtica necessrios aos cursos primrio. ginasial e clssico, estou escrevendo unicamente sobre a teoria do sorob. Isto reduzir a nova edio quase  metade da primeira.

Agradeo  Campanha Nacional de Educao dos Cegos e aos congressistas que gentilmente cooperaram propondo clculos nesta exposio, a excelente oportunidade que me ofereceram de demonstrar a eficcia do sorob, a to ilustres representantes de entidades estrangeiras e nacionais.

Estendo meus agradecimentos. aos professores especializados que h longo tempo vm dando sua preciosa colaborao na difuso do sorob, prometendo-lhes providenciar  para que, com a maior brevidade, possam dispor de suficientes aparelhos e explicaes, a fim de mais comodamente desempenharem sua nobre misso.

Aos professores que abnegadamente aprenderam o Braille para ensinar os cegos, mas que ainda no se decidiram a difundir o sorob, fao um veemente apelo: "Dem mais um passo  frente em sua abnegao". Os aparelhos tradicionais de clculo para cegos podem ser bons, mas o sorob  muito melhor. 
Antes de concluir peo licena para salientar a importncia que tem no meu caso, o papel representado pelo sorob, em comparao com outros instrumentos utilizados na reabilitao de pessoas cegas. Quero referir-me ao Braille e  bengala longa de alumnio.

Tendo aprendido o maravilhoso Braille aos 40 anos, e, lendo nestes ltimos 18 anos durante umas duas horas por dia, no consigo ler mais de 30 palavras por minuto.
Isto , um dcimo de 300 palavras por minuto, que  quanto podem ler vrias pessoas de minhas relaes.

A bengala longa me proporcionou uma reabilitao quase total. Embora andando mais lentamente que antes e, sempre necessitando de amabilidade de um transeunte para atravessar ruas de grande trfego, disponho de inteira liberdade e segurana de locomoo, apesar das pequenas esfoladuras na testa, de vez em quando.

A reabilitao no clculo, conseguida atravs do sorob, superou qualquer expectativa, pois voltei a competir em rapidez e exatido com hbeis calculistas do lpis".

s onze horas e trinta e oito minutos o Sr. Presidente agradeceu ao orador e congratulou-se com todos os oradores do perodo, por terem cumprido fielmente o horrio estabelecido pelo Congresso e procedendo a seguir como nas vezes anteriores..

s onze horas e quarenta e oito minutos o Sr. Presidente reiniciou a sesso, convidando dona Luzia Lopes Lima para responder s perguntas que lhe foram formuladas.
Cada pergunta foi lida pelo Sr. Presidente, para que a oradora e presentes tomassem conhecimento. As mesmas sero arquivadas junto a presente ata, sendo ainda, relatadas a seguir juntamente com as respectivas respostas:

1 PERGUNTA: "Falou-se em professor cego dando aula para alunos videntes. Desejamos saber:
a) alunos de que grau?
b) qual o aproveitamento da classe;
c) condies burocrticas: -  efetivo? contrato?"

RESPOSTA:
a) O professor rege uma classe. H professores que do aulas particulares para todos os graus, na prpria residncia ou na casa do aluno. O professor citado  o nico que rege classe;
b) quanto ao aproveitamento: - grande xito com a classe de admisso regida por ele;
c) o professor  contratado pelo Seminrio e sua classe de admisso  particular".

Houve um aparte do plenrio para o esclarecimento quanto  possibilidade da pessoa que formulou a pergunta, no julgar a resposta satisfatria.. O senhor  presidente esclareceu que o interessado deveria dirigir-se a ele, para que solicitasse ao orador melhor esclarecimento, e  no formular urna segunda pergunta diretamente.

2 PERGUNTA: "No seria mais interessante, que o Instituto So Rafael e congneres, recebessem um certo nmero de crianas videntes, para melhor ajustamento social da criana cega?"

RESPOSTA: "Levar o cego para a sociedade e, no, levar videntes para a escola de cegos o que seria segregao de cegos e videntes".

3 PERGUNTA: "Os princpios apontados no trabalho apresentado se aplicam a todas as pessoas cegas e devem ser desenvolvidos em todo o territrio nacional?"

RESPOSTA: - "Podem ser aplicados, sim, em todo o territrio nacional".

4 PERGUNTA: - "Gostaria que explicasse melhor o exemplo citado de classe Braille?"

RESPOSTA: - "A Classe Braille  aquela em que o professor fica no estabelecimento, atende o aluno, orientando-o".

5 PERGUNTA: - "Falou-se na tentativa de colocar crianas em classe Braille na Capital de Minas. Por que uma e no vrias? Pode uma professora especializada cega orientar satisfatoriamente urna criana cega e uma professora comum, no desenvolvimento de um programa de educao elementar (primria)?"

RESPOSTA:
a) Porque foi um pensamento, urna idia para experimentar. Gostaramos que todos freqentassem, mas no antes de se formar o Departamento de Educao. Foi a ttulo de experincia;
b) Quando falamos em colocar o cego na sociedade, colocar mesmo, no se fala de uma pessoa cega e sim de uma professora especializada "".

6 PERGUNTA:
a) "Solicitamos que esclarea bem, para os congressistas, com relao  atual situao dos alunos invidentes que estudam em classes comuns, entre colegas de viso normal, acentuando que apenas no curso primrio ainda no se iniciou o entrosamento do aluno invidente nas classes de ensino comum. Nos cursos secundado e superior j  rotina essa iniciativa?
b) Seria oportuno, tambm, acentuar, com relao ao trabalho do professor cego em Belo Horizonte: a) professores que lecionam particularmente a alunos de viso normal;
b) professores contratados por estabelecimentos de ensino; c) professor que mantm curso particular de admisso"..

RESPOSTA:
a) "Parece que o esclarecimento j foi feito, no possumos criana cega em escola comum primria, mas jovens deficientes visuais que estudam em escola comum (clssico, normal e cientfico;
b) J foi respondida;
c) existe professor que leciona numa classe comum".

7 PERGUNTA: - "De fato uma criana bem orientada e educada ser um adulto que no necessitar de reabilitao mas e os adultos cegos que dela necessitam para integrar-se na sociedade? No seria interessante que houvesse j um centro que lhes permitisse tal integrao no Estado de Minas?"

RESPOSTA: - "Seria muito interessante criar-se o Centro de Reabilitao.. A reabilitao  necessria, mas  difcil pleitear-se duas coisas ao mesmo tempo.  muito importante educar a criana cega, diminuindo-se assim o nmero de pessoas cegas que precisam de reabilitao".

8 PERGUNTA: - "Se os videntes podem ser educados em regime de internato, porque os no videntes no podem?"

RESPOSTA: - "Mesmo o vidente tem dificuldades quando freqentam internato.. A pessoa cega cuja famlia teve dificuldades na orientao e depois foi para o internato, quando se forma adulta sente muitos problemas".

A seguir o senhor presidente convocou o segundo orador do perodo para responder as perguntas formuladas;  a equipe formada.

1 PERGUNTA: - "Tendo em vista as necessidades da educao global de um lado e as dificuldades do outro, como pode o professor vencer estas dificuldades?"

RESPOSTA: - "De acordo com o meio, na base da dedicao, para funcionar e ter proveitos. Com horas extras".

2 PERGUNTA: - "Sendo o Instituto de Cegos da Bahia uma instituio essencialmente tradicional, inicialmente com professoras no especializadas, encontrou a nova equipe obstculos na integrao do cego no meio social?"

RESPOSTA: - "Foi difcil. Quando as duas primeiras professoras especializadas chegaram encontraram professoras que trabalhavam no ritmo da segregao. Trabalharam muito pedindo apoio das escolas e da Secretaria da Educao. Merecem toda considerao de nossa parte".



3 PERGUNTA:
a) "Sendo o Servio de Atividade da Vida Diria desempenhando por enfermeira com um curso de especializao, poderia justificar a escolha de uma professora para, futuramente exercer tal cargo?
b) Qual seria seu trabalho na Escola, sabendo-se que faz parte de uma equipe. Seria um trabalho individual?

RESPOSTA: - "Gostaria que essa pergunta fosse respondida pela tcnica de Atividades da Vida Diria, em sua palestra na sexta-feira".

O senhor presidente fazendo uso da palavra agradeceu a colaborao da professora e solicitou a presena do orador da terceira palestra:

1 PERGUNTA: - "Na hiptese da existncia de um sorob original, h possibilidade de adaptao?

RESPOSTA: "No  muito fcil porque o sorob original para vidente  mais frgil, no precisa de borracha para prender as contas. De modo que pode ser feito, mas ao colocar o parafuso poder rachar. A lateral do sorob para vidente  muito mais frgil".

2 PERGUNTA: - "O sorob d noo de nmero? Como?"

RESPOSTA: - "D noo perfeita de nmero. Conhecendo os trs sistemas de acordo com minha experincia pessoal posso afirmar isso. A transposio  automtica e no atrapalha. (um aparte -  possvel ensinar a aritmtica no sorob?) -  possvel. H formulas que sero distribudas at fevereiro ou maro mais ou menos".

8 PERGUNTA - "No existe perigo, com relao ao uso do sorob, para os clculos matemticos, que o estudante invidente, principiante, se limite a aprender a colocar os algarismos no aparelho que lhe d com rapidez os resultados das operaes e que no aprenda a executar racionalmente as referidas operaes? No h perigo, na  prtica de que o aluno aja, assim mecanicamente, sem apelo ao raciocnio? Para que classes ou para que idades se recomenda o uso do sorob?"

RESPOSTA: - "A pessoa cega que recuperasse a vista e tivesse que calcular a lpis, teria dificuldades. No h interesse e m saber como os videntes calculam a lpis,  rgua e  mquina. Ao ficar cego no me serviu mais o que sabia antes. Na minha prpria reabilitao, considero a recuperao mais perfeita que tive; no h nada automtico no sorob.  como se faz com o lpis e no cubartimo. No sorob pode-se livrar do perigo da automatizao. No prejudica o raciocnio absolutamente. H eficincia, pois h alunos que se colocaram em primeiro lugar.  preciso muita dedicao por parte dos professores, para que aprendam um sistema que seja eficiente para o cego".

Seguiram-se observaes e sugestes de congressistas.

4 PERGUNTA: - "Gostaria, que o professor Joaquim pudesse, oferecer em carter particular, instrues prticas, elementares, de adio no sorob. Estou interessado, pois tenho o aparelho".

RESPOSTA: - "Lamento no poder atender prontamente, mas est sendo impresso e, to logo fique pronto, poder ser distribudo. Peo pacincia. O que existe feito em Braille  de certo modo ultrapassado".

O Sr. Presidente fazendo uso da palavra, pede uma salva de palmas ao orador dando, em seguida, a palavra ao Sr. ngelo Margarido, que fez avisos sobre a parte social.
O Sr. Presidente antes de encerrar a sesso, pediu desculpas pela prpria deficincia, no que foi altamente contrariado. Comunicou ao plenrio que as perguntas e o original de cada trabalho foram para os arquivos do Congresso. Foi ento lavrada a presente ata que depois de lida e aprovada ser assinada pelo Sr. Presidente e pelas secretrias. So Paulo, 10 de novembro de 1964. ass. Rogrio Vieira, ass. Maria Orgarita de Moraes. Ass. M. Elisa de O. Geribello..



TERA FEIRA, 10 DE NOVEMBRO DE 1964. 14:00 HORAS
2 SESSO PLENRIA

Presidente: MONSENHOR ALBERTO ABIB AMBERY

Secretaria: MARGOT CAMARGO PENTEADO DR BARROS SOUZA E HAYD APARECIDA RAZZO.

Ata da segunda sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais - So Paulo. Aos dez dias do ms de novembro de 1964, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina, situada  Avenida Brigadeiro Luiz Antnio, 278, 8 andar, realizou-se a segunda sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, presidida por Monsenhor Alberto Abib Ambery, do Instituto para Cegos "Padre Chico", de So Paulo. Dando incio a sesso o Senhor Presidente, justificou o porqu de sua presena e disse que h apenas dois anos trabalha no Instituto "Padre Chico", onde exerce as funes de assistente eclesistico e de orientador educacional. Disse ser sua representao simblica, dada a antigidade da instituio, que representa e o pouco tempo de trabalho na mesma, o que traduz o esprito de renovao to clamado pela poca atual. A seguir alou sobre a histria e a organizao do Instituto. Frisou, novamente a importncia do esprito de renovao dizendo querer despojar-se de tudo que  arcaico para renovar sempre dando aos deficientes visuais a educao Que eles realmente merecem. Agradeceu a D. Dorina de Gouva Nowill, a honrosa incumbncia, tomando-a como uma dvida de colaborao ao "Padre Chico". Relembrou, a seguir, o tempo regulamentar para a exposio dos temas e chamou a primeira conferencista, D. Maria de Lourdes Gomes Guerra, professora especializada da Secretaria de Estado dos Negcios da Educao e Cultura de Pernambuco, que discorreu sobre o tema: "Formao de pessoal".



FORMAO DE PESSOAL
MARIA DE LOURDES GOMES GUERRA. (Prof especializada da Secretaria de Estado dos Negcios da Educao e Cultura de Pernambuco -Recife, Pernambuco.


CONSIDERAES GERAIS

Chamamos educao ao conjunto de modificaes que se operam no organismo de um indivduo, em seu comportamento e em sua personalidade. Modificaes estas que ocorrem num sentido progressivo levando o homem a identificar-se com a vida nas suas mais variadas situaes.

A educao atualmente vem perdendo seu carter apenas intelectualizante e vem procurando dar ao ser humano uma vivncia sempre relacionada com todos os atos da vida, "preparando o indivduo para a vida pela experincia ou prtica da prpria vida".

Este conceito mais amplo, mais globalstico de educao no  to novo, pois Santo Toms j a definia: "educar  formar o homem todo". Apenas para ns  que, s h pouco tempo vem se tornando realidade.

A educao globaliza em si as mltiplas atividades que visam a formao integral do ser humano, podendo ser assim especificada:
- formao fsica
- formao intelectual
- formao moral
- formao social
- formao cvica e poltica
- formao econmica e profissional
- formao artstica
- formao religiosa

A funo de educar para atingir todos os fins da educao assume vrios aspectos tais como: regras destinadas a alargar a soma de conhecimentos (instruo ou experincia cultural); reduto de aptides (profisso); integrao social etc.

A esta funo de educar, orientar, instruir que atualmente assume to variados aspectos, exige pela sua complexidade, que no apenas um profissional - o professor - se arvore ao direito de realiz-la. Numerosas experincias constatam a eficincia e o xito da educao quando realizada com o subsdio de outras cincias, e de outros profissionais.

Junto  criana, objeto de educao, aqui considerada em seu qudruplo aspecto:
- corpo que cresce,
- mente que se desenvolve,
- personalidade que desabrocha,
- alma que se aperfeioa,

 que se faz necessria a atuao de profissionais qualificados que mediante suas especialidades, faam prevalecer o verdadeiro objeto da educao: a formao integral do educando.

TIPO DE PESSOAL

Se constatamos o valor e a eficincia da tarefa educativa quando realizada em ao conjunta (professor e outros tcnicos), em se tratando de educao comum, esta necessidade aparece altamente intensificada com relao  educao especial.

Citaremos aqui o tipo de pessoal existente, com algumas variaes, em organizaes pblicas ou particulares que visam a educao da criana excepcional e particularmente os deficientes visuais, nos Estados de So Paulo, (Fundao para o Livro do Cego no Brasil), Guanabara, (Subseco de Educao Especial) Rio Grande do Sul, (Servio de Orientao e Educao Especial) Mdicos - neurologista, psiquiatra. oftalmologista, otorrinolaringologista; Professores de: ensino acadmico, educao fsica, recreao, terapia da linguagem, artes industriais e fisioterapia; Psiclogo, Assistente Social e Orientador Educacional.

Estes profissionais formam uma equipe, trazendo as mais variadas contribuieS cientficas, baseadas numa mesma filosofia, tendo como centro de interesse a criana excepcional.

So Paulo, Estado onde a educao do deficiente visual atinge o ndice mais elevado de desenvolvimento, mantm atravs do Departamento de Educao Especializada da Fundao para o Livro do Cego no Brasil, 35 professores especializados, assim distribudos:

CASSES
N PROF.
Classe braile
10
Classe Ajustamento (def. mental cego)
02
Classe Preparatria
01
Setor de Educao  de def. audiovisual
01
Classe de Adulto
01
Ensino Itinerante
11
Centros Regionais de  Ensino Itinerante
03
Ensino Domiciliar
06
TOTAL
35

A Subseco de Ensino Especial do Estado da Guanabara atravs do Ensino Itinerante, d assistncia educativa a 10 crianas cegas e 17 amblopes, distribudas por 21 escolas de 15 Distritos Educacionais, dispondo do seguinte tipo de pessoal: Mdico 0ftalmologista, psiclogo (coordenadora do servio) ProfessoreS itinerantes.

Diversos Estados da Unio tais como: Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia, Paraba, Pernambuco, Alagoas e Par j contam com pessoal especializado que realizou cursos ou estgios na Fundao para o Livro do Cego no Brasil. Contudo, este pessoal especializado representa uma parcela mnima, sendo o mesmo insuficiente para compor os quadros de professores das instituies, bem como a realizao do ensino integrado atravs de: Classe Braille, Ensino Itinerante e Ensino Domiciliar.

A falta de pessoal com preparo tcnico especializado, impede que nestes Estados, sejam formadas as equipes profissionais que tanto representam na educao da criana excepcional.

IMPORTNCIA DA FORMAO DE PESSOAL

"O fato de viver implica no ato de aprender. A aprendizagem reclama uma dupla atuao que se denominam: docente e discente". Da a complexidade da razo de ensinar e aprender.

Existe um conjunto organizado de atividades que se dirigem tanto para o ato de ensinar, como para o ato de aprender. As atividades que se dirigem no sentido do ato de ensinar so as que vo promover a formao dos educadores e de todos aqueles profissionais que, direta ou indiretamente colaboram com a tarefa educativa.

Diz Alice Descoeudres "o trabalho do educador no deve ser imposto e sim escolhido por ele. Precisa antes de tudo de uma personalidade prpria para o caso. o carter importa mais que o saber. Porm, uma vez eleito para o cargo  necessrio capacitar-se para ele."

A formao tcnica  que vai capacitar o indivduo para uma determinada profisso.  mediante esta formao que se vo construir e organizar a sua conduta intelectual, moral e social. Como tcnica esta formao implicar em condies que alm de capacitarem o indivduo a exercer com perfeio os atos inerentes  sua funo tais como: "como exercer", "como realizar", "como organizar", "como educar"; deve ainda promover os meios que permitam a integrao e o ajustamento do profissional  profisso.

Outro aspecto que vale ser mencionado  o da escolha da profisso. Nenhuma imposio, nenhum interesse que no seja o da educao deve influir nesta escolha. Pois quando escolhemos uma profisso estamos, de certo modo, adotando uma filosofia de vida.

A vocao seria a condio ideal para a escolha de uma profisso.  falta da verdadeira vocao, apela-se para aptido, esta,quando reconhecida e explorada devidamente, atravs de uma boa formao tcnica, substitui com eficincia a vocao.

Que se d pois, condies convenientes e estmulos favorveis para que, maior seja o nmero de profissionais, que se dediquem ao trabalho educativo da criana excepcional, consciente destes dois princpios:
a) "Nada nos pode dar to verdadeira satisfao, tanto impulso e entusiasmo como um trabalho bem feito. Uma obra perfeita harmoniza-se com o prprio princpio do nosso ser que foi criado para a perfeio".
b) " necessrio primeiro formar-se para depois formar outrem".

Inclumos ainda aqui a necessidade e importncia da formao da famlia.

No se pode educar uma criana deficiente, sem que seus familiares compreendam e participem do processo educativo.

A maioria dos desajustes, inadequaes e frustraes de uma criana deficiente, tiveram a sua origem na famlia, no relacionamento anormal que se estabelece entre pais e filhos, logo que tomam conhecimento de que seu filho  uma criana diferente.

Quando esta criana chega a idade escolar, as preocupaes se tornam maiores porque chegou o momento de expor o filho deficiente ao mundo e isto constitui, para a maioria dos pais, uma das mais cruciantes provas.

Paralelamente  orientao e educao da criana, torna-se indispensvel a orientao e formao dos pais. A estes dever ser dado a entender que seu filho tem as mesmas caractersticas das outras crianas, apenas com uma limitao e como tal, carecendo de recursos especiais para conseguir ajustar-se satisfat5riamente  vida.

"A vida infantil  um potencial fecundo e ansioso de desenvolvimento e de evoluo".  preciso que haja sincronizao de esforos - pais e educadores - para que se possa favorecer este desenvolvimento e evoluo. E o problema da liberdade aqui aparece. A experincia mostra que a criana deficiente, sobretudo a deficiente visual  to1hida, cerceada nas suas mais preliminares expanses e iniciativas. Os pais precisam compreender at onde se faz necessria a sua ajuda, considerando os desejos e o potencial do filho, para movimentar em primeiro lugar estas foras. E em vez de superproteger a criana, estimular a sua iniciativa prpria e espontaneidade.

Servios de educao especial, tais como: Departamento de Educao Especializada da Fundao para o Livro do Cego no Brasil, Servio de Orientao e Educao Especial do Rio Grande do Sul, e outros existentes nas maiores capitais do Brasil, incluem nos seus programas educativos, a orientao e formao dos pais atravs de: Crculo de Pais e Mestres, Psicoterapia, Clube de Mes etc.

Mesmo considerando que, a lei de Diretrizes e Bases da Educao determina o enquadramento dos excepcionais, no sistema geral de educao, impondo portanto aos poderes pblicos a obrigao de dar aos excepcionais, condies adequadas para a sua educao, os pais destas crianas no se devem isentar da responsabilidade de colaborar, dentro de suas possibilidades, com iniciativas que visem a construo de um "mundo melhor" para a criana deficiente. Compete-lhes, portanto, tomar parte ativa ao lado dos demais profissionais, cientes de que no conseguiro alcanar para os seus filhos uma vida proveitosa e feliz, a no ser que estejam dispostos a fazer o mesmo por outras crianas deficientes. Haja visto o exemplo das APAES (Associao de Pais e Amigos do Excepcional) que vem tornando, em todo o Brasil, uma realidade a educao da criana retardada.

MEIOS DE FORMAO EXISTENTES NO CAMPO DA EDUCAO DOS DEFICIENTES VISUAIS

A populao brasileira em idade escolar, orada em aproximadamente 8.000.000 (oito milhes) de crianas, conta com uma mdia de 25% ou seja 2.000.000 (dois milhes de crianas que exigem mtodos prprios de ensino emendativo. Inclusos nestes dados esto:
- os menores abandonados,
- os surdos totais,
- os portadores de deformaes fsicas,
- os anti-sociais,
- os cegos,
- os oligofrnicos,
- os leprosos,
- os surdos que no falam,
- os deficientes da linguagem,
- os delinqentes.
- os psicopatas (internados),
- os surdo-cegos-mudos.

Alto  o ndice de crianas deficientes e poucos so ainda, entre ns, os meios existentes que favorecem o preparo adequado de pessoal destinado a assisti-los educativamente.

S nos ltimos vinte anos  que, as nossas autoridades vm se alertando para o problema, e atravs de organismos governamentais, faz-se tentativas de seleo e melhor preparo de pessoal.

So Paulo ocupando a liderana na cultura, conseqente de sua liderana econmica, coloca-se na vanguarda, oferecendo o que de mais moderno existe para a formao de pessoal.

No campo da educao dos deficientes visuais, temos o Curso de Especializao em Ensino de Cegos no Instituto de Educao Caetano de Campos em colaborao com a Universidade de So Paulo, Escolas Oficiais, Obras Sociais e Educacionais da capital paulista.

A existncia deste curso, data desde o ano de 1945 (em carter experimental) e em 1946 (em carter oficial). Sendo reestruturado em 1948, por D. Dorina de Gouva Nowill. Que o fez funcionar com idntica orientao ao da Universidade de Colmbia nos Estados Unidos.

A sua durao  de um ano letivo.
So admitidos como alunos professores primrios e secundrios.

Disciplinas ministradas no curso:
a) Antomo-Fisiologia Patologia do Globo Ocular -Nesta cadeira so dadas noes sobre o Aparelho Visual, suas funes e Patologia.
b) Braille - So ministrados conhecimentos sobre o sistema Braille, leitura e escrita de textos. Musicografia, Matemtica e utilizao do Sorob, aparelho de clculo adaptado para o uso do cego.
c) Efeitos Psicolgicos da Cegueira - Dentro do esquema da Psicologia Geral  organizado o programa de Efeitos Psicolgicos da Cegueira. Esta cadeira inclui tambm estgios em hospitais psiquitricos, clnicas psicolgicas, etc.
d) Metodologia -  dada a orientao para realizao do ensino especializado atravs do conhecimento e experincia das tcnicas apropriadas.
e) Reabilitao e Orientao Vocacional - Noes sobre reabilitao do cego, Servio Social, e Orientao Vocacional.
f) Artes Aplicadas - Conhecimentos prticos sobre a confeco do material didtico necessrio a concretizao do ensino da criana invidente.

Os portadores do diploma do Curso de Especializao em Ensino de Cegos ficam qualificados a ingressar na carreira de professor especializado, j regulamentada no Estado de So Paulo.

Aos professores, dos vrios Estados do Brasil,  dada a oportunidade de freqentar o curso na qualidade de bolsistas da Campanha Nacional de Educao dos Cegos.
E aos professores, residentes no interior ou capital do Estado de So Paulo, so concedidos 10 comissionamentos.

Vale dizer que, se deve a existncia deste curso e de outras iniciativas no menos valiosas, no tocante a formao do pessoal necessrio  educao e reabilitao do cego, a Sra. Dorina de Gouva Nowill, idealista autntica e dinmica batalhadora desta causa e pioneira do trabalho em So Paulo.

A Fundao para o Livro do Cego no Brasil, atravs de seus departamentos: Educao Especializada, Psicologia, Servio Social e Imprensa Braille, oferece inestimvel contribuio para melhor formar e atualizar os diferentes profissionais de So Paulo, demais Estados do Brasil e ainda de alguns pases latino americanos.

Mencionamos, tambm como meio de formao, o Curso de Especializao de Professores em Ensino dos Cegos, do Instituto Benjamin Constant, Estado da Guanabara.

CONCLUSES GERAIS

Do Assunto exposto podemos concluir:
1) A educao moderna toma novos rumos, amplia e aprofunda seu conceito de formao, e muito embora esta evoluo da educao comum, no se faa paralela  educao especial, esta ltima apresenta tambm, ultimamente, perspectivas j bem promissoras.
2) De acordo com os fins da educao, impe-se a necessidade de habilitar a criana deficiente visual, considerando-a como um todo, para uma vida til e feliz.
3) A tarefa educativa atualmente, exige a atuao de uma equipe constituda de profissionais especializados tais como: mdico, professor, assistente social, psiclogo e orientador educacional, para melhor garantir o xito da educao.
4) Existe uma necessidade quantitativa e qualificativa de pessoal, carecendo pois, de recursos para a formao e estmulo para que maior seja o nmero de profissionais a ingressar no campo da educao dos deficientes visuais.
5) Em conseqncia do insuficiente nmero de tcnicos especializados, ou ainda da existncia destes em alguns Estados do Brasil, na maioria apenas o professor, sem nenhuma articulao com profissionais que tenham idntica formao,  que ainda prevalece, nestes Estados, a educao segregada, em instituies, que conservam os padres tradicionais de educao.
6) A doao de bolsas de estudo representa um excelente recurso para formao de pessoal.
7) Na seleo dos candidatos a bolsas de estudos, seja dada a preferncia aos profissionais j com experincia no campo de trabalho, ou que demonstrem interesse comprovado pelo ramo da educao especial.
8) Criao de ncleos regionais com a finalidade de realizar o controle tcnico dos estabelecimentos e  servios de educao, visando com esta medida a unificao e entrosamento do trabalho dentro do mbito nacional.
9) Neste trabalho procuramos dar uma viso panormica do que j se realiza, no tocante  formao de pessoal, no campo da educao da criana cega no Brasil.

No final da exposio o presidente agradeceu a conferencista e sugeriu ao plenrio que no houvesse o intervalo regulamentar, o que foi plenamente aceito. Passou depois a palavra ao segundo expositor, Dr. Maury Atanes, oftalmologista do Hospital das Clnicas e da Fundao para o Livro do Cego no Brasil, que apresentou o trabalho sobre:
"Determinao e extenso do problema da cegueira no Brasil".


DETERMINAO E EXTENSO DO PROBLEMA DA CEGUEIRA NO BRASIL
DR. MAURY ATANES - Mdico oftalmologista da Fundao para o Livro do Cego no Brasil e do Hospital das Clnicas da Universidade de So Paulo - So Paulo.

O problema da cegueira no Brasil pode ser observado por diversas facetas, que procuraremos evidenciar no decorrer deste trabalho motivado pela experincia neste campo, adquirida nestes ltimos anos na Fundao para o Livro do Cego no Brasil e no Hospital das Clnicas da Universidade de So Paulo.

Inicialmente, devemos trazer a tona o problema do mdico oftalmologista, pois  dele que depende o diagnstico, tratamento, mtodos de preveno e nos casos de perda de acuidade visual o encaminhamento aos centros de Reabilitao. Aps o curso mdico, estgio de dois anos em Hospital de padro cientfico reconhecido oficialmente e ttulo de especialista conquistado junto ao Conselho Brasileiro de Oftalmologia mediante concurso, o oftalmologista encontra-se frente ao problema do alto custo dos aparelhos de consultrio que de uma maneira geral fogem na maioria das vezes s possibilidades individuais. Assim  diferente o incio da carreira de oftalmologista se o compararmos com os mdicos clnicos que necessitam unicamente de estetoscpio e esfignomanmetro. Talvez resida aqui a causa do pequeno nmero de mdicos especialistas em oftalmologia e o seu agrupamento nos grandes centros urbanos.

A relao mdico-paciente deve ser encarada tambm com realismo, pois na maioria das vezes o mdico evita transmitir ao paciente ou seus familiares o prognstico definitivo, temendo uma reao contrria dos mesmos. No  raro observarmos pacientes cegos h mais de 20 anos ficarem completamente fora de si quando transmitimos aos mesmos nosso parecer de que a cura  impossvel e que deve procurar os meios prprios  sua reabilitao para futuramente participarem da sociedade.

Os familiares em sua grande maioria ainda no adquiriram a conscincia do problema do no vidente procurando esconder do mesmo a verdade e assim prejudicando a evoluo normal da reabilitao. No so raros os casos do mdico no enviar seus pacientes a uma instituio porque sabem que perdero os mesmos, que passaro  peregrinao pelos consultrios at que um mdico consciente ou inconscientemente lhes d esperana de cura.

Para se fazer uma determinao do problema oftalmolgico no nosso meio, mister se faria necessrio um levantamento estatstico da incidncia das diversas molstias oculares causadoras de cegueira e ambliopia, para que assim se determinassem zonas onde certas afeces fossem mais comuns para serem posteriormente tratadas ou evitadas.

 difcil agrupar as diversas afeces oculares, no entanto, procuraremos caracteriz-las baseando-nos no atendimento dos pacientes que procuram o Hospital das Clnicas. 

Inicialmente temos que dividi-las de acordo com a incidncia nos grupos etrios diferentes, pois  na infncia que existe o maior perigo de se ficar cego, sendo que na idade adulta a cegueira se instala com maior freqncia depois dos 60 anos.

Assim so causas mais comuns de deficincia visual na infncia o glaucoma congnito que  a elevao da presso intra-ocular nos primeiros meses de vida e que leva a perda total da viso por destruio dos tecidos nobres do globo ocular. Como a sua etiologia est ligada a uma m formao congnita do tecido existente no ngulo da cmara anterior seu incio deve ser observado pela me ou pelo mdico pediatra sendo seus sinais principais o lacrimejamento, fotofobia e aumento do globo ocular. O tratamento  sempre cirrgico e deve ser feito nos primrdios da doena.

A conjuntivite neo-natorum provocada durante a gestao ou durante o parto, causa ainda em nosso meio grande nmero de cegos pois as crianas no so submetidas ao mtodo preventivo de Cred que consiste em se instilar colrio de nitrato de prata a 1% no fundo do saco  conjuntival aps o parto.

As avitaminoses so causas comuns de inflamao de todo globo ocular e nos obriga a enucleao do mesmo.

A fibroplaza retro-cristaliniana felizmente tende a desaparecer, pois atualmente podemos prevenir e impedir o seu aparecimento atravs da descoberta de sua causa, como seja, o grande aporte de oxignio nas crianas prematuras nas incubadeiras.

O estrabismo ou desvio do eixo ocular, quando no tratado precocemente e at os 10 anos de idade, por um processo de inibio leva a perda funcional do olho estrbico, impedindo a viso binocular e a sensao de profundidade, limitando as atividades profissionais futuras do indivduo.

Na idade adulta, um dos maiores causadores de cegueira, -  o glaucoma pois elevando a presso intra-ocular de uma maneira progressiva e lenta destri a retina e nervo ptico. Esto em seu diagnstico precoce as maiores possibilidades de tratamento, mas este s  feito em exames de rotina para prescrio de lentes em consultrio, pois sua sintomatologia inicial  to pobre que passa despercebida. A percepo de halos coloridos em torno das lmpadas, dores oculares e modificao constante da refrao so sinais iniciais e que devem ser investigados, procurando se evidenciar um possvel glaucoma incipiente.

O tracoma que  uma infeco crnica e altamente transmissvel da conjuntiva, leva  cegueira pelas suas seqelas, existindo regies no Brasil em que  endmico.

A catarata, que  a opacificao do cristalino j no constitui, atualmente, causa de cegueira pois  facilmente percebida pelo paciente em virtude da baixa progressiva da acuidade visual que acarreta obrigando-o a procurar meios de tratamento. Com a cirurgia moderna, a no ser os casos de complicaes no ato ou ps-operatrio  possvel cur-la.

As intoxicaes, principalmente pelo lcool, fumo etc.. levam  atrofia do nervo ptico cortando portanto o elemento necessrio  transmisso dos estmulos luminosos da retina ao crebro e como conseqncia a cegueira total irrecupervel.

Com a industrializao crescente do pas, aparecem os traumatismos oculares que no raras vezes levam a perda da viso e do prprio globo ocular, pois os meios de proteo por falha do empregado ou empregador so na maioria das vezes obsoletos ou no usados, e so os mesmos atendidos por seus prprios companheiros de trabalho ou por enfermeira no especializada.

O descolamento da retina atualmente em virtude dos mtodos cirrgicos aperfeioados tende a diminuir sua contribuio ao mundo que celebrizou Braille.

Concluindo, temos que realar o grande avano mdico no tratamento das diversas afeces oculares atravs de mtodos teraputicos antes no usados.

Deveria se estabelecer inicialmente em nosso meio uma pesquisa de mbito geral para evidenciao das maiores causas de cegueira e sua localizao.

Medidas de carter mdico, destinadas a melhorar as condies do paciente j afetado, medidas mdico-sociais destinadas a persuadir o paciente a tratar-se, melhorando seu padro de vida e reflexamente de doenas hereditrias que acarretam a cegueira, atravs de exame pr-nupcial compulsrio; cuidados pr-natais e hipervitaminoterapia, mtodo de Cred como preventivo nas conjuntivites do recm-nascido, isolamento dos casos de tracoma e notificao obrigatria dos mesmos, exames compulsrio nas escolas para atravs do diagnstico precoce das diversas afeces e da correo das ametropias so meios para favorecer o progresso da criana na vida escolar e dar-lhe possibilidade futuras de desfrutar de posio na sociedade.

Depois do agradecimento por parte do presidente ao conferencista, a Secretria-Geral do Congresso D. Teresinha Fleury de Oliveira Rossi fez um aviso referente s adeses ao jantar de confraternizao e tambm uma comunicao aos senhores congressistas sobre a existncia de um restaurante na Associao Paulista de Medicina.
Um congressista sugeriu que as pessoas que tivessem perguntas a fazer se inscrevessem para faz-las oralmente. O presidente respondeu que atendendo ao regulamento do congresso, isso no seria possvel. Outro congressista sugeriu que se passasse imediatamente a terceira conferencia que seria feita por D. Mathilde Neder, Psicloga do Instituto de Reabilitao da Universidade de So Paulo, a qual por motivos imperiosos no pde comparecer, sendo sua tese lida por D. Luiza Banducci lsnarD.



TREINAMENTO SENSORIAL, EDUCAO E REABILITAO, EM FUNO DA EXPERINCIA SENSVEL
MATHILDE NEDER - Psicloga encarregada do Servio de Psicologia do Instituto de Reabilitao da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo - Psicloga da Clnica Psicolgica da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo.


J ouvimos dizer que o cego vive em um mundo prprio. por ele criado, diferente e distante daquele dos videntes. Pensaramos ser verdadeiro o dito, no sentido referido por Krech e Crutchfield (1, pgs. 4 e 19): "Cada homem vive em seu prprio mundo" e esse mundo " aquilo de que ele tem experincia interior: o que percebe, sente, pensa e imagina". O mundo de cada homem  assim diferente do mundo dos outros homens, porque diferente  o seu crebro, o seu sistema nervoso, seu ambiente fsico e social. Sua filosofia, valores, sua formao, enfim, contribuem para isso. Percebendo o mundo de forma diferente, cada pessoa se comporta tambm diferentemente, subordinado que est seu comportamento ao seu mundo particular.

Nossa percepo  determinada por um conjunto de fatores, inatos e adquiridos (3, cap. IV) e seriam seus principais determinantes: 
- os estmulos fsicos, que atingem o aparelhamento sensorial;
- o estado psicolgico, que inclui o conjunto de experincias das pessoas;
- e o aparelhamento fisiolgico do organismo (1, cap. 1).

A percepo ocorre em funo das caractersticas dos estmulos fsicos e das relaes existentes entre eles: os objetos e os acontecimentos fsicos, compreendendo os ltimos as mudanas e movimento, tm uma estrutura e uma localizao, no tempo e no espao. Respeitadas as variaes individuais, ns os percebemos destacados dos outros, mas em relao com eles, como partes que formam um todo, ou como todos menores. que formam todos maiores. Esses objetos fsicos, diferindo pelo tamanho, forma, tessitura, cor, sons, odores, sabores, impresses, so tambm percebidos com qualidades de energia, com poder de ao sobre outros objetos e tambm com qualidades expressivas, afetivas e fisionmicas.

Tais determinantes fsicos da percepo atingem os olhos. os ouvidos, o nariz, a lngua, a pele do indivduo, cada campo sensorial com suas qualidades especficas e distintas.

Mas a percepo no depende, inteiramente, de um aparelhamento sensorial especfico; os sentidos se completam, funcionando conjuntamente, e de tal forma interagem, que pode ocorrer a sinestesia, quando um estmulo de um tipo de receptor dos sentidos produz sensaes num outro campo sensorial. (1, cap. II). Nesse sentido, estudos vrios se realizaram, relacionando cores com notas musicais e, na atualidade, sabemos que investigaes so feitas estudando como os cegos podem sentir as cores, pelo tato.

Dissemos que a percepo recebe a influncia dos objetos e ocorrncias fsicas. Ela depende tambm daquele que percebe, da pessoa que v, que sente, que ouve. Depende dos seus motivos, das suas emoes, das suas predisposies. A pessoa, face ao estmulo, nunca  neutra (1, cap. V), mas seu organismo encontra-se em estado de prontido para responder a ele. A predisposio existe com variaes.  motora, quando a prontido  especfica para a eminente reao muscular; mental, quando referente a certo processo de pensamento e perceptual, quando existe a prontido para uma organizao especfica de estmulos (1, cap. V). As predisposies existem por influncia:
a) da experincia anterior;
b) de fatores pessoais capitais, como as necessidades, emoes. atitudes e valores.

No campo das experincias individuais  importante a freqncia com que o padro de estmulo foi percebido anteriormente, no sentido de contribuir para criar a predisposio.
Mas essa freqncia por si s no basta, j que ela pode ser superada quando novas experincias so recebidas de esclarecimento, determinando a melhores condies de predisposio.

Tambm se pode dizer que, de algum modo, as experincias anteriores recentes tendem a criar maior predisposio do que as experincias antigas; contudo, isso no  seguro j que, mais que a proximidade temporal das experincias, vale o padro temporal dos estmulos, vale a relao percebida entre os elementos da experincia, criando a expectativa do que deve vir a seguir. (2, cap. IV, pg. 115; 1, cap. V).

No que diz respeito  influncia dos motivos na predisposio  percepo, quanto mais significativos os alvos desejveis para a satisfao das necessidades pessoais, mais forte ser o estado de prontido para perceber. Os resultados, entretanto, no so considerados decisivos; variaes so encontradas desde que se leve em considerao a integrao existente entre outros fatOres da predisposio, alm das variaes de fOra dos motivos.

As emoes predispem  percepo, podendo a pessoa reagir perceptualmente em funo do seu estado emocional. Esse estado do organismo, estado de excitao, compreende a experincia emocional (o sentimento), o comportamento emocional e as alteraes fisiolgicas do corpo, constituindo as denominadas disposies que do o colorido afetivo s novas experincias de vida, seja no sentido positivo ou no sentido negativo. De tal forma a disposio emocional invade e impregna o ambiente, que muitas vezes este  percebido como se tivesse a mesma caracterstica da disposio. Costuma-se dizer que a pessoa feliz v "tudo azul", ou tudo "Cor de rosa", acha tudo certo, tudo bem, tem mais complacncia e pode mostrar-se mais doadora. Para a pessoa melanclica o mundo pode parecer melanclico; pode algum ter diminudas suas disposies para bem viver e a vida parecer-lhe pouco digna de ser vivida. As disposies podem vir carregadas de maior ou menor tenso e, assim, de maior ou menor calma. Nas suas variaes, giram as disposies em torno das de felicidade, satisfao e alegria ou das de tristeza, insatisfaes e depresso. Nos estados de disposio para com o mundo exterior, podemos ento dizer, com Krech e Crutchfield, que em geral se salientam dois aspectos, principais das disposies:
a) serem agradveis ou desagradveis e
b) o grau de tenso, como conseqncia do estado emocional, muda as percepes que a pessoa tem da situao, intensificando a mesma emoo.

Para uma pessoa muito amedrontada objetos neutros se transformam em perigosos e  aumentada a sua angstia. Por outro lado, reais mudanas ambientais podem tambm originar-se do comportamento da pessoa e assim , por exemplo, que a fora do cime do homem ou da mulher pode lanar a pessoa amada nos braos do rival (1). A respeito das emoes, consideremos ainda que elas podem perturbar ou auxiliar as pessoas nas suas reaes e aquisio de novas experincias. Nesse sentido, referimos em trs itens o parecer de Krech e Crutchfield: 
1) para emoes ativas, tais como a clera e o medo, a emoo pode auxiliar na possibilidade de respostas motoras mais vigorosas;
2) a clera e o medo intensos podem prejudicar os processos racionais;
3) uma emoo perturba ou auxilia, de acordo com o carter especfico da situao.

Falamos de motivao, de emoo, de predisposio. Podemos falar agora, da personalidade, aspecto pessoal mais duradouro e sua relao com a percepo. Sabemos da importncia do aspecto biolgico, seja pela hereditariedade, congeneidade ou pelas aquisies ps-nascimento. E tambm conhecemos a importncia do fator social na caracterizao da pessoa. A maneira de ser de cada um depende ento de qual seja sua condio fsica e funcionamento fisiolgico, depende do ambiente social e contexto cultural em que ele se forma. Pichot e Delay comentam a participao da personalidade como um todo, na percepo do mundo (3, cap. IV) "a percepo do mundo implica na sua estruturao, em primeiro lugar, na segregao dos objetos que ns percebemos como figuras se destacando do fundo. Esta segregao depende das propriedades gerais do campo, mas tambm de fatores individuais, refletindo os diferentes componentes da personalidade, adquiridos e inatos, intelectuais e afetivos". Essa direo dada  percepo, pela Psicologia da Forma (gestaltpsychologie), d tambm a compreenso de todo da pessoa. em que aspectos podem ser "isolados" pelo destaque, mas que nunca deixam de se constituir em figuras que existem num fundo, como partes integradas de um todo. E seria por esse todo que se perceberiam os objetos e os acontecimentos fsicos.

Dentro da concepo de personalidade, um aspecto se impe e  de nosso interesse focalizar, pela sua importncia no processo perceptivo: o eu (1, cap. VIII). O eu  aquilo que o indivduo sente como sendo ele, o seu eu.  uma integrao de percepes, sentimentos e pensamentos.  o corpo a parte mais material do eu. Atravs dele se percebe um objeto e  ele tambm objeto de percepo. Percebemos o nosso corpo atravs dos sentidos, mas no s atravs dos receptores externos e sim tambm atravs de receptores internos, que do informaes sobre o funcionamento do corpo e sobre o ambiente interno. Ouvimos muito de ns, sentimos nosso odor, tocamos e sentimos nosso corpo com as mos, temos sensaes de presso e tenso, dor e sofrimento, calor e frio. Percepo de posio e movimentos decorrem das sensaes de esforos e tenso, atravs de receptores internos distribudos pelos msculos, articulaes e tendes. Diferentemente dos demais objetos por ns percebidos, a percepo do nosso corpo por ns mesmos resulta tanto do conjunto de impresses dos aspectos internos do objeto, como dos seus aspectos externos. Percebemos o corpo e percebemos com o corpo. Ns o percebemos como tendo determinada forma, cor. tamanho, fora ou fraqueza, beleza ou feira, dotado de energia e de capacidade de interao com o meio ambiente. O modo particular como cada um percebe o seu corpo influi nas condies psicolgicas da pessoa. Embora o corpo seja normalmente sentido como parte do eu, em circunstncias especiais o corpo e o eu podem ser percebidos como separados. Nesse caso, quando h a perda ou alterao drstica em alguma parte
do corpo pode esse fato no ser sentido como amputao do eu (seria o caso da percepo do membro fantasma, por ex.). Inversamente, pode ocorrer que a perda de uma parte do corpo, bastante valorizada pela pessoa, seja percebida como amputao do "eu," parcialmente destrudo (seria o caso, por exemplo, do sentimento de autodesvalorizao ou autodestruio que podem ter certas pessoas, quando perdem a viso).

Todas as pessoas formam um conceito sobre si mesmas e formam tambm uma concepo de como deveriam ser ou atuar. Para tais concepes, alm da influncia das experincias pessoais, muito contribuem as influncias sociais, familiares e culturais, quando padres de comportamento e de maneiras de ser so apresentados como desejveis, em detrimento dos aspectos no desejveis. Atitudes e valores de familiares, amigos e sociedade em geral. atuam para essa concepo do eu, particularmente no seu aspecto corporal.  comum encontrarmos entre familiares atitudes de inaceitao de certas incapacidades fsicas em qualquer dos seus membros, podendo tais atitudes influir na imagem que uma pessoa venha a fazer de seu prprio corpo.

Os preconceitos existentes, de uns cm relao a outros, so bastante complexos e incluem tambm os fatores perceptuais. alm dos de emoo, motivao ou da personalidade, como um todo. A percepo e a maneira de sentir se interagem. em relao de causa e efeito. O modo pelo qual uma pessoa percebe outra ir contribuir na determinante de como essa outra ir sentir-se a seu respeito; por outro lado, o modo de sentir de uma pessoa em relao  outra contribuir para determinao de como essa outra  ir perceb-la.

Tendo anteriormente nos referido a determinantes fsicos e psicolgicos da percepo, faremos agora breve referncia ao importante aparelhamento fisiolgico do organismo:
quando um estmulo incide num receptor, este "inicia um impulso nervoso que vai aos nervos sensoriaiS e o impulso passa, atravs dos nervos, para o crebro" estando, receptores e crebro, constantemente em ao. "A percepo  determinada pela configurao integrada de atividades que se do em grandes partes do crebro". (1, cap. 1).

Falamos sobre a percepo, genericamente, dirigindo-nos ao homem comum, ao ser humano simplesmente. Os homens diferem entre si, na capacidade sensorial e h condies individuais para tanto. Uma das razes da diferena entre os mundos perceptuais  a incidncia de deficincias sensoriais.

Tais deficincias sensoriais empobrecem a experincia perceptiva e demandam compensaes por outras vias de percepo, cuidando para que no se percam oportunidades de explorao de potencialidades outras pela aprendizagem e treino, para um enriquecimento de experincias. Convm considerar que "todas as diferenas, na percepo de propriedades simples de objetos fsicos, fundamentam-se em diferenas de nvel de aprendizagem e de experincia passada cem esses objetos, assim como em diferenas na capacidade para identificar os objetos" (1, cap. III). "Os problemas perceptivos acarretam maiores distrbios porque interferem na formao do esquema corporal.
As perturbaes do esquema corporal dificultam o ajustamento do indivduo frente ao esquema corporal dos outros indivduos". ... "Uma falha na integrao das vias de recepo traz dificuldades na percepo do prprio mundo e, portanto na possibilidade de adaptao correta num mundo mal percebido". Distrbios de recepo esto assim relacionados a problemas de ajustamento. (4).

Em se tratando de portadores de cegueira ou de deficincia de viso, esto eles afetados pelas limitaes receptivas, que lhes acarretam perdas. Distrbios de percepo e problemas de esquema corporal estaro relacionados s possibilidades de perturbaes ou de distrbios receptivos.

Para se proporcionar a um tal caso os cuidados que merecesse, ter-se-ia que situ-lo devidamente, considerando o tipo de deficincia, a poca em que ela ocorreu, como ocorreu, a fase de desenvolvimento em que se encontrasse, a incidncia ou no de outras deficincias fsicas ou de ordem psquica, as condies fsicas gerais e especiais, neurolgicas particularmente, as scio-culturais em que pesem as condies familiares, as oportunidades educacionais ou de reabilitao que j possa ter tido. Quer isto dizer que, previamente ao tratamento do caso, um estudo cuidadoso das condies atuais e pregressas faz-se necessrio, para que dados mdicos, sociais e psicolgicos sejam alcanados, a fim de que o conheamos pelas suas caractersticas de personalidade, produtividade intelectual, interesses, aptides, e habilidades, dificuldades e reas de limitaes, condies de estruturao de seu esquema corporal e mesmo pela presena ou no das chamadas leses cerebrais mnimas, pela existncia ou no de alteraes dos circuitos fechados intracerebrais. 

Do processo diagnstico, em que se cuidar de esclarecer o caso, passa-se ao de tratamento. Como estamos tratando do problema das dificuldades ou perturbaes perceptuais,  de se pensar em tratar, a par dos problemas propriamente psicolgicos, afetivo-emocionais, tambm dos de ordem motora. de coordenao e psicopedaggicos, refazendo novas vias de integrao, por superao das prejudicadas.

Nessa linha, costumamos pensar em: ginstica especializada; atividades para fortificao do esquema corporal; oportunidades para uso e treino do aparelhamento sensorial como um todo, oportunidades para descarga, alvio de tenses; 
oportunidades para realizaes que trazem satisfao, aumento de autovalorizao e melhora da autoconcepo; oportunidades para sentir, ter conhecimento e domnio do prprio corpo:
oportunidades para sua explorao pessoal, permitindo um desenvolvimento de potencialidades; aumentar as oportunidades de conhecimento pela prpria experincia.

Em qualquer poca que se tome a pessoa, para educao ou para reabilitao,  necessrio que se proceda   abordagem com base na realidade de cada um. Claro, quanto antes se proceder ao trabalho de auxlio ao desenvolvimento normal das pessoas portadoras de deficincia da viso, melhores resultados podero ser obtidos.

O lar, de preferncia, deve ser focalizado como o autor ou o colaborador principal desse trabalho (5). Particularmente em se tratando de crianas. Estas, antes de serem consideradas como cegas, so crianas. E o fato de serem cegas constitui apenas um dos seus muitos atributos. Os pais destas crianas muito acertariam se procurassem conhecer melhor o desenvolvimento de crianas comuns, sem esse tipo de deficincia, para ento procurarem proporcionar aos seus filhos cegos, oportunidades para o maior domnio possvel do mundo exterior, atravs de enriquecimento de sua experincia interior. Como se conduz um pai comum, com um filho comum? E como se conduzem os pais de uma criana cega? Atitudes de rejeio ou superproteo so prejudiciais. No  expor demasiado uma criana cega deix-la sentir o ambiente quando novinha, ajud-la desde criancinha a utilizar o todo sensorial de que dispe e que deve desenvolver. Comumente, encantam-se as mes com as gracinhas dos seus filhos: quando estes acompanham a me com o olhar, olham detidamente as mozinhas, vo descobrindo partes do seu corpo e vo gradativamente sentindo e tomando conhecimento dele;
tm sua experincia no "chiqueirinho", tentam engatinhar e engatinham, tentam ficar em p, tentam andar, levam tombos, tropeam, bamboleiam, mas andam; sujam as mos de terra. sentem a grama do jardim, quebram brinquedos, rasgam revistas. Essas oportunidades da criana comum so tambm oportunidades de que necessita a criana cega, que no merece ser castigada com a superproteo, pois culpa no existe para resgatar. Admita-se que a criana portadora de cegueira deve ser auxiliada e orientada segundo suas possibilidades de aquisio de experincia. Em pouco tempo ela estar em condies de tirar melhor proveito do que ouve, toca, sente o gosto ou cheira, melhor at do que a criana que v, desde que ela seja induzida  ao, faa, experimente. No se pode esperar que tais crianas atinjam a idade escolar para dar-lhes oportunidade de explorao dos sentidos e desenvolvimento da mobilidade.. Antes, muito antes disso, deve ser iniciado o trabalho educativo, desde que nasce a criana, desde que se verifique a cegueira. Deve-se levar em conta que (5), se  difcil auxiliar a crescer uma criana comum, mais difcil dever ser para os pais de uma criana cega; no se pode esperar, contudo, por nenhuma frmula mgica: apenas mais tempo, mais imaginao e pacincia. Mais pacincia e tempo, sem que os pais se preocupem ou atribuam a lentido inicial de seus filhos a qualquer atraso mental; a no ser,  claro, nos casos em que esse aspecto tambm foi atingido. Mais imaginao, pois ser necessrio criar, imaginar formas de induo inicial da experincia infantil, no que disser respeito, principalmente, a compensao da sua deficincia de recepo visual, atravs de outras vias de recepo.

 preciso auxiliar a criana cega, sem proteg-la impropriamente. Como qualquer criana, ela tem necessidade (5) de alcanar tudo, de mover-se; mas sendo cega, no pode ir aonde quer e, muitas vezes, no tem porque querer; h o desconhecido a interpor-se. Precisa ento ser animada atravs de palavras, sons atrativos e outros estmulos, procurando desenvolver-lhe a curiosidade e possibilitando-lhe satisfao desta, atravs de seu prprio esforo. Ela pode aprender a correr, patinar, andar em triciclo. Aprender tambm com os brinquedos, como outras crianas.. O tatear do brinquedo deve vir acompanhado de explicao; fazendo preceder o ato pelas palavras a criana poder fazer associaes e aprender o seu significado. Faz-la experimentar sempre. Toda experincia a levar a novos conhecimentos: nos passeios, faz-la aprender o mais possvel atravs do tato, olfato, ouvido e gosto (7); lev-la ao armazm,  igreja,  biblioteca,  praia, a todas as partes; faz-la sentir o vestido novo, perceber as diferenas entre as fazendas dos seus vestidos, diferenas entre as flores, sempre comentando, conversando com ela sobre suas novas experincias. Faz-la participar ativamente nas atividades da vida diria. A criana cega tambm poder ser sua prpria educadora, j que os educadores lhe proporcionaro apenas as oportunidades e possibilidades para que ela adquira seus conhecimentos por si prpria, por sua experincia sensvel, A criana se faz progressivamente (6), e assim tambm a criana cega. A criana. necessita bastar-se a si mesma, dentro daquilo que ela pode fazer, e necessita que isso seja reconhecido.. O que se pretende  enriquecer sua experincia dos mundos perceptivos. A variedade de interesses, o gosto pela prpria atividade, a satisfao de suas necessidades, ligadas s fases de seu desenvolvimento, auxiliaro a criana no seu crescimento normal, reduzindo o mais possvel suas limitaes.

Muitos pais se preocupam quando seus filhos. apresentam certos hbitos como o de esfregar olhos, girar as mos frente aos olhos, abaixar a cabea ou moviment-la de um para outro lado; entretanto, se a criana cega tem outros interesses e tem outras atividades, agindo motivacionalmente; com o tempo abandonar totalmente os maneirismos (5).

No lar ou na escola a criana cega merecer ser cuidado pelo aproveitamento das oportunidades oferecidas pela educao atravs da experincia sensvel.

A "Linha Pedaggica" da experimentao est j bastante desenvolvida em So Paulo e teve a orientao e o impulso da Irm Maria Ana de Sion. A Linha mencionada fundamenta-se em Helene Lubienska de Lenval, aluna e colaboradora de Montessori (6) e valer bem para a criana cega. E ns sabemos que os meios educacionais, relacionados  pessoa cega, esto dispostos a atingir o mximo e o melhor, na educao ou na reabilitao de pessoas portadoras. de deficincia da viso.

J dissemos anteriormente que cuidados devero ser proporcionados a tais pessoas, quaisquer que sejam suas idades ou fases de desenvolvimento, e segundo as condies individuais, que sabemos serem variveis. No so poucos os casos de adultos, assim chamados pela idade cronolgica apenas, que so altamente carentes de experincia sensorial, de experincia de vida, no conhecem a realidade exterior e tm limitadssimo seu mundo interior; no conhecem nem dominam o prprio corpo, mas esto sedentos de estimulaes.

s crianas pequenas e s "crianas grandes" devem ser dadas oportunidades de desenvolvimento e de crescimento, atravs da experincia e da auto-explorao. Chegaro  autoconscincia, a um adequado conhecimento do seu eu, no sentido psquico e no sentido corporal conseguindo a fortificao de seu esquema corporal.

Salientamos, sobretudo, que a explorao de qualquer das vias sensoriais estar na dependncia de um conjunto de atenes que se deve ao portador de deficincia visual de onde destacamos a sua aceitao pelos familiares e pela comunidade. Como todo ser humano, alm das boas condies de sade, necessita de amor, muito afeto e carinho.

Com bons cuidados e oportunidades ganhar segurana, confiana em si e abrir seu caminho, conquistando seu lugar produtivo em nossa sociedade. 
Aps a leitura da tese, D. Luiza explicou que a ausncia de D. Mathilde iria dificultar a resposta das questes a serem feitas pelos congressistas, porm, ou ela ou a psicologista da Fundao para o Livro do Cego no Brasil tentariam responder as questes satisfatoriamente.

O Sr. Presidente deu ento por encerrada a primeira parte dos trabalhos. Aps o intervalo regulamentar, passou-se s respostas s perguntas formuladas pelos senhores congressistas. As questes formuladas e suas respectivas respostas foram as seguintes: Ao Dr. Maury Atanes  
1.a PERGUNTA: "Que h realmente de objetivo em relao aos modernos processos de cura da atrofia do nervo tico?" RESPOSTA: "O nervo ptico sendo um nervo nobre,
depois de uma inflamao sofre uma degenerao que  irrecupervel. A atrofia  um processo final. Atualmente, quanto ao tratamento, nada se pode fazer, a no ser nos estgios iniciais".

2 PERGUNTA: "Considera o orador que o problema da cegueira no Brasil se circunscreve apenas ao mbito clnico? Onde estaria colocado o aspecto relacionado com a educao?" "Os dois aspectos da pergunta se inter-relacionam. Como mdico temos que responder a parte clnica e no a educacional. A parte clnica  impossvel de ser plenamente atendida, devido a grande extenso de terra e o numero pequeno de mdicos. O paciente nem sempre  atendido no momento preciso. No devemos colocar  a parte clnica antes da educacional, as duas andam juntas, ou melhor inter-relacionam-se". a) "Ainda que, evitar as deficincias fsicas,  superior a amparar o
deficiente, perguntamos se poderemos contar com o amparo desse belssimo servio mdico da capital de So Paulo, orientado ou mesmo auxiliado a outros que queiram imit-los no interior de outros estados? b) Tambm gostaramos de saber se poderemos contar com o apoio da Campanha no sentido de criar um servio hospitalar oftalmolgico junto aos educandrios?"

RESPOSTA: "Trabalho no Hospital das Clnicas que  um hospital de padro cientificamente reconhecido. O Hospital cede bolsas a mdicos de outros estados. O ideal seria criar um servio de ambulatrio para atender os casos do interior.. Isto  difcil at no Estado de So Paulo. Existem instituies que possuem consultrio, mas no o oftalmologista. Por parte da Clnica Oftalmolgica do Hospital das Clnicas tero todo o apoio".

4 PERGUNTA: "O que tem sido feito atualmente no Brasil para a profilaxia e combate de doenas oculares tais como: glaucoma, tracoma, conjuntivite neonatorum?"

RESPOSTA: "Nos grandes centros urbanos muito se tem feito para a profilaxia.. Em So Paulo existe o dia do glaucomatoso para medir a presso intra-ocular, feito por um servio de ambulatrio volante. O glaucoma aparece nas pessoas de mais ou menos 40 anos e ataca de preferncia  noite, sem sintomatologia, causando a perda de viso. A tomada da presso intra-ocular seria um ckeck-up". A conjuntivite neo-natorum pode ser evitada em 99% dos casos, pelo mtodo de Cred.. Mesmo em So Paulo, em algumas cidades do interior nas quais no ha medico, o parto  feito por um curioso, uma pessoa analfabeta em medicina, sendo difcil a prtica dos mtodos de preveno. A conjuntivite neo-natorum  adquirida pela criana nos ltimos meses de vida intra-uterina ou no momento do parto.  produzida por um gonococo, altamente sensvel  penicilina. O tracoma, inflamao da conjuntiva, tem etiologia desconhecida,  facilmente transmissvel e tem o seu tratamento a base de sulfa. No estado de So Paulo, no h mais tracoma, a no ser em fase cicatricial, com baixa de viso. Tive oportunidade de, h alguns anos, verificar pessoalmente que, no norte do Paran, de cada 100 pacientes, 90 eram portadores de tracoma podendo portanto ser considerados, deficientes em potencial.  o que acontece tambm no nordeste brasileiro. No meio escolar  comum ser encontrado o tracoma. A profilaxia consiste no isolamento do doente, a fim de se evitar a propagao da molstia".

A seguir, Dna. Maria de Lourdes Gomes Guerra, colocou-se  disposio do plenrio para esclarecimentos de dvidas. As perguntas e suas respectivas respostas foram as seguintes:

1 PERGUNTA: "Os professores no especializados que tm alunos cegos nas suas classes no tm possibilidade de seguir cursos mais reduzidos para lhes dar os conhecimentos de que necessitam?" RESPOSTAS: "Temos cincia de existir na Guanabara, um curso de frias. Os professores, comuns recebem os conhecimentos necessrios, atravs de reunies pedaggicas".

2 PERGUNTA: "Falou-se de professores para crianas cegas e deficientes mentais, pergunto onde elas exercem a sua atividade, em escolas prprias para essas crianas ou nas escolas comuns?" RESPOSTA: "Essa pergunta ser respondida com mais detalhe na prxima sexta-feira, na palestra de Dna. Wanda Ciccone Paschoalick. Posso adiantar que a classe do ajustamento funciona regularmente e a criana a freqenta, recebendo nela, toda sua escolaridade". Neste momento, levantou-se uma congressista, para esclarecer que o curso na Guanabara  feito em 1 ano, e no em regime de curso de frias. Foi aceita a retificao.

3a PERGUNTA: "Dado o fato de em Portugal, as pessoas cegas no poderem freqentar a escola Normal que forma os professores primrios, gostaria de saber se uma professora de Braille que tem mais de cinco anos de experincia no ensino de cegos pode freqentar os cursos de especializao existentes em S. Paulo. Se possvel, que providncias so precisas tomar. H bolsas de estudo pode freqentar os cursos de especializao existentes em So Paulo. para pessoas estrangeiras?" RESPOSTA: "Ser mais interessante que a pessoa que formulou esta pergunta, v a Fundao para o Livro do Cego no Brasil, onde encontrar toda explicao que deseja". Nesse nterim D. Dorina de Gouva Nowill, levantou-se e, pedindo licena ao Sr. Presidente, respondeu a questo formulada. - "Temos que considerar dois aspectos:
a) Pessoas que no so professores: De acordo com o regulamento do Instituto de Educao Caetano de Campos, s  permitida a matrcula no Curso de Especializao em Ensino de Cegos, aos professores normalistas ou universitrios. Talvez, excepcionalmente, a uma pessoa estrangeira, no fosse exigida a qualificao acima citada.
b) Ao professor de outro pas, por um decreto do governo do Estado de So Paulo,  facultada a matrcula no Curso de Especializao, porm, no poder lecionar neste Estado. D. Dorina esclareceu ainda que  possvel a um estrangeiro, conseguir bolsas de estudos para fazer o referido Curso de Especializao em Ensino de Cegos, atravs de American Foundation".

Finalizando, D. Luiza Banducci Isnard, dirigiu-se  mesa por solicitao do Sr. Presidente, para em lugar de D. Mathilde Neder, responder a uma pergunta formulada, a qual foi a seguinte: "Como se coloca o problema da percepo de cores atravs de outros sentidos que no a viso, em termos de quantidade de ocorrncias? Tem-se registrado com certa freqncia ou trata-se apenas de aberraes?" -

D. Luiza Banducci Isnard esclareceu primeiramente, que a resposta representava o seu ponto de vista e no o de D. Mathilde Neder, a qual no afirmou categoricamente, que  possvel a percepo de cores atravs do tato mas sim que est havendo experincias para verificar esta capacidade ttil. Quanto ao aspecto de considerarmos essa provvel capacidade ttil, como uma aberrao, precisamos levar em conta que, na evoluo cientfica, sob o ponto de vista psicolgico, h sempre uma espcie de dor quando temos que abandonar o conhecido, que  cmodo e fcil, pelo desconhecido. Seria a o caso de considerarmos a parapsicologia tambm como uma aberrao.
No futuro, a investigao cientfica poder comprovar ou no essa capacidade de percepo de cores pelo tato, da qual temos conhecimento atravs de citaes na literatura russa, por exemplo.

Aps a resposta de D. Luiza Banducci Isnard, o Sr. Presidente cedeu o microfone para que fossem dados avisos sobre as adeses ao jantar de confraternizao e a conduo  que levar, s 18 horas do dia de hoje, os senhores congressistas  visita ao Dr. Adhemar de Barros, dignssimo Governador do Estado de So Paulo. Em seguida o Sr. Presidente deu por encerrada a Sesso Plenria, no sem antes agradecer aos senhores congressistas e  comisso executiva do Congresso e ns Hayde Apparecida Razzo e Margot Camargo Penteado de Barros Sousa, de tudo para constar, lavramos a presente ata, que depois de lida e aprovada ser assinada por ns e pelo Sr. Presidente.
Sala das Sesses, dez de novembro de 1964. ass. Margot Camargo Penteado de Barros Sousa, Hayde Apparecida Razzo, Alberto Abib Ambery.


QUARTA FEIRA, 11 DE NOVEMBRO DE 1965.
9,00 HORAS.

3 SESSO PLENRIA
Presidente: DR. JAIRO MORAES
Secretaria: MARIA CONCEIO SANTOS LIMA, IVONE MARILENE ANTNIO.

Ata da terceira sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais - So Paulo. Aos dez dias do ms de novembro de 1964, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina, situada  Avenida Brigadeiro Luiz Antnio, n. 278, 8 andar, realizou-se a terceira sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais. No tendo podido comparecer, por motivo de fora maior, o professor Nelson Cunha Azevedo, convidado para presidir a sesso, fez-se representar pelo Dr. Jairo Moraes, diretor do Instituto Benjamin Constant, da Guanabara, que assumiu a presidncia da sesso. Dando incio aos trabalhos, o Sr. Presidente  passou a palavra  secretria do congresso que fez os seguintes avisos: 1 - os inscritos para o jantar devero retirar as fichas a fim de que se possa tomar as devidas providncias em relao ao referido jantar. 2 - Lembrou aos presentes a necessidade de assinarem o livro de presena em cada sesso. 3 - Informou sobre a seqncia dos trabalhos do dia, ou seja: intervalo de 5 minutos entre o 1 e 2 trabalho. Intervalo de 15 minutos entre o 2 e o 3 trabalho. Dando seqncia  sesso, o Sr. Presidente passou a palavra ao 1 relator, Sr. Sylas Fernandes Maciel, que apresentou o trabalho sobre o tema: "Mobilidade e Locomoo".


MOBILIDADE E LOCOMOO
SYLAS FERNANDES MACIEL - Assistente Social da Fundao pala 0 Livro do Cego no Brasil - So Paulo.

O tema proposto  dos mais significativos por estar ligado ao anseio mais genuno da natureza humana - a liberdade  - e por ser o atendimento mais adequado das necessidades da vida moderna - o movimento. Nestes dois aspectos a questo  introduzida inicialmente, para a ponderao dos significados relevantes do ponto de vista terico e prtico para o ser humano.

O no poder mover-se contraria aos anseios da natureza humana. Algum disse que a liberdade no  alguma coisa que deva ser procurada sempre fora de nosso alcance, mas  algo que existe em cada um e deve ser desenvolvido. A propsito desse assunto, assim se expressa o ilustre brasileiro Rui Barbosa: "O criminoso, o malfeitor, o condenado, podem procurar impunemente a liberdade porque a jurisprudncia universal tem reconhecido na evaso, um legtimo impulso da natureza.." Ainda sobre o mesmo assunto se refere o renomado baiano: "A liberdade, fascinao incomparvel em todas as criaturas humanas, supremo bem da nossa natureza, honra suprema da nossa espcie,  o divino sonho de todos os cativos". Aproveitando ainda uma reflexo filosfica do ilustre cidado da Terra do Senhor do Bonfim, reproduzimos aqui suas palavras:

"Acima da Ptria ainda h alguma coisa: a liberdade, porque a liberdade  a condio da Ptria,  a conscincia,  o homem,  o princpio divino de nosso existir,  o nico bem cujo sacrifcio a Ptria no pode reclamar, seno deliberada ao suicdio. com o que o amor a Ptria no nos permite condescender".

Torna-se fcil, agora, relacionar a liberdade com o conceito de independncia e dignidade. Seu exerccio adequado faz mais pelo auto-respeito, pela dignidade individual, que a posse de riquezas ou posies sociais vantajosas. Considerando as exigncias da vida pode-se apontar uma das condies essenciais para desfrut-la em toda a pujana, a possibilidade de "ir em direo ". Assim, para o desenvolvimento intelectual e social,  necessrio ir  escola; para o aprimoramento espiritual,  necessrio ir ao templo; para o desenvolvimento econmico-financeiro,  necessrio ir ao trabalho. Enfim, para o provimento de todas as necessidades dirias,  imprescindvel o movimento em direo , quer a vida se desenvolva na zona rural ou urbana.

A esta altura, pode-se introduzir os termos mobilidade e locomoo como as idias bsicas para o atendimento da incontrolvel necessidade de movimento. Pelo fato de ambas as expresses se referirem ao movimento, podero parecer sinnimas, ou palavras muito semelhantes no seu significado. Cada uma delas, possui entretanto contedo muito prprio.

O vocbulo mobilidade refere-se  capacidade de movimento, quer em resposta aos estmulos internos ou externos. Esta capacidade engloba a realizao de movimento em todas as reas do corpo, quer em equilbrio esttico ou dinmico.

A palavra locomoo, refere-se ao exerccio da capacidade de mover-se e implica no uso sistemtico e racional dos movimentos para garantir segurana contra possveis perigos e ao alcance de outro local diferente daquele em que se encontra o indivduo. Assim, de acordo com a conceituao do Dicionrio Enciclopdico Brasileiro, locomoo  a ao ou efeito de se transportar de um lugar para outro.

Os cinco primeiros anos de vida esto estritamente relacionados com o surgimento de uma profusa variedade de habilidades motoras. A velocidade do aperfeioamento de qualquer dessas habilidades depende, em grande parte, da capacidade do organismo em antecipar resposta por meio de ajustamentos posturais compensatrios. Desde que sejam adquiridas e devidamente mecanizadas, as habilidades posturais no s permitem maior liberdade para a acomodao s novas situaes, como tambm, servem de preparao fundamental para o desenvolvimento das habilidades superiores e mais refinadas dos anos posteriores. A escrita, por exemplo,  uma atividade to altamente especializada, que somente pode ser efetuada com xito, quando certas atitudes adquiridas anteriormente, tais como, apreenso fina e equilbrio sentado, se encontrem to mecanizados que no interfiram com a ao de escrever.

Pode-se considerar, pois, os primeiros anos como um perodo de integrao e estabilizao dos modos bsicos da conduta motriz, que so fundamentais para o desenvolvimento das atividades mais evoludas.

Retornando ao ponto inicial, a partir dos primeiros instantes de vida, o ser humano coloca em funcionamento sua capacidade de movimentao que denominaremos mobilidade.
Os movimentos so numericamente maiores nos primeiros anos, vo decrescendo em nmero com o transcorrer da vida at ficarem muito reduzidos com a velhice e se extinguem com a morte.

Nos primeiros anos de vida, os movimentos obedecem a necessidades orgnicas. No processo de crescimento os estmulos externos comeam a se fazer sentir, motivando tambm movimentos: descoberta do prprio corpo, primeiros gestos para alcanar os objetos, primeiros deslocamentos do corpo em direo a alguma coisa mais distante, o engatinhar. o andar, a imitao dos gestos dos adultos, o gradativo conhecimento dos perigos do ambiente - obstculos  marcha, quente, frio, frgil, duro, firme, instvel, distncia, altura, - que provocam traumatismos.

A maior ou menor vivncia das experincias citadas e outras mais, garantir o desenvolvimento da mobilidade em maior ou menor grau e dar maior ou menor segurana na realizao dos movimentos.

As limitaes e cerceamentos sofridos nessas experincias repercutiro de maneira muito sensvel futuramente na rea da mobilidade. Em vista disto,  de grande importncia que as crianas desfrutem das mais amplas oportunidades de tomar conhecimento de si mesmas e do meio fsico, para que desenvolvam ao mximo sua mobilidade, substrato bsico para o desempenho da locomoo.

O aparecimento da cegueira ao nascimento ou nos primeiros anos de vida, vem trazer srios prejuzos  mobilidade. A realizao dos movimentos que atendem s necessidades orgnicas no  afetada, por serem involuntrios e responderem aos estmulos interiores da prpria criana. O mesmo no sucede, todavia, ao aprendizado e realizao dos movimentos mais complexos, visto que a perda da viso representa o fechamento da via de comunicao que mais amplas e ricas informaes fornece ao ser humano.
Assim, ficam seriamente Comprometidas as possibilidades de imitao e percepo dos estmulos que despertam o interesse pelas coisas externas e motivam os movimentos em direo . Isto significa que ocorrer uma baixa acentuada da movimentao pela reduo do nmero de estmulos. Com o despertar dos outros sentidos, o que ocorre mais tardiamente, a criana encontrar outras fontes de estmulos que tambm ensejaro movimentos em direo . 
Muito importante e de grande repercusso na anlise do tema mobilidade e locomoo, so os significados somados ao fato cegueira, pois, de acordo com a concepo acerca desse assunto, as pessoas com as quais vive a criana cega, podero ocasionar-lhe limitaes ainda maiores que aquelas objetivamente impostas pela falta de viso.

A cegueira traz consigo forte contedo cultural que, somado aos temores e ignorncias das pessoas,  capaz de sufocar uma genialidade latente, pela negao da mnima oportunidade do seu desabrochar. Para ilustrao desta afirmativa, recolheu-se na literatura nacional, alguns pensamentos a respeito da cegueira e sobre o valor e significados dos olhos. Arthur Bahia em ,TNEBRA" Sonetos Brasileiros, diz:

"Ai: o destino te jogando a esmo
No mundo te deixou fora do mundo
Encerrado dentro de ti mesmo".

Frana Ferreira em "O CEGO" - Sonetos Brasileiros, assim se expressa:

"Luz... existe a luz? Sinto somente
Que ando pregado a um fretro de chumbo
E pouco a pouco dentro em mim sucumbo, Vivo entre os mortos, morto ainda vivente".

So palavras de Humberto de Campos: "nada me patenteia tanto a fragilidade humana como a presena dolorosa de um cego". Noraldino de Lima em "O CEGO", esboa o retrato de contedo fortemente tradicional. Fala o seguinte:

"Vede-o:  cego. Empunhando a guitarra,
No rosto impressa a lividez da fome, Caminha... aqui tropea, adiante esbarra 
E cai, torna a cantar: a voz lhe some".

Vicente de Carvalho assim expressa seus sentimentos referentes  cegueira: "Cegos, nunca saibais verdade to dolorida para a cegueira: o olhar vale mais do que a vida".

 luz dessas citaes, torna-se razoavelmente fcil, a avaliao das emoes de uma famlia em cujo seio haja uma pessoa cega. Pode-se aquilatar as dificuldades a serem enfrentadas por um casal com um filhinho cego, se ponderarmos que o cuidado, o zelo e o carinho com que os objetos so cuidados esto na razo direta do valor real acrescido pelo valor subjetivo que lhes so emprestados. Nesta perspectiva, pode-se compreener que o filho muito almejado, ansiosamente esperado, traz consigo valores inestimveis para a realizao dos pais. Se por acaso a criana nasce cega, ou vem a perder a viso posteriormente, grandes danos ocorrem a esses valores, pois na expresso de D. Antnio da Costa, "quando um homem se v reproduzido num filho, o que entrev,  ser ele mesmo que renasce e que sobreviver a si prprio". Em vista disto, se a criana nasce ou fica cega, ser zelada e acariciada com maior intensidade por no haver suficiente coragem de desprez-la, da mesma maneira que no se pe fora os pedaos de fotografia de um ente querido.

Ao ponderar-se as decepes dos pais e das pessoas que cercam a criana cega com referncia ao sentido de realizao pessoal, com vistas ao futuro sombrio que o aguarde e o fato de terem gerado algo defeituoso e todas as implicaes decorrentes dessa maneira de pensar, compreender-se- as limitaes a serem impostas  criana:
poder ela no ser exposta ao convvio de outras crianas e adultos por ser considerada motivo de vergonha; poder ser de tal maneira protegida dos perigos fsicos que nunca os conhecer; poder ser mimada em tal intensidade, a ponto de ter a marcha retardada e a resistncia fsica seriamente comprometida, por ser sempre carregada ao colo e impedida de movimentar-se com liberdade. Ser conveniente citar aqui um pensamento de Petite Sonn: - "Os filhos tornam-se para os pais, segundo a educao que recebem, uma recompensa ou um castigo".

O atendimento inicial da necessidade de movimentao  feito naturalmente, de vez que a realizao dos movimentos espontneos no coloca em risco a criana, no  motivo de apreenso para as pessoas que a cercam. Entretanto,  medida que ela avana em idade e a necessidade de movimentos mais complexos impulsiona a criana  prticas que podem ocasionar-lhe traumatismo fsico, comea a se fazer sentir a interferncia dos temores, receios e necessidades de proteo da parte dos adultos que a cercam. Essa interferncia s poder ser atenuada pelo esclarecimento e orientao dessas pessoas, bem como pelo alvio das emoes despertadas pelos preconceitos e principalmente pelas suas necessidades emocionais.

Este trabalho deve se processar em vrios nveis, dependendo das capacidades de compreenso e reao positiva de cada um e do grau de dificuldades emocionais que apresentam. Assim, poder ser suficiente o esclarecimento sobre atitudes mais construtivas e adequadas a serem adotadas em relao  criana cega. Talvez seja necessria uma orientao sistemtica e talvez, ambas as coisas no tragam muito efeito e seja requerido o auxlio profissional no tratamento de dificuldades emocionais a fim de que essas pessoas possam ter capacidade de beneficiar-se da orientao dada pelos profissionais. Entretanto, no so apenas as famlias que devem ser orientadas.
Essa mesma prtica pode e deve estender-se aos profissionais que esto em contato com a criana, como por exemplo, professores, recreacionistas, chefes disciplinares e outros, pois tambm essas pessoas, no obstante suas formaes profissionais, esto sujeitas aos esteretipos sociais e as mesmas emoes frente  desgraa humana.

Aliviada a atmosfera emocional da famlia e dos ambientes da criana, ser possvel proporcionar oportunidades concretas para o desenvolvimento da sua mobilidade.
Isto somente poder ser obtido se os adultos com os quais vive a criana cega, aceitarem o fato dos riscos a que ela est exposta so fruto da sua imaturidade diante da vida, o que ocorre com qualquer criana, apresente viso ou no.

A diferena da necessidade de proteo reclamada por uma e por outra, decorre da prpria limitao. A viso oferece a oportunidade de amadurecimento mais rpido e possibilita o conhecimento de certos tipos de perigos a maiores distncias que os outros sentidos. Em vista disto, a criana cega precisar de constante estimulao para o seu desenvolvimento, bem como de certa proteo, para no ser exposta a perigos que no tem condies de constatar com a necessria antecedncia. Esta proteo, todavia, deve ser conservada dentro dos limites do bom senso para no limitar ou mesmo, inibir as oportunidades de realizao motora da criana cega. Ela deve ter oportunidade de brincar com outras crianas, correr, nadar, subir e descer escadas, brincar com ferramentas, construir e destruir, enfim, fazer tudo aquilo que to bem caracteriza a infncia - o movimento - respeitando  certo, as limitaes impossveis de serem vencidas pelo uso adequado dos sentidos remanescentes. Isto no significa que estar a salvo dos tropees, arranhes e trombadas. Se tiver as oportunidades recomendveis, trar consigo machucaduras e cicatrizes, atestado de vida ativa e portanto, feliz. Na infncia no h outra forma de aprendizado que no seja a prpria experincia. Essa experincia ser o equipamento bsico para o desempenho da funo locomotora.

A locomoo entendida como a ao ou efeito de se transportar de um lugar para outro, implica no domnio e utilizao de habilidades formais para o deslocamento do corpo de maneira adequada e segura no ambiente fsico. Isto s  possvel atravs do exerccio eficiente da interao do indivduo com seu ambiente fsico, social e cultural. Em outras palavras a condio bsica para o exerccio da funo locomotora  o domnio da mobilidade.

No obstante a pessoa cega haja dominado esse aspecto, e se sente bem orientada em seu ambiente fsico social  e cultural, subsistem situaes fsicas que escapam ao controle sensorial da maneira como  utilizado comumente. Surge ento a necessidade do emprego de meios e instrumentos para super-las. So, por exemplo, degraus, buracos, postes, pedras, lama e toda sorte de obstculos que precisam ser percebidos com alguma antecedncia a fim de que possam ser sobrepujados adequadamente. 
Os meios e instrumentos empregados eficientemente para esse fim tm sido os seguintes: guia-humano (tradicionalmente usado, com ou sem conhecimento tcnico), co-guia (de emprego muito restrito por causa dos mltiplos problemas que envolvem sua utilizao. No Brasil no  ainda utilizado); a bengala longa de Hoover (usada em larga escala em outros pases e muito recentemente no Brasil).

No sentido de garantir o deslocamento do indivduo no ambiente fsico para o atendimento das exigncias da vida, todos esses meios so vlidos. Pode-se apenas fazer uma anlise da posio da pessoa cega na utilizao deles. De uma posio absolutamente passiva no uso da guia-humano, ela passa a ocupar uma posio mista de diligncia e dependncia no emprego do co-guia e assume absoluta responsabilidade por sua pessoa quando utiliza a bengala longa. Em termos de ideal de educao, esta ltima posio deve ser procurada na medida do possvel.

Beneficiada por um programa educacional que atende integralmente suas necessidades, a criana cega aprende a assumir responsabilidade cada vez maior pela sua pessoa e, ao atingir idade que possa ser plenamente responsvel estar em condies de fazer uso da tcnica da bengala longa, dispensando o processo de reabilitao.

Se a pessoa deixou de receber no seu processo educativo o equipamento bsico para o exerccio de sua funo locomotora, a simples instruo na tcnica da bengala, no se constitui numa resposta s suas necessidades, pois, precisar de equipar-se de mltiplos elementos, sem os quais, pouco ou nenhum sucesso alcanar. A resposta adequada ento s suas necessidades ser o processo de reabilitao total.

Para que a criana cega venha a receber no processo de formao todos os elementos adequados ao seu desenvolvimento, e para que ao ficar adulta no seja objeto de reabilitao por no dominar a tcnica de locomoo e outras mais fceis de serem disfaradas, ser necessria a participao integral do grupo familiar no plano de educao da criana. Isto por motivos bvios mas que nos permitimos citar algumas: maior perodo de influncia, significado maior da opinio das pessoas desse grupo, bem como ligaes de dependncia biolgica inalienveis. Se a famlia no estiver comprometida no plano educacional, destruir todo o trabalho feito pela escola e, quando isto se torna difcil, retirar a criana de tal influncia.

Pelas dificuldades de natureza emocional e social decorrentes da presena da cegueira, a colaborao da famlia no plano educacional no se processa de maneira espontnea, salvo raras excees. Como conseqncia desse aspecto, torna-se evidente que apenas o tcnico de locomoo no  suficiente para o manejo do caso, por uma razo muito simples: falta de conhecimento das dificuldades e potencialidades da famlia e do aluno por decorrncia. Faz-se mister ento, o trabalho de um grupo de profissionais capazes de abordar todos os aspectos da situao: o indivduo enquanto aluno. membro de uma famlia e parte de uma comunidade. Este grupo de profissionais ter possibilidade no apenas com base no estudo integral da situao, fazer as recomendaes adequadas - avaliao e planejamento - mas ter tambm a oportunidade de acompanhar o processo educativo, at o ponto em que isto se faa necessrio. "Esta unio estreita de cooperao democrtica, multi-profissional, devotada a um objetivo comum" que  o melhor tratamento s necessidades fundamentais do indivduo,  a maior garantia de sucesso num trabalho desta natureza.

A prtica do trabalho de equipe vai alm de simples idia de coordenao de servios. Reclama o amadurecimento profissional que  uma ambio de honestidade intelectual, reconhecimento de auto-imitao e refinamento tico. A conseqncia da conquista desses aspectos  que o melhor trabalho da equipe no se verifica apenas nas reunies, mas, principalmente fora delas, quando cada membro executa uma tarefa especfica utilizando sua habilidade profissional com total apreo  opinio da equipe. A garantia
do trabalho neste nvel  a posio filosfica do grupo, cada um  antes de tudo um terapeuta que sente a responsabilidade pelos problemas do cliente que suplantam suas ambies profissionais.

Como pensamento final, ser altamente positivo, a contnua procura da crena sincera na capacidade humana que nas palavras de Hugo Wast: "no  uma faculdade que se possa adquirir quando no se tem, por ser uma aptido inata. Entretanto,  indiscutvel que se pode cultiv-la e aprimor-la com um exerccio inteligente e tambm pode atrofiar-se pelo mau uso ou falta de emprego".


Por solicitao de Dr. Nelson lvares da Cruz, a fim de que pudesse preparar o material para ilustrao do seu trabalho, o Sr. Presidente deu a palavra a Srta. Nzia Lopes de Figueiredo, que exps o tema: "A famlia como unidade biossocial: a famlia e a escola".

A FAMLIA COMO UNIDADE BIOSSOCIAL - A FAMLIA E A ESCOLA
NIZIA LOPES DE FIGUEIREDO, Assistente Social da Fundao para o Livro do Cego no Brasil - So Paulo - Capital.

INTRODUO

Considerando o indivduo na sua evoluo normal de crescimento, v-se que nas condies em que nasce  incapaz de suprir suas prprias necessidades. Para isso necessita de condies que favoream no s o seu crescimento e desenvolvimento fsico, mas tambm, intelectual, social e emocional. Sendo a sociedade o seu ambiente natural de vida. esse desenvolvimento deve visar no s a realizao individual, mas tambm o funcionamento adequado dentro da realidade social.

Neste sentido, dois grupos em especial se destacam, dentro do sistema social, pelas suas caractersticas e funes especficas de preparar o indivduo para atingir tais objetivos. So eles a famlia e a escola.

Para avaliar a importncia desses dois grupos no processo educativo de uma criana, necessrio se faz o estudo da famlia, a compreenso do seu papel nesse processo, bem como. entender a escola e suas funes especificas. E finalmente, estabelecer as relaes dessas duas instituies para um trabalho conjunto na formao das pessoas.

A FAMLIA COMO UNIDADE BIOSSOCIAL

s vezes, confunde-se cultura com certos aspectos do comportamento do homem que so, na realidade parte da universal biologia humana. Um desses aspectos inatacvel pela relatividade cultural -  a famlia humana. Todas as mudanas que se desejar, podem ser operadas nas formas variveis das influncias culturais no  grupo familiar,   mas o fator biolgico permanece.

Na pesquisa feita por Malinowsky entre selvagens das Ilhas Trobiand, verificou-se que algumas das funes econmicas e disciplinares do pai eram exercidas por outro adulto masculino, o irmo da me, no deixando, de existir a famlia.

Aqui ela tem forma diferente, mas no deixa de existir como tal. A famlia nuclear, ou seja a formada por pai, me e filhos,  universalmente humana, no uma contingncia cultural, mas biologicamente  fundamental.

 Nos grupos humanos, a famlia no  somente universal, como tambm exclusiva do homem. Ela  especificamente uma destinao biolgica humana. Na literatura infantil, costuma-se constituir famlia para os animais, como por exemplo:

O pato Donald e seus sobrinhos. Os Trs porquinhos e um nmero infindvel de outras, embora se saiba objetivamente da sua inexistncia entre os animais.

Analisando os mamferos, verifica-se que as vrias famlias so constitudas apenas da me e de suas crias, como  o caso: do gato, do macaco e muitos outros. O sexo tem funo somente procriativa, isto , o macho e fmea unem-se na poca do cio, para a fecundao separando-se em seguida. A famlia me-filho permanece por algum tempo ainda, durante o perodo da amamentao.

Entretanto, no caso da fmea humana, observa-se o cuidado maternal especial para com suas crias, no apenas durante um certo perodo, mas prolongando-se atravs da vida. Por sua vez as crias humanas, em sua infncia, so incapazes de se cuidarem, por um perodo bem mais longo que os dos demais filhotes mamferos.

Outro aspecto observado no homem,  o interesse sexual no peridico. Ao contrrio dos outros machos mamferos o homem, alm de procriar, permanece no lar com a mulher e seus filhos, no por razes eventuais ou culturais mas porque biologicamente falando, ele assim o deseja. Na famlia humana. o homem  o pai plenamente social e moral no que contrasta com as caractersticas procriativas dos demais mamferos.

Nos seres humanos, o perodo mais longo de gravidez, de dependncia e proteo da criana, assegura maior ndice de sobrevivncia dos filhos e evidncia que os mamferos humanos no utilizam os laos sexuais com fins estritamente procriativos. A sexualidade humana serve a fins sociais na unidade biossocial que  a famlia.

Sob o ponto de vista biolgico, portanto, este  a adaptao primria do homem  natureza, tornando-se impossvel sem esta matriz, transmitir qualquer forma de cultura.

O homem nasce e aprende a maneira de agir como ser humano em funo da famlia, nela desenvolvendo sua personalidade individual. Durante o perodo de dependncia inicial, a maioria de suas adaptaes apresenta caractersticas dos demais animais mamferos aos quais est associado por razes biolgicas. Assim, a famlia em que vive, pode ser considerada como um laboratrio de formao de personalidades individuais.

Tambm, a moralidade em si, teve seu nascimento na famlia quando sociologicamente, o pai humano deixou de matar os filhos porque estes eram seus rivais. Os pais criam seus filhos at a idade adulta, dando-lhes toda a assistncia necessria, mas nenhum filho masculino poder ser o rival procriativo do seu pai em relao   prpria me. Cada indivduo, depois do seu desenvolvimento fsico e amadurecimento psicolgico, est apto a deixar a famlia de origem onde sua posio biolgica  apenas de filho. Dever constituir sua prpria famlia, desempenhando o papel biolgico adulto que a sociedade dele espera.

A famlia, portanto,  o alicerce de toda moralidade humana e cresce de laos biologicamente estruturados, interindividuais, entre macho, fmea e filhos.

A humanidade est baseada nesta intensa interindividualidade de laos humanos biossociais que  a famlia.  tambm nesta unidade que se operam os processos decisivos da socializao, o qual deve ser considerado como um processo contnuo de integrao biopsicossocial do indivduo. nos seus papis dentro dos vrios grupos. Sendo cronologicamente o seu primeiro grupo de vida, cabe a famlia o primeiro lugar neste processo contnuo que, na infncia e adolescncia  complementado por outros grupos.

A funo da famlia neste processo, decorre de suas prprias caractersticas que engloba a promoo do desenvolvimento do potencial de seus filhos, atravs do atendimento de suas necessidades bsicas e da iniciao deles no processo de socializao.

Para que a famlia possa preencher suas funes biolgicas e sociais os indivduos ocupam, dentro dela, "status" definidos e tm certas tarefas e papeis a desempenhar. Cada indivduo se integra dentro deste sistema social, atravs do processo de adaptao aos papis familiares. Isto , um processo biolgico, psicolgico, interpessoal e cultural.

Essa unidade, a famlia,  portanto essencial e insubstituvel para o desenvolvimento do ser humano. Nela se forjam os aspectos internos e externos da personalidade, bem como os conflitos e distrbios de comportamento. No seu seio, ainda, se iniciam e se desenvolvem os processos de socializao do indivduo..

Os aspectos mencionados, evidenciam a grande importncia e a influncia decisiva do grupo familiar no processo educativo da criana.

A FAMLIA E A ESCOLA

A famlia na sua funo educativa, no pode sozinha promover o desenvolvimento de todo potencial  humano, pela impossibilidade de prover todos os recursos. Necessita para tanto, da complementao de outras instituies que a auxiliam nesta tarefa.

A escola  uma das instituies criadas para assegurar o desenvolvimento da personalidade do ser humano e seu total equipar para a sua vida em sociedade.

Ela est organizada de forma a constituir um ambiente de vida e ao onde a criana atravs de atividades formais e informais, possa expandir suas aptides naturais, aprender a trabalhar em grupo e se incorporar na comunidade. Existe uma tendncia a atribuir como funo da escola apenas o desenvolvimento intelectual enquanto outros aspectos da personalidade so deixados a cargo da famlia. Esta concepo, entretanto, constituiu um srio erro, pois o comportamento humano  nico. Os aspectos que conhecemos como comportamento social, moral e intelectual, so inter-relacionados e o que afeta um deles, afeta tambm os outros.

Alm disso, cada famlia preenche suas funes de maneiras diferentes, tanto em quantidade quanto em qualidade. As famlias precisam da escola no sentido de proporcionar instruo segura para seus filhos. Tambm precisam dela como grupo social distinto do grupo familiar, onde so oferecidas s crianas, oportunidades para novas experincias.
Neste particular variam muito as necessidades de cada famlia. Em alguns casos, somente um mnimo de necessidades precisa ser atendido fora dos recursos da famlia, noutros quase a sua totalidade.

A escola, em ltima anlise, deve estar a servio da famlia para ser til  comunidade.
Se a escola aceita essa funo complementar. no dever atuar como entidade autnoma, desenvolvendo um trabalho isolado. A realidade devida aos seus educandos, suas experincias anteriores e as influncias dos ambientes que freqentou e que freqenta devem estar presentes no seu planejamento e prestao de servios.

Portanto, para melhor preencher suas funes educativas, a escola deve planejar o atendimento das crianas, baseado no conhecimento cientfico das suas necessidades individuais, bem como da realidade social em que esto inseridas. Tal conhecimento deve-se processar atravs do estudo das condies fsicas, intelectuais, emocionais e familiares de cada aluno, o que permite a avaliao das suas necessidades reais e a indicao dos servios mais adequados para seu atendimento.

A presena de uma equipe interprofissional num programa educativo,  de fundamental importncia no s para avaliar e planejar a melhor resposta s necessidades de cada caso, como tambm para assegurar o seguimento de suas recomendaes.

A EDUCAO DA CRIANA CEGA

No que se refere  educao da criana cega, um aspecto essencial a ser considerado  o de que a incapacidade como tal. no a diferencia das demais crianas no ponto de vista da sua necessidade de desenvolver-se integralmente. Ela apresenta as mesmas necessidades bsicas de todas as crianas acrescidas daquelas decorrentes da prpria incapacidade. Os recursos especiais exigidos para o atendimento dessas necessidades, no justificam que tais crianas sejam atendidas como elemento  parte, fora do planejamento global de educao feito para toda a populao infantil. Os processos educativos prprios da formao de uma criana, aplicam-se integralmente a criana cega. A presena da famlia e da escola na sua vida  uma decorrncia natural da condio de ser humano em desenvolvimento, e como tal, objeto de ateno e cuidado por parte destas duas entidades.

No se justifica, portanto, em casos dessa natureza, uma dissociao na ao de tais grupos. Suas influncias concomitantes so uma decorrncia do carter indivisvel da criana.

O planejamento da educao da criana cega deve ser feito mediante a avaliao das suas necessidades bsicas e do conhecimento das limitaes decorrentes da incapacidade o que permitir a determinao do servio adequado e a medida da extenso dos recursos especiais necessrios.

Da mesma forma, o trabalho da equipe interprofissional, nesses casos,  importante e no seria demais afirmar. imprescindvel devido aos problemas especficos acarretados pela cegueira e as dificuldades dos seus familiares para enfrentar tal situao. As implicaes fsicas, psicolgicas e sociais da cegueira, constituem srias barreiras ao desenvolvimento normal da criana, se no forem devidamente compreendidas e, na medida do possvel tratadas.

Um trabalho integrado da famlia e escola, poder proporcionar s crianas oportunidades para um desenvolvimento realista e harmonioso, possibilitando atitudes positivas na fase adulta.


Aps o 2 intervalo, o Sr. Presidente concedeu a palavra a D. Dorina de Gouva Nowill, que informou aos congressistas, sobre a concesso de 10% da verba do plano trienal, para a educao dos excepcionais. A seguir o Sr. Presidente concedeu a palavra ao 3 relator. Dr. Nelson lvares da Cruz, que discorreu sobre o tema: "Percepo vestibular e sua importncia na locomoo de cegos". (*) Foi dada a palavra a Sra. Secretria.Geral, D. Teresinha Rossi, que comunicou as delegaes abaixo relacionadas, para que se apresentassem: Pases, Argentina, El Salvador, Estados Unidos, Portugal e Uruguai. Estados: Bahia, Braslia, Guanabara, Mato Grosso, Minas Gerais, Par, Paran, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, So Paulo, Sergipe.

Comunicou ainda a Sra. Secretria, que os alunos do ginsio do "Plano Piloto de Braslia", ofereceram, s delegaes presentes, lembranas que foram entregues na ocasio. Continuando, o Sr. Presidente convidou a Srta. Nizia Lopes Figueiredo para responder s perguntas, que foram as seguintes:

1 PERGUNTA: "a) Que se tem procurado fazer sob o aspecto de orientao s famlias que possuem crianas cegas? b) Se houver orientao ela  restringida apenas ao Estado de So Paulo"?

RESPOSTA: "a) A orientao pode ser feita pela prpria escola, ou por outras instituies, como  o caso da FLCB, em So Paulo, em que a orientao  famlia  feita atravs de uma avaliao do caso. b) outros congressistas j falaram sobre a orientao  famlia em seus estados, principalmente na Bahia".

2 PERGUNTA: - "No caso da incapacidade da famlia, quer no sentido financeiro ou educativo qual a melhor soluo? No caso de internamento em escolas especializadas, isto merece o titulo de segregao?"

RESPOSTA: "Cabe ao Assistente Social atender essas famlias, principalmente compreendendo a situao da criana cega no grupo familiar, as oportunidades que essa criana tem para desenvolver-se, e ajudar a famlia em suas necessidades reais. Talvez seja uma transferncia das responsabilidades da famlia para a escola. As deficincias da famlia, deveriam ser previamente estudadas, mas a criana dever, tanto quanto possvel, ser mantida nela e s em caso de necessidade, retir-la do lar; portanto no vejo porque seria segregao".

3 PERGUNTA: "a) a cegueira tem influncia no desenvolvimento biopsicolgico social humano? b) Em que a criana cega difere da criana vidente?"

RESPOSTA: - "Realmente a cegueira tem uma grande influncia no desenvolvimento fsico, psquico e social. A criana cega tem limitaes decorrentes da prpria cegueira. Assim, se faz necessrio proporcionar-lhes oportunidades de desenvolvimento".

Com a palavra o Dr. Nelson lvares da Cruz, que respondeu s seguintes perguntas: 1 PERGUNTA: "Um cego de nascena, sob uma cpula, ainda que sem poder distingui-la, teria percepo ligada ao aparelho auditivo?"

RESPOSTA: "Numa cpula no se propagam ondas sonoras, a no ser que hajam vibraes provocadas, o reflexo da onda sonora se repete e a pessoa pode ter percepo da cpula."

2 PERGUNTA: "Se um indivduo cego tiver o seu aparelho vestibular lesado, poder locomover-se com o auxlio da bengala?"

RESPOSTA: "Pode, dependendo do tipo e do grau da leso. Pode haver tambm um mecanismo de compensao, e mesmo que ele no tenha perfeito equilbrio, poder utilizar a bengala".

3 PERGUNTA: "Como funciona o aparelho vestibular, na percepo de obstculos?"

RESPOSTA: "A percepo do obstculo, no se efetua atravs do aparelho vestibular que s atuar, no momento em que a pessoa tenta transp-lo, devido aos movimentos de cabea, pernas etc".

4 PERGUNTA: "Nos pombos a perda da sensao vestibular se faz sentir mais no pescoo - e no homem?"

RESPOSTA: "Nos diferentes animais, a percepo vestibular se faz sentir nos diferentes msculos. No homem se faz sentir na musculatura ocular, e membros inferiores e superiores".

5 PERGUNTA: "O aparelho vestibular  responsvel pelos estmulos denominados radar animal?"

RESPOSTA: "No homem o aparelho vestibular no funciona como radar".

A seguir o Sr Presidente convidou o Sr. Sylas Fernandes Maciel, para responder as perguntas.

1 PERGUNTA: "A partir de que idade, pode o indivduo receber a tcnica de locomoo?"

RESPOSTA: "O uso da bengala como o concebemos, no s se refere ao domnio tcnico, como tambm ao amadurecimento para responsabilizar-se pelo prprio corpo".

2 PERGUNTA: "Qual sua opinio: acha que futuramente os ces-guias podero ser utilizados no Brasil como meio de locomoo?"

RESPOSTA: "Os aspectos do meio de locomoo, so muito variados. Citamos trs: guia humano, co-guia e uso da bengala, no em termos de melhor, mas em termos de condies humanas. O co-guia  muito dispendioso, devido aos cuidados que o animal requer".

3 PERGUNTA: "Quantas horas so normalmente necessrias para que a pessoa se torne independente em locomoo, quando ela perde a viso?"

RESPOSTA: "Pela nossa experincia, poderamos distinguir dois aspectos: Depende da situao emocional, das capacidades intelectuais e coordenao motora".

4 PERGUNTA: "Uma pessoa que faz o curso de locomoo num Centro como So Paulo est apta a locomover-se noutro centro?"

RESPOSTA: A pessoa que recebe a tcnica de locomoo, est apta a andar em qualquer lugar".

5 PERGUNTA: "Quais so os exerccios bsicos na educao da mobilidade?"

RESPOSTA: "A mobilidade no  exercitada em termos de treinamento, pois comea com o nascimento. Caso haja necessidade, a coordenao de movimentos, ser papel do fisioterapeuta".

Findos os trabalhos, o Sr. Presidente deu por 'encerrada a sesso e ns, Maria Conceio Santos Lima e Ivone Antnio lavramos a presente ata que depois de lida e aprovada ser assinada pelo Sr. Presidente e por ns. So Paulo, 11 de novembro de 1964. ass. Jairo Moraes. Maria Conceio Santos Lima, Ivone Marilene Antnio.

(*) O trabalho no foi entregue para publicao.



QUARTA FEIRA, 11 DE NOVEMBRO DE 1964. 14:00 HORAS.
4 SESSO PLENRIA

Presidente: GAL. JAIME FERREIRA DA SILVA
Secretaria: DEINZE A. CIZOTTO EDYLEDA TEREZLNHA DE SOUZA.


Ata da quarta sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais - So Paulo. Aos onze dias do ms de novembro de 1964, s 14:10 horas, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina sita  Av. Brigadeiro Luiz Antnio, 278 - 8 andar, realizou-se a quarta sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro do Educao de Deficientes Visuais, presidida pelo Gal. Jaime Ferreira da Silva, diretor do Instituto Oscar Clack da Guanabara. Abrindo a sesso, o Presidente da mesa concedeu a palavra ao 1 relator da tarde, D. Flora Barroso de Albuquerque, coordenadora do Ensino Especial do Departamento de Educao Primria de Secretaria da Educao da Guanabara - que discorreu sobre "Atividades Sociais para os Educandos Deficientes Visuais".


ATIVIDADES SOCIAIS PARA OS EDUCANDOS DEFICIENTES VISUAIS
FLORA BARROSO DE ALBUQUERQUE - Tcnico de Educao, Coordenadora dos Deficientes Visuais do Ensino Especial do Departamento de Educao Primria da Secretaria de Educao e Cultura do Estado da Guanabara.

O tema que me foi dado abordar nesse 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, promovido pela Campanha Nacional de Educao dos Cegos do Ministrio da Educao e Cultura - ATIVIDADES SOCIAIS PARA OS EDUCANDOS DEFICIENTES VISUAIS - ocupa um largo campo na educao. O Estado da Guanabara, promovendo a educao integral das crianas deficientes visuais, ao receb-las nas escolas primrias oficiais, sente-se, at certo ponto,  vontade, para desenvolver o assunto em pauta.

O objetivo fundamental na educao dos deficientes visuais deve ser integr-los  sociedade de videntes de que fazem parte, sem se descurar das suas possibilidades e limitaes por serem elas, muitas vezes, significativas no campo da personalidade e do ajustamento social.

"Jack Kirkland acredita que todos os indivduos apresentem as mesmas necessidades biopsico-sociais, desde a infncia at a maturidade e que a cegueira no altera essas necessidades bsicas". Para a integrao futura do indivduo, h que satisfazer essas necessidades bsicas:
- oportunidades de expresso,
- aprovao,
- segurana,
- amizade,
- reconhecimento,
- aceitao.

Conhecendo-se as fases fundamentais por que passa a criana durante o seu desenvolvimento, podemos avaliar a importncia da participao do deficiente visual na vida das outras crianas videntes e a valorizao das atividades recreativas, tais como o jogo, fator bsico no desenvolvimento mental da criana.

Se lhe forem oferecidas todas as oportunidades no perodo da aquisio, considerado pelos psiclogos como verdadeira introduo  vida mental, bem como durante o estgio da organizao, caracterizado pelos interesses ticos e sociais e o momento em que se afirma a personalidade do educando, alcanar o individuo o estgio da produo, perodo de trabalho caracterstico do ser.

A integrao ser pois atingida atravs das atividades sociais e recreativas, principalmente se a criana for estimulada e delas participar desde idade pr-escolar.
No esqueamos que o jogo constitui a forma especfica da atividade da criana e o meio de afirmao de sua personalidade.

No trato com os deficientes visuais e para um trabalho de atividade social integrada, alguns fatores necessitam ser considerados:
- as condies peculiares do deficiente e sua preparao para participao no meio social;
- as condies de vida da criana: meio scio-econmico, experincia cultural e educacional;
- idade cronolgica, maturidade fsica e emocional;
- conhecimento da idade em que ocorreu a deficincia;
- estgio de desenvolvimento psico-social; traumas que o indivduo tenha experimentado;
- atitude do educando em relao  sua deficincia;
- verificao da existncia de outras deficincias, concomitantemente com as visuais, o que acarreta maior dificuldade para a integrao com os videntes;
- entrosamento com as instituies sociais com finalidades recreativas;
- as atitudes dos videntes em relao aos deficientes visuais e vice-versa;
- o inter-relacionamento familiar.


Do trabalho realizado por grupo de pais de crianas cegas, encorajados pelo Servio de Orientao de The Canadian National Institute for the Blind, Fileen Scott apresenta as seguintes concluses:

1. A criana deficiente visual deve ser preparada para ocupar o lugar a que tem direito no mundo dos videntes. Isto poder ser mais bem realizado, dando-se-lhe a oportunidade de participar de todas as atividades sociais e recreativas de que se puder dispor na comunidade.

2. A experincia tem mostrado que a criana deficiente visual pode, dentro da comunidade, adaptar-se, como alis j o tem feito, a uma grande variedade de atividades em grupo, desde que lhe dem as maiores oportunidades para delas participar.

3. Os pais e obras sociais devem trabalhar continuamente no sentido de educar a comunidade para que as crianas sejam bem recebidas quando buscam integrar-se nos programas regulares de atividades sociais e recreativas.

4. Quando a participao nas atividades da criana de viso normal  encorajada desde a idade pr-escolar a criana que no v acha isto cada vez mais natural e,  medida que vai crescendo, sentir interesse em continuar participando das atividades dos seus amigos videntes.

AS ATIVIDADES SOCIAIS PARA OS EDUCANDOS DEFICIENTES VISUAIS DA GUANABARA

Procurando fazer com que os deficientes visuais se aproximem, tanto quanto possvel, das outras crianas videntes, nosso trabalho tem se realizado visando a integrar socialmente a nossa criana, tornando-a feliz, aceita e preparando-a para uma vida normal.

Os alunos deficientes visuais so matriculados nas classes comuns e especiais das escolas pblicas primrias e atendidos pelo ensino itinerante de cegos e amblopes.
Participam do mesmo trabalho pedaggico desenvolvido com os videntes, recebendo ainda educao especial conveniente: adestramento sensorial, emenda de aspecto fsico etc.

As atividades da escola devem proporcionar oportunidades de uma real aprendizagem, conduzindo a criana ao desenvolvimento de habilidades fundamentais,  interpretao do meio fsico-social,  utilizao de conhecimentos e a estabelecer relaes humanas. Todo esse trabalho leva  integrao do educando ao meio.

Na convivncia com as demais crianas, a escola procura formar uma atitude de aceitao do grupo em relao ao deficiente visual e uma reao positiva deste em relao ao grupo, face s suas limitaes.

Um plano inicial de ao  levado a efeito para se alcanar a participao da criana nas atividades da famlia e da escola:
- conhecimento das necessidades sociais e recreativas da criana;
- verificao dos recursos da comunidade;
- reunio com a Diretora e professora do estabelecimento de ensino, com o objetivo de esclarecer das necessidades e possibilidades das crianas deficientes visuais;
lev-las a entender que elas precisam apenas de compreenso e de que sempre e sempre lhes ofeream oportunidades de desempenhar sua funo no grupo social; lembrar-lhes que elas necessitam viver independentemente a sua prpria vida e que a escola em muito poder contribuir para a sua integrao no meio social;
- reunio com os demais funcionrios que normalmente mantm contato com as crianas: serventes, merendeiras etc.
- orientao  professora da criana para a necessria preparao da turma: como receber o coleguinha deficiente visual; de que forma poder ajuda-lo e dele solicitar auxlio; despert-los quanto  possibilidade e necessidade da sua participao nas atividades de classe, fazendo-os compreender que, no obstante as implicaes da deficincia, ele  um ser capaz e como todas as crianas, dotadas de interesses e aspiraes.
- orientao aos pais: ajud-los a aceitar a deficincia da criana; mostrar-lhes que a famlia, como um grupo social bsico,  um fator relevante na formao emocional e social da criana; apresentar-lhes as necessidades sociais e recreativas, no sentido de conseguir que o educando participe da vida da famlia e da vizinhana:
festas, reunies, jogos, teatros, clubes, etc.

As atividades realizadas pelos deficientes visuais nas escolas so as mesmas que usufruem os coleguinhas videntes.

A professora de turma destina, em seu plano de trabalho, horrios diversos para as atividades artstico-socializantes: dana, dramatizao espontnea, bandinha rtmica, jogos e recreao dirigidos, coro falado etc.

Nossa criana participa, igualmente das excurses aos parques de diverso, s praias, s montanhas, ao jardim zoolgico, recebendo ateno especial da professora itinerante que lhe transmite as impresses que no podem ser alcanadas pela falta do sentido visual. Toma ainda parte ativa nos programas cvicos, nas solenidades religiosas, nas festas natalinas e juninas realizadas na escola, participando sobretudo, de acordo com as suas possibilidades, na confeco de material para as mesmas.

Todas essas atividades permitem a 'socializao do educando, desenvolvendo-lhe hbitos de trabalho em grupo.

Se bem vividas essas experincias, o deficiente visual procurar, espontaneamente, a companhia dos videntes, o que lhe ajudar a vencer a fase difcil da adolescncia.

NOTA: A segunda parte do trabalho constou de apresentao de diapositivos.


Terminada a exposio, o Presidente da mesa solicitou aos congressistas que dirigissem  mesa por escrito, as perguntas sobre a tese tratada, durante o intervalo de cinco minutos. Em seguida, convidou a
2 expositora da tarde, D. Maria Luclia Pedro Silva, tcnica em Atividade da Vida Diria do Centro de Reabilitao da Fundao para o Livro do Cego no Brasil, So Paulo.

ATIVIDADES DA VIDA DIRIA
MARIA LUCLIA PEDRO - Tcnica em Atividades da Vida Diria do Centro de Reabilitao da Fundao para o Livro do Cego no Brasil - So Paulo.

Tarefa louvvel e com sentido profundamente humano e social, a integrao na sociedade dos indivduos portadores de defeitos congnitos ou adquiridos, vem nos ltimos anos recebendo maior ateno em nosso meio, merc das campanhas de esclarecimento que neste sentido as vrias organizaes oficiais e particulares tm promovido no seio da populao em geral.

Particularmente no setor dos portadores de defeitos visuais, vimos observando ultimamente, uma congregao de esforos no sentido de tirar o cego de seu estado de verdadeira marginalidade dentro da sociedade, geralmente considerado pelos demais como incapaz absoluto de realizar as mnimas atividades da vida diria, quanto mais adquirir um oficio ou executar algum trabalho realmente produtivo. Esta ignorncia da capacidade potencial. do cego, sobre ser perniciosa, se nos afigura como o principal obstculo no sentido de sua reabilitao e independncia, porquanto ela  dupla: ignorncia de seus semelhantes, que o consideram um inutilizado, e dele mesmo, marcado por profundos complexos e ressentimentos contra a natureza e contra a sociedade.

Na fase atual de nossos conhecimentos, o cego deixou de ser um simples vendedor de vassouras e escovas, amparado pelo seu guia, para definitivamente ocupar seu lugar entre outros homens. Podemos dizer hoje e fazemos estribados em uma experincia de mais de dois anos - ser perfeitamente possvel tornar o portador de defeito visual, um indivduo de mente s, sem recalques e complexos, capaz de executar as principais tarefas cotidianas, bem assim torn-lo til atravs do aprendizado de um ofcio.
Tarefa maior, porm, ser talvez fazer com que a sociedade receba o cego reabilitado.

Quando tentamos desenvolver a independncia e a autoconfiana de um indivduo cego,  preciso inicialmente levar em considerao as limitaes que naturalmente lhe vo ser impostas no campo de suas atividades. Existem muitas frustraes na realizao dessas tarefas, que fazem com que o cego constantemente tenha sua ateno voltada para sua condio, responsvel pela sensao de medo e insegurana que o atormentam. Mesmos os atos fundamentais que executamos reflexamente, como comer, beber, vestir-se e despir-se, tornam-se problemas para o indivduo desprovido da viso. Em geral alimentar-se por exemplo, causa tais dificuldades quando sozinhas, que os pais de crianas cegas ao invs de orient-las e ensin-las a comer normalmente, preferem aderir ao uso da colher como talher nico e exclusivo para todos os alimentos. Inclusive as pessoas que ficaram cegas depois de adultas adotam esse sistema. Na tentativa de resolvermos esse problema, devemos ter em mente a situao do cego, de certo modo resignado a comer o que lhe vem no talher tomando cuidado para que o mesmo no esteja vazio ou exageradamente cheio.

Srio problema tambm  o da limpeza e do arranjo pessoal, uma vez que as oportunidades de sujar ou manchar a roupa sero muito maiores, ao passo que evit-las ou percebe-las praticamente no existem. O ato de vestir-se constitui uma dificuldade devido s variedades de cores da indumentria, seus acessrios etc., que devero ser combinados. A incapacidade de escolher novas roupas exige a entrega dessa tarefa a terceiros. J se despir no  propriamente um problema, mas o cego dever estar atento quando coloca suas roupas o que  preciso fazer com ordem para poder distingui-las mais tarde. Devero ser considerados ainda os problemas de higiene pessoal tanto em um sexo como no outro.

Outros aspectos a serem lembrados e que geralmente trazem dificuldades so: fazer a barba, fazer a maquilagem, colocar a pasta dental na escova, acender o cigarro, fazer compras, encontrar um objeto que deixou cair ao solo etc.

Se a perda das tcnicas das atividades da vida diria  como foi exposto um dos maiores prejuzos causados pela cegueira, forando destarte a pessoa cega a uma contnua dependncia, a restaurao dessas habilidades constitui um dos aspectos mais importantes de um programa de educao e reabilitao de deficientes visuais.  preciso que a sociedade, a famlia e os profissionais de um modo geral, considerem a criana deficiente, como aquela a qual devem ser dadas oportunidades de aprendizado a fim de que seu desenvolvimento fsico e mental se faa de modo harmonioso.

No devemos priv-las de fazer as coisas por si mesmas no momento que o desenvolvimento fsico o permitir. Se cercearmos esse desenvolvimento, no somente estaremos impedindo seu aprendizado, como tambm impedindo de se tornar mais tarde uma pessoa bem ajustada e auto-suficiente. Portanto o incio da prtica nas atividades da vida diria no deve fugir aos padres estabelecidos para as crianas videntes.

Se em lugar de cercarmos a criana deficiente de cuidados excessivos, de superproteo, procurarmos fazer com que ela consiga adquirir confiana em si mesma, sem dvida alguma estaremos adotando uma atitude que s poder reverter em resultados positivos. Geralmente os pais ou tutores atrasam o ensino de certas habilidades bsicas, por julgar serem incapazes de aprender. Reprimem suas atividades e experincias de modo que quando chegam  idade escolar no esto preparadas para se integrar no novo "habitat".

Se a criana est fisicamente bem desenvolvida, deve-se ensin-la a caminhar, a pedir para realizar suas necessidades fisiolgicas e quando j tiver idade para comer e beber sem ajuda, incentivar para que o faa sozinha, de forma correta e adequada. A mesma preocupao se deve ter com o vestir e o despir, utilizando-se os demais sentidos e desenvolvendo melhor seus movimentos.

Ainda no lar, o indivduo comea a compreender e conhecer os problemas dirios moldando e formando traos de sua personalidade. Com esses princpios fundamentais, enriquecidos mais tarde na escola, no trabalho e na sociedade, ele estar preparado para alcanar a meta desejada.

 preciso que as escolas residenciais, em substituio ao lar no fujam aos aspectos citados. Geralmente essas escolas se preocupam mais com o preparo intelectual, proporcionando no setor de atividades da vida diria, um tratamento que deixa muito a desejar, quando no completamente contraproducente. Esquecem-se do aspecto individual que deve ter o treinamento e sem o qual  impossvel dar s crianas um preparo eficiente das vrias atividades.

A educao da criana como j dissemos, tem incio no lar devendo a escola ser uma continuao ou uma complementao dessa educao.

Nas escolas o professor alm de sua funo especfica muitas vezes ter de orientar a famlia em certos aspectos, principalmente porque os pais desconhecem a dificuldade, os problemas e principalmente as possibilidades de seu filho cego.

Se falamos a princpio em perdas, e restaurao das habilidades dirias, devemos lembrar que o desenvolvimento dessa tarefa no inclui na verdade, nenhuma tcnica especial. Exige maior experincia por parte da criana cega estmulos adicionais proporcionados pelo educador.

Certos ensinamentos existem, como aulas de higiene, orientao sobre enfermagem caseira, treinamentos relativos  administrao da casa, adequao social etc., que podem e devem ser dados diretamente por pessoal especializado, de forma concreta, evitando verbalismo em obedincia ao ditado:
mais ao e menos palavras. Importantssimo  colocar a criana em contato com a realidade. Ao se falar de um objeto devemos coloc-lo ao seu alcance para que o reconhea. Quando esse conhecimento for impossvel aos demais sentidos, procurar descrev-lo e compar-lo com outro, objetivamente. Todavia certos verbalismos sero inevitveis, sobretudo aqueles que dizem respeito s coisas abstratas, porm, devero ser explanados da melhor maneira possvel a fim de permitir ao cego manter relaes sociais com os videntes. Por exemplo: dever o individuo ter conhecimento das cores e suas combinaes, sem perder de vista sua natureza intrnseca.

O desenvolvimento dos sentidos atravs de treinamento intensivo,  de sucesso imprescindvel nas atividades dirias. O cego dever estar habilitado a reconhecer a gua em ebulio, diferenciar peso e consistncia de vasilhas e lquidos, localizar objetos cados, diferenciar alimentos pelo olfato e tato etc. Devemos capacit-los, principalmente o adolescente cego, no manejo de atitudes e posies corretas. A necessidade de ordem com seus objetos pessoais, o temor de queimar-se, de tomar choques, so pontos de capital importncia, pois as experincias desagradveis determinam sentimentos de insegurana. Essas situaes devero ser observadas, mostradas e discutidas com o educando para imprimir-lhe segura orientao.

Se a famlia e o professor tm papel importante na formao da criana cega, devemos salientar a contribuio de outros profissionais, tais como o psiclogo, o assistente social, o mdico, que se constituindo em equipe, trabalham no mesmo objetivo. O trabalho do psiclogo  de suma importncia, na avaliao da personalidade do educando, na anlise de suas tendncias e aptides, bem como na orientao do professor no caso de crianas problema. A importncia do servio social est no trabalho que realiza junto  famlia, mesmo antes da poca escolar. Junto ao lar a assistente social procurar melhorar o relacionamento entre seus membros, levando-os a compreender e aceitar a criana exatamente como ela e. Estudar seus padres de comportamento e seus valores culturais, alm do que ir orient-los diretamente no ensino das tarefas bsicas. O professor muitas vezes. embora especializado, no tem possibilidades de um trabalho mais profundo, no que ser assim ajudado pelos demais profissionais.

Muitas vezes a criana adentra a escola totalmente dependente no que se refere aos atos bsicos. No sabe abotoar as roupas, atar os cordes dos sapatos, utilizar o sanitrio etc. Nestas condies v-se o professor com problemas, pois no basta dar  criana a orientao adequada, porquanto ela necessitar de maior experincia e maior ateno no meio familiar, que para isto dever receber orientao.

Dissemos que no desenvolvimento das atividades da vida diria no temos necessidade de nenhuma tcnica especial. Vejamos isto de forma concreta. No que tange  alimentao, os talheres usados sero os habituais, devendo-se inicialmente orientar o educando na localizao dos alimentos em seu prato no cuidado que dever ter para que o talher no venha a conter quantidade desproporcional de alimentos. Na infncia j deve ter iniciado o desenvolvimento do tato por extenso, para que reconhea os alimentos sem toc-los diretamente. Com este conhecimento rapidamente atingir desenvolvimento e maturidade suficiente para aprender a cortar o bife, que se constitui em uma das maiores dificuldades para obter boas maneiras  mesa. Quanto aos lquidos dever se capacitar a distinguir pesos e consistncias diversas, a fim de servir-se sozinho em diferentes vasilhas, tais como xcaras e copos. Devemos desde cedo dar a criana oportunidade de servir-se com lquidos de temperaturas diversas, evitando-se assim que quando adulta tenha receio de lidar com coisas quentes. A criana dever conhecer todos os utenslios de sua casa, agir com liberdade para poder apanh-los ou servir-se deles. Sem qualquer restrio dever, dirigir-se  talha ou a geladeira, quando tiver fome e sede.

Os pontos mais importantes da higiene e aparncia pessoal so: abotoar roupas, identific-las, bem assim os objetos pessoais pelo sistema de marcas em relevo; tirar e guardar as roupas, fazer o lao do sapato, engrax-los, cuidar dos dentes, das unhas, cabelos etc. Na adolescncia os pontos mais visados sero: fazer o n da gravata, escanhoar-se, fazer a maquilagem, cuidados com o vesturio - lavar, passar, pregar botes - higiene ntima, acender cigarros etc.

 criana devemos proporcionar oportunidades para arrumar sua cama, seu armrio e sua gaveta. Alm disso j deve ser orientada na limpeza do quarto, do banheiro e no uso de desinfetantes. Deve conhecer tambm o material utilizado nessas atividades, como vassoura, rede, pano de cho, pano de p etc.

Cabe ao professor adestrar seus alunos no uso da moeda corrente, a fazer contas, facilitando assim as atividades de administrao, no lar. Ser til o conhecimento de lojas, supermercados, feiras, bares etc. O uso do telefone. a orientao quanto s horas, bem como o uso da balana e da fita mtrica, so importantes devido  objetividade e utilidade prtica.

Na puberdade  de notvel interesse entre as moas, o incio de atividades junto ao fogo. Mesmo para os rapazes  til uma noo a este respeito, pois tal lhes imprimir maior segurana e habilidade que futuramente podero ser de valor.

As panelas, loua e demais utenslios no diferem dos usados pela dona de casa normal. No necessitam de nenhuma adaptao, to somente maior desenvoltura de quem realiza a tarefa. Em todas as atividades, tanto os pais como os professores devem observar sempre a boa postura do cego e de modo geral sua adequao social.

Se todas as atividades acima citadas forem ensinadas de acordo com o desenvolvimento fsico e mental da criana, teremos no futuro um adulto auto-suficiente e perfeitamente adaptado  realidade da vida.

Concluindo esta explanao, poderamos acrescentar que esses treinamentos no exigem nenhum material especial, devendo-se utilizar os materiais comuns, os mesmos utilizados pelas outras pessoas. Apenas h necessidade de maior repetio, concretizao e objetividade no ensino.


A tese abordada foi "Atividades da Vida Diria" e aps sua apresentao houve um intervalo de 10 (dez) minutos durante o qual foram feitas as perguntas relativas ao 2 tema bem como se realizou o sorteio de entradas para teatro entre os presentes. Reiniciada a sesso s 15:40 horas, o Sr. Presidente concedeu a palavra ao Sr. Luis Geraldo de Mattos, prof. do Instituto So Rafael de Belo Horizonte Minas Gerais, que exps seu tema "O Sistema Braille: problemas tcnicos-formais e suas implicaes na educao dos deficientes visuais".

PROBLEMAS TCNICOS-FORMAIS E SUAS IMPLICAES NA EDUCAO DOS DEFICIENTES VISUAIS

LUIS GERALDO DE MATTOS - Prof. do Instituto So Rafael - Belo Horizonte - Minas Gerais.


1 - INTRODUO: Importncia Geral da Escrita

Encetamos nosso trabalho pela gnese e explicao filosfica, de forma sobremaneira sucinta, do extraordinrio valor da escrita no processo de continuidade da evoluo do homem, da famlia, do cl, da tribo, afinal, da prpria sociedade.

A necessidade ou o desejo de o homem transmitir o que pensa e o que sente, de modo mais durvel que a palavra e. mesmo de registr-lo para si prprio, em virtude da natural debilidade da memria, acompanha-o desde os mais remotos tempos.

J em plena era paleoltica, o homem primitivo, em rudes gravaes rupestres, procurava comunicar o que lhe chegava ao conhecimento. Por natureza, ser pensante e gregrio ou, para lembrar o estagirita, "zoon politikon", o "homo sapiens" da antropologia, sempre procurou exprimir seus pensamentos.

A sua primeira forma utilizada para a intercomunicao, pressupunha a presena do interlocutor no espao e no tempo o que nem sempre se tornava possvel. A maravilhosa capacidade inventiva do homem superou essas injunes espao-temporais atravs da escrita.

Surgia, talvez, h trinta e cinco mil anos antes de Cristo, a pictografia com o Troglodita. Como seu rudimentar estado econmico era o produto da caa, o animal, portanto, representava para ele objeto de ateno particular, de cobia. receio, preocupao e luta.

S ento, foi observado o lento, porm, ininterrupto processo evolutivo do homem, como tambm da escrita. Os primeiros desenhos ainda nas cavernas, representavam os animais imveis, aps, figurando o movimento, surgindo depois, paulatinamente, figuras humanas simples, quase sempre esquemticas; em seguida, esses desenhos vo perder a singeleza e se cumulam de significao, pois passaro a delinear verdadeiras narraes curtas, imperfeitas, embora de faanhas venatrias, de lances cinegticos, de atos de domesticao. No continham todavia, o atributo cardinal da escrita, que  o carter convencional dos smbolos fixos.

Encontramos na Amrica pr-Colombiana os quipos incaicos, que talvez representassem um sistema em transio, pois j se observa neles certa conveno do uso de smbolos.
Assemelhava-se aos quipos o sistema nomotcnico dos primitivos australianos, utilizado para transmisso de mensagens, bem como os Wampum dos iroqueses.

No se pode, rigorosamente, colocar tais sistemas entre os processos de escrita, visto que no ultrapassaram sequer a fase dos instrumentos nomotcnicos. Atravs de evolues multimilenares, o processo pictogrfico aperfeioou-se, advindo ento, o sistema ideogrfico, que nos trouxe o fator caracterstico do atributo. Ainda
assim, nem a pictografia, nem a ideografia, cabem no velho conceito de escrita, pois lhes faltava o indispensvel carter fontico. A passagem da ideografia para a escrita fontica, efetuou-se atravs dos hierglifos, embora os habitantes do Nilo no tivessem chegado a utilizar uma escrita inteiramente fontica. Na realidade porm, a escrita egpcia continuava a ser criptogrfica. Curioso observar a semelhana analgica de processo entre os hierglifos egpcios e o sistema usado pelos Astecas e Maia.

Com a descoberta do papiro, os sacerdotes passaram a esquematizar, os hierglifos e denominaram esse processo de escrita "Hiertica", ou escrita "sagrada". O povo egpcio utilizou um tipo de escrita simplificada, a que se chamou de Demtica. Na sia menor ou Mesopotmia, entre os Assrios e Babilnios, dominou o sistema cuneiforme, gravado em blocos de pedra ou argila. Apareceu ento, um processo fontico bastante caracterstico, a que se costuma chamar de "Silabao Mesopotmica", no qual as slabas eram representadas por um carter cuneiforme especfico. Na China, antlha-se-nos.. de forma ampla, o ideograma. O processo ideogrfico apresenta facilidades, como tambm dificuldades sobremaneira curiosas: usa-se a idia como meio de expresso nesse sistema. No obstante existirem vrios dialetos naquele pas, todos compreendem o que se deseja dizer. Cada pessoa interpretar as idias gravadas, expressando-as no respectivo dialeto. Mas o sistema  bastante complexo, em virtude da extraordinria variedade de smbolos. Em 1716, publicou-se um dicionrio chins. Continha 40 volumes e trazia registrados 33.000 smbolos. Em 1946, houve significativa simplificao em o nmero de smbolos, que foram reduzidos a 5.400. No Japo, encontramos os complicados sistemas, primeiramente o Katakana, depois o Hiragana..

Mencionamos ainda a descoberta realizada pela misso arqueolgica orientada por Sir Flinders Petrie, que em 1906, localizou, na parte central da pennsula sinata, um templo dedicado  deusa egpcia liator. Alan Gardiner, segundo os resultados a que chegou, aps estudar as inscries ali encontradas, diz ser aquele sistema baseado no principio alfabtico.

Esta grande sucesso de processos utilizados pelo homem a fim de que pudesse ser transmitido ou mesmo perpetuado aquilo que lhe chegasse ao conhecimento atravs de contnuos aperfeioamentos trazidos, ora por simples empirismo, ora pelo prprio acaso, f-lo atingir o alfabeto. Penetramos agora, num mbito sobremodo controvertido.
Todavia, pode-se falar, etnologicamente, de um alfabeto semita, de um alfabeto fencio, que foram, naturalmente, reduo do processo de acrofonia, para afonia simplesmente.
Daqui por diante, o sistema de escrita alfabtica ser o mais utilizado pelo homem. Assim, se mencionaram os alfabetos aramaico. hebraico, rabe, grego. que sofrem a artostasia das letras jnicas, alfabeto latino, com derivaes do grego e do etrusco. Hodiernamente. como sabemos, o alfabeto latino  utilizado por todas as lnguas civilizadas do ocidente.

Assinalamos enfim que, at na prpria forma de se grafar as palavras, encontramos variaes, como se pode observar atravs dos sistemas de escrita denominados destroso. sinestroso e bustrofednico.

Faz-nos conta, apenas, por meio desta sucinta exposio, chegarmos a uma ilao sobejamente lgica e segura, de que desde os mais remotos tempos, nas mais vrias regies, o homem sentiu indisfarvel preocupao em que, no obstante sua curta existncia, depressa obumbrada pela ptina do tempo, permanecesse o legado dos seus conhecimentos e experincias.

Estaria realizado o seu intento at certo ponto de forma bastante apodtica, atravs da escrita. Da, sua imensa importncia, da seu extraordinrio valor para o possvel desenvolvimento das cincias, que no mbito das chamadas cincias puras ou experimentais.

A) A escrita como meio de comunicao

 sobretudo no que concerne s comunicaes que se aflora e concretiza todo o seu grande valor intrnseco., A escrita, como meio de comunicao, se apresenta, trazendo-nos ao conhecimento as mais singelas figuras, s mais complexas e abstratas imagens. Em virtude da grande perfeio atingida nos dias atuais, e no que tange  escrita, sob todos os seus aspectos, surge-nos, de forma bastante curiosa e mesmo pitoresca, o que nos narra Herdoto no Livro IV de suas "Histrias", onde certo rei dos Citas, enviou mensagem a Dano, rei dos Persas, que recebeu nada menos de um sapo. uma ave, um rato, e um molho de cinco setas. Segundo interpretao de seus generais, os Persas deveriam ocultar-se como o sapo nas guas, como a ave no espao e como o rato em sua toca, a fim de no serem mortos pelas setas inimigas.

B) A escrita como meio de comunicao na educao de deficientes visuais

Voltamo-nos novamente  escrita: agora, porm, no mais sob um prisma genrico, mas sim, sob um ngulo perfeitamente definido, como tambm especializado, isto , no seu papel na educao dos deficientes visuais. A escrita especializada, permitir a integrao do invidente  sociedade de forma bem mais definida, eficiente e, de maneira particular, julgamos de sobeja importncia, oferece-nos acesso  prpria esfera intelectua, mundo rduo, rico, amplo e belo. Consubstanciado a esse raciocnio,  que nos surge sempre  mente. o nome de Louis Braille, perpetuado no sistema de sua inveno, o maravilhoso alfabeto Braille. S os faltos da viso, podem sentir em toda a sua grandeza, o valor, a eficincia e toda a sua magnitude, importncia para n.  o alfabeto Braille que torna possvel o desenvolvimento normal do raciocnio infantil da criana cega. A orientao segura ao inquieto e muitas vezes incompreendido adolescente, possibilita a desenvoltura e o domnio do invidente, quer no mbito intelectual, quer nos demais setores de atividades humanas. Permite enfim, transformar um ser humano na mais alta e perfeita acepo do verdadeiro homem.

II - O SISTEMA BRAILLE
A) Problemas de uniformidade dos smbolos

As diversas tentativas realizadas a fim de se conseguir uma unificao dos smbolos para o sistema Braille, trazem-me  lembrana a histria do Cdigo Civil Brasileiro, cujas necessidades de existncia, comearam a ser reclamados em 1824 e ele s apareceu em 1916.  evidente no entanto, que h um pouco de exagero nesse paralelo estabelecido, visto que as condies atuais, so bem diversas, sob todos os aspectos.

No Brasil, por volta de 1943, comearam a surgir movimentos de maior repercusses, no sentido de se estabelecer um Cdigo Estenogrfico para o sistema Braille. Da para c, observamos inmeras tentativas, ora para criao de um Cdigo Estenogrfico, ora para se unificar os smbolos, e, ainda. outras vezes, os dois assuntos sero tratados ao mesmo tempo. Assim, vrias reunies se processaram, como em 1943, 1945. 1951, 1953, 1957, e afinal, surgiu a portaria n.0 54, baixada pelo ento diretor do Instituto Benjamin Constant, Sr. Raimundo Ribeiro Fontes Lima, e aprovada por sua Ex. o Ministro da Educao e Cultura, a 26 de novembro de 1962.

Procedeu-se a nova srie de reunies, em nmero de dezessete, durante os meses finais de 1962 e princpios de 1963. Os resultados obtidos nessas reunies no foram dos mais alvissareiros. Segundo os seus prprios participantes, as resolues se tornavam cada vez mais difceis, surgindo bices que ainda mais prejudicavam o andamento dos trabalhos. Um dos pontos controvertidos, diz respeito ao sinal indicativo das reticncias, onde a tradio guanabarina prefere utilizar os pontos 2, 5 e 6, numa sucesso trplice, enquanto os representantes de So Paulo adotam a mesma sucesso trplice, mas utilizando somente o ponto trs.

No que concerne aos sinais matemticos, nota-se tambm. outra dicotomia: Em So Paulo, coloca-se tais indicaes precedendo aos nmeros correspondentes; na Guanabara, essa mesma indicao vem proposta ao nmero. So Paulo: (Km 2'); Guanabara: (2KM), para indicar dois quilmetros.

Compreendemos perfeitamente, que tudo tem sido realizado, sempre com a inteno nica de se chegar a resultados mais objetivos e prticos. Acreditamos porm, que essas dicotomias, advindas de puro tradicionalismo, no podem oferecer srios embaraos ao estabelecimento de uma estrutura Braille unificada. Em Minas Gerais, ou mais precisamente, em Belo Horizonte, tem-se, usado, no que tange aos sinais matemticos, o sistema da Guanabara; no que concerne s reticncias.. tm-se utilizado as duas formas.

Os problemas, pois, especificamente brasileiros para a unificao dos smbolos, no podem, portanto, ser de soluo bastante complexa, visto que no Brasil, atualmente, s existem dois grandes centros em que se transcrevem e enviam, para todo o territrio nacional, livros no sistema Braille.

No Brasil, a mais eficaz e correta atitude a ser tomada a nosso ver, seria a participao intensa dos educadores, em trabalhos conjuntos, a fim de que se possa solucionar brevemente, as dificuldades que ainda se nos afloram, mxime quanto aos problemas de uniformidade dos smbolos e a fixao de um cdigo estenogrfico Braille.

Nesse pas, quase continente, existem verdadeiros "arquiplagos educacionais", apresentando cada ilha problemas prprios e bem particularizados. Da, ento, a maior necessidade e urgncia de reunies, onde possam comparecer educadores de todos os Estados brasileiros, para que se tenha conhecimento do que se processa no campo tiflolgico, das dificuldades e obstculos a serem vencidos, da utilizao de mtodos mais sadios e eficientes.

Em virtude da ausncia desse trabalho e participao conjunta de educadores, podemos observar fatos lamentveis, que co mo em Belo Horizonte, muito retardaram o desenvolvimento scio-educacional dos cegos em Minas Gerais. Basta verificar, por exemplo, que o Instituto So Rafael, segundo estabelecimento oficial de ensino especializado para cegos em todo o territrio brasileiro, fundado em 2 de setembro de 1926, teve o seu curso ginasial oficializado apenas em janeiro de 1952, logo no primeiro ano de trabalho de seu novo diretor, Professor Batista de Castro, quando, finalmente, nos foram abertos os caminhos que nos levariam a Escola Superior. Antes que tal acontecesse, porm, nada menos de 26 longos anos haviam transcorrido.

 com pesar que citamos acontecimentos como este, e que naturalmente, haveriam de se repetir em partes outras do pas, se no fossem modificados e no surgissem novas medidas como esta, saliente-se, que ora se nos apresenta.

B)        Problemas relativos  velocidade da escrita e leitura dos deficientes visuais, tamanho dos livros em Braille e seu custo, necessidade de uso de um, cdigo de estenografia Braille para a lngua portuguesa.

 evidente, que todo processo de aprendizagem est, de maneira muito ntima, ligado  prpria capacidade individual de cada ser humano. Como sempre varia essa capacidade, no ser, por outro lado, idntico o desenvolvimento dos alunos, tanto no que diz respeito  velocidade de leitura, quanto de escrita. A primeira atitude, pois, do educador,  a observao; procurar examinar aproximadamente, o desenvolvimento mental alcanado pelo aluno, para em seguida, aplicar esse ou aquele mtodo. No se deseja dizer com isso,  claro, que todo educador tenha que ser obrigatoriamente, um psiclogo, mas que temos o dever de no ignorar pelo menos, alguns rudimentos de psicologia, para perfeita conscincia da postura didtica a ser tomada.

Uma das precpuas condies para que determinada criana cega de Q.I. normal possa adquirir velocidade na escrita e na leitura,  que seja iniciada na aprendizagem do sistema Braille no momento mais conveniente, ou seja, na maioria das vezes, aos sete anos. Est longe, porm, de ser esta a nica soluo; h vrios outros fatores consubstanciados inclusive. A criana cega,  lgico, no pode psiquicamente. se desenvolver como outra que possua o sentido visual. Necessrio se torna, por conseguinte, ministrar a ela, educao especial, firme orientao, com natural prudncia, a fim de que seja possvel perfeito equilbrio psicossomtico, sem o fenmeno da superproteo, que, em certos casos, quase anula o prprio instinto de defesa, destri a personalidade ou impede a sua normal evoluo, transformando muitas vezes, uma criana sem nenhuma leso cerebral, com o intuito nico de lhe proporcionar felicidade, no duvidamos, num adulto incapaz de se integrar  sociedade, e, porque no dizer, num verdadeiro anormal.

Nem sempre, contudo, se pode alcanar sucesso imediato com uma criana cega aos 7 anos de idade, visto que o seu desenvolvimento mental no ultrapassara ainda ao de uma criana de 3 ou 4 anos, fenmeno comum, onde o nvel educacional  quase imperceptvel.

Para que possa corrigir essas deficincias, atualmente, funciona no Instituto Benjamin Constant, o Departamento Infantil, ou Jardim de Infncia, em que se procura aperfeioar a coordenao motora e sensibilidade ttil, bem como o desenvolvimento psquico das crianas cujas idades variam entre 4 a 6 anos, para que, em seguida, isto , aos 7 anos, iniciem os seus primeiros contatos com o sistema Braille.

Desta forma pois, a criana ter todas as possibilidades de adquirir rapidamente velocidade de escrita e leitura. Quando no se processa esse tratamento, observa-se melhor a assimilao do sistema Braille pela criana, atravs do mtodo de silabao e no pelo mtodo global, nas leituras iniciais; parece afirmao segura, em virtude da extraordinria freqncia ocorrida com aquelas crianas provindas do interior. No  afirmao apriorstica ou de fato particularizado que nos levaria a dizer "testis unus, testis nullus".

Percebe-se portanto, que todo o processo de desenvolvimento da leitura e da escrita, depende daquilo a que se poderia denominar de ensino preparatrio ou propedutico.

Em se tratando, todavia, de aprendizagem do adulto. aparecem outros problemas que facilitam ou podem dificultar o trabalho do professor, como o grau de conhecimentos do discente, condies psquicas etc.

Quanto ao tamanho dos livros no sistema Braille, acreditamos pelo menos para os que cursamos escolas de nvel superior, no ser a maior preocupao, mas sim, o contraste violento entre o tamanho dos livros e a substncia insignificante ou quantidade de matria contida em tantas pginas. No hesitaramos. sem dvida, em reduzir o volume; contudo. Utilizando-se a escrita Braille por extenso, isto se torna inteiramente impraticvel, porquanto a reduo do tamanho do livro perderia a sua objetividade, em virtude do grande nmero de volumes em que ficaria fragmentada qualquer obra transcrita nestas condies.

Atingimos a um ponto que julgamos da mais alta importncia, ou seja, a necessidade, que no se pode mais postergar. do uso de um cdigo de estenografia Braille, uniforme e simples,  bom que frisemos, para a Lngua Portuguesa.

Compreendemos e acatamos os obstculos por vezes srios, encontrados, quando se intenta, como por diversas ocasies se tem verificado, aplicar um cdigo de abreviatura Braille no Brasil. Estamos seguros no entanto, de que os pontos positivos superam os negativos em tal medida.

O estabelecimento de um cdigo estenogrfico implicaria. numa decrescente ordem de valores, no barateamento dos livros deles, proporcionaria leitura mais rpida e economia de tempo da transcrio do livro para o sistema Braille.

Tem-se procurado, na presente impossibilidade de se transcrever obras de maior flego para o sistema Braille, lanar mo de recursos como os gravadores e leitores, de que se obtm bons resultados, sob o aspecto de complementao. O contato direto com o livro, porm, nos proporciona maior segurana, trabalho mais apurado, mais profunda observao a cada pgina lida, maior independncia no desenvolvimento da leitura, no que concerne  nossa to variada capacidade individual de apreenso, enfim, nos proporciona perfeita conscincia do que lemos, O intelectual, de modo particular, na sua penosa senda, nunca se pode conformar em prescindir do aconchego pessoal e ntimo ao seu instrumento de trabalho, que  o livro, assim como o bom carapina no pode dispensar o compasso, o martelo ou a plaina.

Seria til a fixao de um cdigo estenogrfico Braille nico no Brasil e em Portugal. Julgamos entretanto, que tal medida de acordo com as atuais circunstncias, seja uma das srias dificuldades a se vencer. Em Portugal, com vrias modificaes, tem-se adotado, desde 1937, o Manual de Abreviatura Braille, ou Pronturio Estenogrfico Braille da Lngua Portuguesa, de J. Albuquerque e Castro, agora j com as modificaes introduzidas de acordo com o que ficou estabelecido no Congresso realizado no Uruguai em 1951, no qual o Brasil no foi representado.

Percebe-se que o Cdigo de Abreviatura de J. Albuquerque e Castro no ser aceito integralmente no Brasil. Entretanto, ele j adquiriu certa estabilidade em Portugal.
Perguntaramos ento: Aceitariam os portugueses novas modificaes? O que no podemos conceber, por outro lado,  que ns, brasileiros, continuemos sem um cdigo de abreviatura Braille.

C) Colocao dos problemas aflorados acima, em funo da escola residencial, problemas do desenvolvimento prtico da escrita Braille pelos alunos, nos dois tipos de escola.

Numa primeira anlise, a escola residencial nos parece bastante imperfeita na sua funo educativa: o afastamento brusco da criana e, de modo particular, da criana cega, da intimidade da sua famlia, de seu pequeno mundo, no pode ser compreendido por ela. Necessrio seria educ-la, instru-la, sem que sofresse a privao do lar e o afastamento da sociedade. No Brasil, porm, como noutro qualquer pas em fase de formao socia, no podemos prescindir da escola residencial, mas podemos dot-la de mtodos que supram, de certa forma, suas principais deficincias. Procuramos no isolar o jovem estudante da sociedade, mostrar-lhe o caminho seguro, atravs de um servio de orientao educacional, preocupando-nos no somente com as suas condies psquicas ou materiais, mas com ambas, acordes com o velho preceito latino, "mens sana in corpore sano".

Ao professor especializado, cabe, por sua vez, grande responsabilidade no desenvolvimento rpido e harmnico da mentalidade dos estudantes, sendo imprescindvel a sua presena e trabalho nos estabelecimentos de educao especfica. No obstante, em todo o Estado de Minas Gerais, contamos apenas com 3 professores que possuem o curso especializado para o ensino de cegos.

A resoluo dos problemas referida acima oferece vicissitudes srias. O movimento tiflo-pedaggico, em nosso Estado,  ainda incipiente, ignorando-se, inclusive, o total de pessoas cegas alfabetizadas ou no alfabetizadas existentes l.

A Secretaria da Educao do Estado de Minas Gerais. em 1962, solicitou ao Diretor do Instituto So Rafael, organizasse uma comisso para elaborar um plano que permitisse maior intensificao e objetividade no que se referia ao campo de trabalho tiflolgico. A comisso foi constituda pelos professores Clio Martins de Andrade, Benedito Marra da Fonseca, e a Inspetora Federal do Estabelecimento, D. Naly Burnier Coelho. Concludo o plano, foi encaminhado  Secretaria da Educao, voltamos entretanto, a ponto de partida pois, sob alegao de que se deveria sustar todas as despesas relacionadas com aquele rgo, tudo foi paralisado.

Para que se solucionem, portanto, tais problemas, principalmente aqueles atinentes  rapidez de leitura e escrita. desenvolvimento psquico normal do estudante, bem como sua integrao  sociedade, necessrio se torna nmero bem maior de professores especializados, que disponha de material didtico adequado, servio de orientao educacional e maior integrao dos rgos governamentais competentes com as escolas especializadas.


Encerrada a ltima exposio, o Presidente da mesa solicitou s secretrias que lessem as pergunta formuladas, aos oradores da tarde, pela ordem de exposio e chegada  mesa. Relativamente ao 1 tema foram feitas seis perguntas a saber:

1 PERGUNTA: "No acha a Sra. que se acreditamos que a criana cega  um ser capaz, dotado de interesses e aspiraes como as demais crianas, torna-se desnecessrio preparar a classe para receber um coleguinha cego?"

Foi dada a seguinte resposta: "Embora a criana deficiente visual possa apresentar as suas aspiraes, isso no dispensa que ela e a turma que for receb-la estejam preparadas"

2 PERGUNTA: "As crianas portadoras de dupla deficincia (cego e deficiente mental) recebem que tipo de educao? Como  feita e por quem  feita a orientao para atividades em famlias?"

RESPOSTA: "As crianas com dupla deficincia recebem ensino especial, no grupo escolar dado por professora especializada, em deficincia mental e tambm recebem auxlio da professora itinerante. A orientao para atividades em famlia  feita pela professora itinerante, pela professora de turma e pela diretora do servio".

3 PERGUNTA: "Poderia a oradora dar-nos uma idia aproximada do nmero de atendidos pelo servio especial do Estado da Guanabara? nmero de cegos e amblopes?"

RESPOSTA: "O Departamento de Ensino atende 360.000 crianas. O ensino Especial 24.000, sendo 30 o nmero de crianas deficientes visuais, cegas e amblopes".

4 PERGUNTA: "Por que esse excelente trabalho realizado na Guanabara, a respeito da integrao social das crianas cegas, no tem sido divulgado com maior intensidade?"

RESPOSTA: "O fato de estarmos imbudos no trabalho, fez com que esse aspecto passasse despercebido, mas os interessados podero dirigir-se por carta ou telegrama que sero atendidos".

5 PERGUNTA: "Levando-se em conta que nem todas as dificuldades acarretadas pela deficincia visual so superadas como explicar o fato da criana cega conduzir o carrinho? (slide) No seria uma negao da prpria incapacidade?"

RESPOSTA: "No h negao de incapacidade, pois o menino conduz o carrinho em local conhecido e sente prazer nisso".

6 PERGUNTA: "Qual o nmero de professores especializados? Conta o Estado da Guanabara com legislao regulamentada, ato de ingresso ao magistrio especializado?
Quais so e como so confeccionados os materiais especializados para leitura e escrita de amblopes? H imprensa Braille no Estado da Guanabara?"

RESPOSTA: "H 7 professores itinerantes. O Departamento de Educao Primria mantm ordem de servio que regulamenta todo o ensino. Especializam-se as que desejam.
Todo o material  feito pela criana ou pela professora que tambm recebe o material da professora comum e o amplia. Infelizmente no h imprensa Braille na Guanabara.
Recebemos livros da Fundao para o Livro do Cego no Brasil".

Com referncia ao 2 tema foram feitas as seguintes perguntas:

1 PERGUNTA: "Um indivduo cego pode servir-se  mesa em restaurantes ou em casa sem ajuda de outros? De que forma?"

RESPOSTA: "A pessoa pode servir-se perfeitamente. Com os treinamentos pode reconhecer o que est no prato ou na panela. Se tiver boa adequao e mobilidade, saber localizar o garo, a mesa e se servir adequadamente".

2 PERGUNTA: "Qual o tipo de profissional ideal para ministrar instrues de atividades da vida diria? A preparao da famlia como poder ser feita? Na sua experincia todos os que foram instrudos esto fazendo uso do aprendizado?"

RESPOSTA: O treinamento deve ser espontneo e realizado j na primeira infncia. Se perder a viso depois de adulto,  preciso restaurar essa habilidade. No h um profissional especial para isso, pode ser o fisioterapeuta, um assistente social ou professor. A preparao da famlia deve ser feita pelo assistente .social que observa o meio scio-cultural da famlia e a orienta de acordo com isso. Todos os instrudos no Centro de Reabilitao tiveram interesse no aprendizado".

3 PERGUNTA: "Falou-se muito nas vrias atividades que sero ensinadas s crianas cegas; no seria de maior proveito o adestramento ou aperfeioamento das faculdades motoras, sensoriais para que possa desempenhar qualquer atividade que deseje ou necessite nos seus vrios momentos?"

RESPOSTA: "Realmente, o desenvolvimento dos sentidos remanescentes  muito importante. O desenvolvimento motor  feito atravs de outras atividades. Para se conseguir boa coordenao motora  preciso estgios anteriores, como as pessoas videntes. No caso de no haver desenvolvimento motor normal  necessria ajuda de um fisioterapeuta".

4 PERGUNTA: "H algum curso que forma tcnicos para atividades da vida diria?"

RESPOSTA: "No tenho conhecimento de curso regular. No Hospital das Clnicas onde h necessidade de atender pessoas paraplgicas, foi feito um curso. Fora isso apenas existem estgios de preparo".

Com relao ao 3 tema foram feitas as seguintes perguntas:

1 PERGUNTA: "Quais as experincias at aqui feitas no sentido de conseguir a elaborao de um cdigo estenogrfico Braille"?

RESPOSTA: "Sempre se pensou em utilizar um cdigo Braille. Porm, at agora no se conseguiu essa instalao".

Nesse momento, a representante da Delegao Portuguesa pediu a palavra, solicitando que o Brasil se dirigisse ao professor portugus Jos A. de Castro, autor de um cdigo Braille, a fim de se beneficiar do mesmo. A mesa agradeceu a sugesto e deu a palavra ao Sr. Carnahyba - Consultor Braille da Fundao para o Livro do Cego no Brasil, que exps as tentativas at agora ineficazes, para a elaborao de um cdigo.

2 PERGUNTA: "Gostaramos de saber, como seria a substituio parcial do alfabeto Braille pelo uso da fita gravada. Acredita que seja possvel e at que ponto? De modo geral qual a aceitao do sistema Braille por parte das crianas amblopes"?

RESPOSTA' "No  possvel a substituio completa, a fita  apenas uma complementao, pois h necessidade do contato direto  com o livro. Quanto ao amblope este tem sistema prprio de escrita, que no  Braille".

3 PERGUNTA: "No haveria possibilidade de se formar uma comisso para estudar a formao de um cdigo brasileiro de estenografia? Esse pedido no seria uma atribuio do congresso?"

RESPOSTA: "Estamos nos batendo para isso. A UNESCO determinou que procurssemos um cdigo semelhante ao castelhano, mas poderia trazer problemas devido s diferenas de lngua, vogais, sons etc".

Em questo de ordem, o prof. Carnahyba esclareceu que os trabalhos atuais esto em fase de concluso, pela comisso constituda pelo Instituto Benjamin Constant, Fundao para o Livro do Cego no Brasil e Campanha Nacional de Educao dos Cegos. O cdigo a ser divulgado baseia-se no de Jos A. de Castro.

4 PERGUNTA: "O orador opina mais pelo sinal de reticncias usado em So Paulo ou Guanabara, por que?"

RESPOSTA: "A minha referncia foi acidental, o problema se refere  unificao do sistema Braille e no a acentuao de divergncias". A mesa recebeu ainda uma retificao, assinada pelo prof. M. C. Carnahyba nos seguintes termos: "O Brasil fez-se representar na Conferncia de Montevidu em 1951 por D. Dorina de Gouva Nowill, Presidente da Fundao para o Livro do Cego no Brasil - So Paulo, e pelo Dr. Brito Conde, diretor do Instituto Benjamim Constant - Guanabara, na poca". Nada mais havendo a tratar, o Sr. Presidente da mesa deu por encerrada a 4 sesso plenria, aps agradecer aos expositores e aos srs. congressistas. Foi ento lavrada a presente ata, que aps leitura e aprovao, ser assinada pelo Sr. Presidente e pelas secretrias, da sesso: So Paulo, 11 de novembro de 1964. ass. Gal. Jaime E. Silva, Deinze A. Cizotto, Edyleda T. Souza.



QUINTA FEIRA, 12 DE NOVEMBRO DE 1964. 9:00 HORAS
5 SESSO PLENRIA

Presidente: DR. ROBERTO TALIBERTI
Secretaria: OLENKA REDA M. PIO, ROBERTO LOPES ANDRADE

Ata da quinta sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais. Aos doze dias do ms de novembro de 1964, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina, situado  Avenida Brigadeiro Luiz Antnio n. 278. 8 andar, realizou-se a quinta sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, sendo esta presidida pelo Dr. Roberto Taliberti. Dando inicio a sesso o presidente explicou a se encontrar em substituio ao Prof. Dr. Francisco Elias Godoy Moreira, que fora indicado para presidir essa sesso, mas que por motivo contrrio  sua vontade no pudera comparecer.

Comeando os trabalhos disse que haveria modificao na programao do dia, pois a 1 relatora por motivo de doena no pode comparecer e que o programa seria assim constitudo: primeiro lugar Sr. Haroldo Pedreira, a seguir a palestra do Dr. Edward Waterhouse sobre o Instituto Perkins. Em seguida as duas palestras seria aberta a sesso para que o relator respondesse s perguntas a ele dirigidas, as quais deveriam ser encaminhadas  mesa, por escrito. O relator disporia de 3 minutos para cada resposta. Daria depois um intervalo de 10 minutos e ento seriam projetados dois filmes sobre o Instituto Perkins. Foi feita pelo presidente a chamada do primeiro relator do dia, para que viesse  mesa a fim de apresentar sua tese. Foi ela: "Orientao Vocacional: aspectos profissionais e experincias pr-profissionais do educando deficiente visual".


"A ORIENTAO PROFISSIONAL DE EDUCANDOS DEFICIENTES VISUAIS"
HAROLDO PEDREIRA - Orientador Profissional da Fundao para o Livro do Cego no Brasil - So Paulo.


1 - O TRABALHO E SUA IMPORTNCIA SOCIAL

O homem somente poder sentir-se independente e realizado quando possa prover suas necessidades humanas. Ele tem caractersticas que o distinguem dos demais seres.
Uma delas  a necessidade de dominar e transformar o mundo, utilizando essa transformao em benefcio prprio e de seus semelhantes.

Desta caracterstica, que denominamos trabalho, deriva a vida em sociedade, baseada nas trocas do produto do trabalho entre os homens e no estabelecimento de funes para cada um deles.

A Sociedade , ento, uma organizao de homens que trabalham e que trocam entre si o produto desse trabalho. Este determina a prpria existncia humana, pois somente atravs dele se consegue alimento, vesturio, habitao, calado e conforto, e condiciona sua vida social, influindo na constituio familiar, sua organizao e padres culturais e na prpria aceitao do indivduo pelos vrios grupos sociais.

A sociedade lhe proporciona a satisfao de suas necessidades, mas exige que ele contribua com a sua parcela do trabalho para a satisfao das necessidades dos outros homens. E esta mesma sociedade cercear o direito  participao integrada na vida social a todos os indivduos incapazes de participar do processo produtivo.

II - INFLUNCIA DA IDADE DO CLIENTE NA ORIENTAO PROFISSIONAL

Parte da vida dos indivduos  dedicada  aquisio do equipamento de que necessitaro para assumir, na vida adulta, os papis que a sociedade lhes atribui.

Na infncia e na adolescncia, submetem-se a vrias experincias na vida familiar e escolar, nos grupos recreativos, religiosos e de amizade. Estas experincias e vivncias vo ter um papel importantssimo na capacitao dessas pessoas para soluo dos problemas complexos da vida adulta.

No que concerne  escolha da ocupao,  capacidade de exerc-la e s atitudes do indivduo com relao a ela, no tem grande influncia a vivncia anterior, os conhecimentos adquiridos, e as capacidades que o indivduo conseguiu desenvolver durante esse perodo inicial da vida.

Ocorre que as experincias anteriores, as influncias dos ambientes que freqentou, ou freqenta, nem sempre o orientam para a escolha de uma ocupao adequada  bagagem que reuniu durante esse perodo de formao. Muitas vezes essas experincias so insuficientes para que ele se equipe convenientemente para o exerccio de qualquer ocupao profissional.

A orientao profissional, em ambos os casos, adquire uma importncia relativamente grande para. o planejamento de vida do indivduo. O trabalho com pessoas nessas condies  um processo "curativo", pois atua sobre pessoas com limitao ou insuficincia de experincia anteriores.  um trabalho menos produtivo, pois encontra o indivduo j adulto, mais ou menos estruturado e, em muitos casos, com limitadas possibilidades de mudana. 
Um trabalho preventivo deve ser desenvolvido com a criana e o jovem. Esta providncia influenciaria sua formao e tornaria desnecessria a Orientao Profissional na fase adulta. As possibilidades de resultados satisfatrios seriam bem maiores que no caso anterior.

Na Orientao Profissional, quer de adultos, quer de adolescentes, o aconselhamento desenvolvido dever basear-se em dois pontos que devem ser cientfica e detalhadamente estudados:
- O individuo - tipo fsico, capacidade intelectual tipo de personalidade, aptides, interesse,. ambiente familiar e cultural, e outros dados que possam ser teis  avaliao de suas aptides, capacidades e limitaes.
- Cada ocupao tomada como hiptese suas exigncias para com o indivduo que pretende exerc-la, "status" social, nvel salarial, necessidade social etc.

A orientao do cliente acerca de todos estes aspectos facilitar a escolha de uma ocupao adequada e influir na sua estrutura, possibilitando-lhe mudana de atitudes, desenvolvimento de habilidades, e eliminao de aparentes incapacidades..

 evidente, no entanto, que tais orientaes devero ser acompanhadas, sempre que possvel, do treinamento de pessoa na ocupao tomada como hiptese ou numa ocupao bastante semelhante.

Isto porque o homem  muito complexo e no se pode ter uma idia exata de seu funcionamento em determinada atividade, sem que o submetamos a um teste concreto nessa atividade. A respeito disso, diz Leon Walther: "... um prognstico de aptido profissional nunca ser uma certeza, mas uma probabilidade".


III - A ORIENTAO PROFISSIONAL DE ESCOLARES

Os grupos interessados no futuro profissional de crianas em idade escolar devem, durante o curso primrio e incio do ginasial, dirigir toda a sua ateno para a formao da personalidade e o desenvolvimento das 'habilidades dessas crianas.

Para isto,  necessria uma atuao concomitante nos dois mais importantes setores da vida da criana: a famlia e a escola. Na escola, porque ela complementa o trabalho desenvolvido pela. famlia, fornecendo-lhe experincias nas reas intelectuais, social e recreativa. E na famlia, por ser o grupo social de maior influncia no seu desenvolvimento emocional e na formao bsica de sua personalidade.

Para observar a atuao da criana nestes setores,  de toda a convenincia o trabalho integrado de vrios profissionais.

O professor observar o seu comportamento e desenvolvimento nas atividades escolares; informar os demais tcnicos a respeito de suas observaes, e receber desta orientao a respeito dos motivos psicossociais da conduta da criana, alm de atitudes que conviria o professor assumir em relao .a ela, visando o seu desenvolvimento integral.

O psiclogo proceder  avaliao psicolgica, atravs de jogos, brinquedos e testes, e proceder a orientao da criana e da famlia no que concerne ao seu desenvolvimento emocional. Conforme se faa necessrio, poder este profissional tratar aspectos patolgicos da famlia ou da prpria criana. Informar a equipe a respeito do desenvolvimento emocional da criana, e ser informado por esta sobre aspectos sociais, culturais e de instruo.

O assistente social se encarregar da observao da famlia como um todo, e de interpretar-lhe as observaes da equipe, o desenvolvimento e as necessidades da criana nas vrias reas. Estudar e planejar com a famlia, se for o caso, as mudanas necessrias de sua dinmica, com o objetivo de proporcionar meios de um relacionamento satisfatrio entre seus membros e visando auxili-los na compreenso e aceitao da criana, alm de fornecer-lhe ajuda concreta nas dificuldades que surgiram. Poder eventualmente reunir grupos de pais, utilizando-se das tcnicas de Servio Social de Grupo a fim de proporcionar trocas de experincias entre eles, o que facilitar mudanas de atitudes daqueles que a necessitem. Nesta fase, a criana no ter orientao profissional propriamente dita, a no ser nos casos em que seu nvel intelectual seja insuficiente para a freqncia ao curso ginasial. Nestes casos, a equipe orientar a criana e a famlia na elaborao de um plano que lhe seja mais adequado.

IV - A ORIENTAO PROFISSIONAL NOS CURSOS SECUNDRIOS

Os desejos profissionais de um jovem dependem de causas mltiplas, e nem sempre refletem sua verdadeira inclinao.

Influem nessas escolhas: a moda, a idade, o meio, os pais. o "status" social da famlia, as relaes sociais, os amigos. s vezes tambm a ignorncia sobre o contedo real de uma profisso influi na sua aceitao ou rejeio por parte de um jovem, que no tem condies ideais para a compreenso de muitos fenmenos profissionais que poderia compreender na fase adulta.

Assim, observa-se por pouco freqente, nas pessoas jovens a permanncia de interesse. Estes, em muitos casos. mudam  medida que a pessoa se desenvolve.

Freyre, estudando a estabilidade dos desejos profissionais dos jovens em perodo escolar, notou que:
- na escola secundria, durante um perodo superior a dois anos, apenas 33 por cento dos rapazes permaneceram com os mesmos desejos profissionais, enquanto foi verificada nas moas uma permanncia de interesse da ordem de 45 por cento;
- da escola secundria para a universidade, foi verificada a taxa de 6 por cento de permanncia de interesse;
- somente no perodo de dois anos depois de terminada a universidade  que a taxa de permanncia de interesses passa a atingir 75%.

Freyre concluiu, aps este estudo, que o valor prognstico desses interesses profissionais , em 85 por cento dos casos, simples presuno.

, ento, evidente que, para a eficincia da Orientao Profissional  de extrema importncia que a escolha da rea profissional seja feita pelo prprio cliente, e na idade adequada, ainda que orientado.

A escolha prematura de uma atividade ou ingresso, muito cedo, numa profisso inconveniente ou inadaptada  sua idade, segundo Mrio Gonalves Viana, pode originar conseqncias de vrias ordens: perda da sade, deformaes orgnicas, doenas e traumatismos psquicos mais ou menos graves de onde podem resultar atitudes profissionais lamentveis, tais como: instabilidade profissional, desajustamento profissional, falta de dedicao ao trabalho etc.

V - EXPERINCIA PR-PROFISSIONAIS COM ESTUDANTE

Estas experincias concretas no trabalho, considerando o que foi anteriormente exposto, devem ter sempre presentes dois perigos principais:

O primeiro deles  o de que as atividades escolares por si mesmas, acarretam ao aluno, grandes dificuldades. Todo o cuidado deve ser tomado, ento, para no sobrecarreg-lo com tarefas adicionais, pois pode trazer-lhe uma srie de desequilbrios e insatisfaes.

O treinamento dever ter o objetivo de colocar o menor em contacto com a tarefa para conhec-la, conhecer as responsabilidades e habilidades que exige, e coletar suas impresses e opinies sobre ela

Na orientao, em entrevistas, a discusso de todas as caractersticas das tarefas e a sua comparao com as avaliaes psicolgica e social do cliente e com as observaes do orientador profissional e do professor vo permitir que o educando possa ir planejando gradativamente a orientao que dar  sua vida profissional.

O segundo perigo  o da limitao das experincias pr-profissionais. Apenas para ilustrar, gostaria de citar uma experincia interessante e que pode ocorrer com organizaes de preparao profissional. Em uma viagem a Piracicaba, tive oportunidade de observar um garoto de 14 a 15 anos de idade desmontando e montando o motor de um automvel numa oficina especializada. O proprietrio do automvel ficou admirado com a destreza e o cuidado com que o aprendiz realizava estas operaes. Perguntando ele ao garoto se interessava por aquele trabalho e pretendia especializar-se no campo, recebeu a seguinte resposta: ", o Sr. sabe, eu gosto muito deste trabalho, e queria aprender mais na Escola Profissional, mas acontece que na Escola Profissional daqui de Piracicaba s ensinam torneiro-mecnico e Ferramenteiro, e eu vou ter que aprender uma dessas, se quiser melhorar". No me lembro se foi ferramenteiro que o garoto disse, mas sei que era uma ocupao qualquer que no lhe interessava em termos de ocupao, mas apenas em termo.s de rendimento econmico.

A limitao das possibilidades de experincias pr-profissionais constitui realmente, como se v, um srio perigo. Quando os responsveis pela Orientao Profissional no possuem os meios prticos para proporcionar as experincias necessrias ao educando, devem recorrer  utilizao dos recursos da comunidade. Esta atitude  prefervel  de oferecer ao menor apenas uma faixa restrita de perspectivas futuras de trabalho. Talvez o garoto da ilustrao tivesse um rendimento mais satisfatrio, e um ajustamento profissional e social melhor, se lhe fosse oferecida a oportunidade de receber a orientao tcnica profissional na Escola e o treinamento naquela mesma oficina ou em outra mais completa.

Uma mudana de interesses forada pelas condies da Escola Profissional pode produzir um profissional mal ajustado.

Nesta fase da orientao em que se realiza o treinamento em diversas tarefas concretas,  necessrio o concurso de outro profissional, que encarregar dos contatos estritamente profissionais, orientando o menor sobre as ocupaes. maneiras de execut-las, sua necessidade social, status, salrios, exigncias etc. Este profissional (Orientador Profissional) e toda a equipe anteriormente citada continuaro a orientao do menor. A sua incluso na equipe implica num novo enfoque, para o qual devero contribuir todos os outros profissionais da equipe. O orientador profissional receber, ento, dos outros profissionais, as informaes acerca do comportamento do estudante em suas reas de atuao, e transmitir a eles as observaes feitas na sua rea. O planejamento da atividade ser feito por toda a equipe, quando isto se fizer necessrio.


VI - A ORIENTAO PROFISSIONAL DE ESTUDANTES CEGOS

A educao de pessoas portadoras de deficincia visual. no Brasil  feita segundo dois sistemas:
- o ensino em escolas comuns da comunidade;
- o ensino em internatos que se dedicam exclusivamente  instruo de crianas cegas.

Seria pouco produtivo discutirmos neste tema a validade ou no de cada uma destas orientaes, mesmo porque o assunto  bastante complexo e controvertido. Caberia, isto sim, discutirmos aqui as possibilidades de adaptao das opinies anteriormente propostas para a orientao profissional de estudantes em geral s condies concretas desses dois tipos de ensino para jovens cegos.

Uma viso das fases anteriores do processo de integrao profissional dos indivduos portadores de cegueira nos mostra que apenas muito recentemente se tm aberto algumas oportunidades, ainda que poucas, de orientao profissional. At ento, o mais que se acreditava poderia um indivduo cego fazer, era montar vassouras, fazer uma ou outra embalagem, separar peas em uma fbrica, e outros servios de mesma qualificao.
 
O aparecimento de servios de Colocao de Pessoas Cegas na Indstria e de Servios de Reabilitao Profissional abriu novas perspectivas de experincias profissionais para os indivduos cegos.

As experincias destes servios, no entanto, so ainda muito pequenas, se considerarmos a extenso dos campos de ocupao profissional das pessoas cegas. E, ao que nos consta, em nenhum destes servios foi desenvolvido um trabalho de preparao profissional especificamente para estudantes de nvel secundrio ou colegial. Nem tampouco nos internatos para crianas cegas se verificou esta atividade.

A passagem, no entanto, de uma fase anterior em que pouco se acreditava nas possibilidades profissionais da pessoa cega, a uma fase atual em que todas as obras de trabalho com cegos comeam a se interessar por novos experimentos e tentativas no sentido de ampliar cada vez mais os campos de atividade dessas pessoas. se refletem inclusive nos internatos, cuja misso inicial era a de proporcionar unicamente instruo, e que j passam a se interessar pela aplicao profissional dessa instruo, ou pela preparao desses jovens em outros campos.

A inexperincia nesse campo, no entanto, deve deixar as obras que trabalham com pessoas cegas preocupadas com os resultados de tal empreendimento.

E nada melhor para refletirmos a respeito disto que analisarmos as falhas e sucessos de servios de orientao profissional desenvolvidos com jovens comuns, e transpor estas experincias para nossos servios, evidentemente que com as devidas correes e adaptaes, ou de tentativas de correes.

No caso dos estudantes que se utilizam do ensino comum. os problemas que enfrentaro sero os mesmos enfrentados. pelos estudantes videntes, acrescidos de possveis incompreenses por parte das pessoas que cuidam de sua orientao profissional a respeito das limitaes impostas pela cegueira. O esclarecimento dessas pessoas poder ser feito por iniciativa dos pais, ou do prprio estudante, ou mesmo desses orientadores. E ser feito providenciando-se um contato dos orientadores com uma obra especializada em orientao e educao de pessoas cegas, onde podero receber os esclarecimentos que se fizerem necessrios.

O estudante em ensino comum receber orientao profissional se a escola em que estuda a proporcionar. ou se recorrer a uma obra especfica de orientao profissional.

Com relao s escolas que se dedicam exclusivamente ao ensino de pessoas cegas, e que queiram proporcionar-lhe orientao profissional, so possveis duas atitudes:
ou confia a orientao profissional a uma obra especializada (e a orientao ser feita fora do colgio), ou organiza a sua prpria equipe de orientao profissional.

No segundo caso,  de toda a convenincia que se d especial importncia aos seguintes aspectos:
- formao da equipe, composta de psiclogo, assistente social e orientador profissional. O papel do professor ser exercido pelos prprios professores das classes.
As funes de cada um so as mesmas j citadas anteriormente;
- que se cuide em no sobrecarregar os alunos com tarefas extracurriculares;
- que haja a preocupao de equipar o educando com recursos pessoais que lhe possibilitem a independncia pessoal e facilidade no relacionamento social. Muitos empregadores recusam-se a admitir um empregado cego por achar que as pessoas cegas necessariamente acarretam encargos especiais, so dependentes, "esquisitas" e podem causar sentimentos desagradveis nos outros empregados, embora admitam a capacidade profissional do candidato. Esta impresso desaparecer  medida que as pessoas cegas sejam habilitadas  independncia pessoal e a um relacionamento social satisfatrio;
- que se proporcione ao educando as mais variadas experincias profissionais, com a inteno de dar-lhe uma viso de suas possibilidades nos mais variados setores.

Este aspecto, alis, adquire uma importncia maior quando se trata da orientao profissional de alunos cegos. Embora as obras da comunidade limitem a escolha para a formao dos jovens que as procuram, estes sabem, na maioria das vezes, que lhes  possvel executar tarefas que no constam da faixa apresentada pela obra, porque outras pessoas de mesma condio fsica que eles as executam. Sabem. ento, que as possibilidades que tm frente a essas tarefas dependem apenas de suas condies de personalidade e de habilidade.

O jovem cego, no entanto, no tem exemplos de pessoas de mesma condio fsica nos vrios setores. e muitas vezes no sabe se a limitao visual o impedir de executar esta ou aquela tarefa. Necessita. ento, da orientao em todos os setores, em tarefas vrias, para poder escolher.

Muitas vezes nem os prprios orientadores profissionais especializados em orientao de pessoas cegas podem saber se determinada tarefa pode ou no ser executada por uma pessoa cega. J ocorreu muitas vezes, aqui e em outros pases, de o orientador profissional declarar a impossibilidade de determinada tarefa ser executada por pessoas cegas, e uma dessas pessoas encontrar meios prprios de manipular a tarefa, atravs de adaptaes e artifcios que lhe possibilitam prescindir da viso.

Sabemos, de experincias anteriores, que o estreitamento da faixa de atividade condiciona o indivduo  escolha de tarefas inclusas nessa faixa. Muitos indivduos cegos tornaram-se montadores de vassouras, ou massagistas, porque estas eram suas nicas perspectivas de trabalho.

Hoje, j com maior compreenso do problema, poderamos afirmar que no existem ocupaes "prprias" para pessoas cegas, e que em todas as reas existem funes passveis de serem desempenhadas por estas pessoas, dependendo de suas qualidades e hbitos pessoais.

E somente a experincia prtica, com a pessoa que deseja aprender determinado trabalho, nos pode dizer se  ou no possvel execut-lo. Sua orientao profissional deve ser baseada em que ela  uma pessoa humana, e por isso portadora de muitos recursos. Ela tem capacidade e limitaes, como as demais pessoas. E a limitao visual no  mais que uma de suas limitaes, inserida num contexto de outras limitaes que, mais que a visual, delimitam seu campo de ocupao.


Terminada a apresentao da 1 tese, o Presidente chamou  mesa o Dr. Waterhouse, veio ele acompanhado de D. Dorina Gouva NowiII e D. Luiza Banducci Isnard, a fim de que as mesmas servissem de intrpretes. De incio o Dr. Waterhouse explicou que iria dizer apenas algumas palavras falando aos poucos para que a traduo do ingls fosse feita tambm aos poucos e assim suas palavras no se tornassem montonas: "Antes de comear, tenho aqui alguns panfletos; um  ilustrado, sobre a Perkins, enquanto que o outro diz respeito ao nosso programa. No tenho o nmero suficiente para distribu-los, mas se algum estiver interessado em receber cpias, sabendo ler ingls, peo que deixem seu nome e endereo, e eu terei prazer em lhes mandar.

Gostaria de lhes dizer algumas palavras sobre o que  que faz um bom professor. Temos em nossa escola dois programas para o treinamento de professores e todo ano eu me dirijo acerca de cem jovens, rapazes e moas, que pretendem ensinar no nosso campo de atividades.

Tenho que procurar descobrir porque eles se propuseram, no apenas a ensinar cegos, mas porque simplesmente se resolveram a ensinar.

Tento inquiri-los a respeito de como eles se sentem a respeito de seu aluno, e que tipo de criatura eles querem que aquela criana se torne, ao crescer.

A nica diferena que estabelecemos em nossa escola entre a criatura cega e a vidente  que, para a cega, a vida  bem mais dura, mais lenta de passar, e crivada de toda sorte de enormes dificuldades.

H mais de cem anos que se vem procurando avaliar o quanto os cegos podem chegar a fazer, e toda vez que se lhes oferece um desafio eles aparecem novamente pedindo por mais.

O cego - homem ou mulher que obteve sucesso em sua vida, j chegou  concluso de que ele no pode se contentar com o medocre ou mesmo com o mdio - ele tem que ser mais do que apenas um competidor.

Ele tem que ser um estudante acima do normal, se deseja ingressar na universidade - tem que provar ao professor a superioridade do seu trabalho.

Se ele  um empregado, tem que realmente se fazer reconhecido perante o seu empregador, no como um pobre cego tentando sobreviver, mas como algum que executa o seu trabalho to bem, se no um pouquinho melhor ainda, do que os outros na mesma posio.

Completando, o cego tem ainda em seu desfavor, o fato de que a sua conduta tem que ser constantemente perfeita - no h nada mais horrvel para quem enxerga do que presenciar a bebedeira num cego.

Ele ainda tem que ser considerado socialmente como uma pessoa agradvel - no h nada mais triste do que um cego que seja cacete, enfadonho.

Na realidade, isso tudo no deixa de ser uma injustia para com o cego, mas, a menos que ele o reconhea no ter sucesso na vida.

Infelizmente, a verdade  que nenhum de ns trata um cego como tratamos quem v. Se eu levar um tombo na neve, todos acharo muita graa, mas se um cego cair, todos correro em seu auxlio.

Tudo isso parece muito triste, e realmente ser triste se o cego no conseguir aprender, de um modo ou de outro, a ter uma realmente profunda e ampla alegria de viver.

Voltando, porm, ao professor, vejamos como ele poder guiar seu aluno cego para que ele cresa e v ao encontro deste salutar modo de viver que o levar ao sucesso.

O homem mais inteligente que jamais me ensinou, costumava repetir diversas vezes aos professores: "No  o que vocs ensinam, mas o que vocs representam na vida, o que realmente vai interessar".

Quando eu converso com esses jovens, tento me certificar de que no haja entre eles nenhum cnico, nenhum ranzinza, nenhum infeliz ou inseguro, mas criaturas que saibam extrair grande alegria de tudo aquilo que faam na vida.

Se o professor ir exigir do seu aluno que trabalhe com mais afinco do que qualquer outro, ter que ser, ele prprio, um batalhador sem preguia.

Se ele quer de seu aluno um rendimento superior, no pode se dar ao luxo de apresentar, ele prprio, um resultado fraco.

Se ele quer que seu aluno enfrente a vida com coragem, no poder nunca ser ele um medroso.

Afirmo que no poder haver maior alegria na vida para um professor, do que presenciar o sucesso de algum aluno seu.

Ainda no me referi, porm, ao que h de especial em nosso modo de ensinar. Somos professores e, como tal, devemos ensinar, pois essa  a nossa misso - e no a de especialistas em reabilitao. Ensinamos, portanto, da melhor maneira possvel, como se tivssemos escolhido alunos que possam ver.

Precisamos reconhecer que atualmente a sociedade est se tornando cada vez mais exigente de seus membros, e nisso inclui os portadores de incapacidades.

Um bom exemplo disso  o que se espera hoje em dia dos cegos, nos Estados Unidos, e acho que em outros lugares tambm: que ele possa se locomover sozinho. Este tem sido para ns um desafio tremendo, qual ainda no pudemos satisfazer totalmente.

Acho, porm, que este  realmente um desafio especial, pois, s vezes, pergunto a mim mesmo se teria eu coragem de atravessar uma rua sozinho apenas com o auxlio da bengala longa.

Isto  tpico dos desafios que propomos aos nossos alunos, e, na minha opinio, nossa maior dificuldade, no trabalho com cegos,  a de saber aquilatar perfeitamente suas limitaes, para nunca exigir deles o que ns prprios no nos sentiramos com foras para fazer.

Existem tantas frustraes na vida de um cego, que nosso esforo tem que ser no sentido de ajud-lo a venc-las, com profunda honestidade e sinceridade de corao.

Em toda minha experincia, penso que posso mesmo citar como grande responsvel pelo fracasso de professores ao lidar com cegos. a insinceridade.

 claro que nenhum de ns  insincero deliberadamente - o motivo ser talvez no termos feito a ns mesmos nenhuma destas perguntas a que hoje me referi. E isto nos impedir de sermos bem sucedidos.

H alguns anos atrs, tivemos que escolher um "slogan" para nossa escola, e escolhemos: "as vidas dos cegos graduados pela Perkins fizeram da histria da Perkins, uma histria de sucesso".

Considero este um timo "slogan" adequado a todos os nossos professores: " a vida dos cegos que fez da educao de crianas cegas uma histria de grande sucesso.

PERGUNTAS:
1 PERGUNTA: Feita por uma congressista uruguaia: "Gostaria de saber se nos Estados Unidos, na Escola Perkins, usa-se algum teste especial para selecionar os futuros professores de cegos, ou se h apenas a observao da criatura por algum tempo?

RESPOSTA: - No, no usamos teste algum. Exigimos um histrico completo do candidato, e exceto algum caso especial, insistimos sempre na sua entrevista pessoal com algum membro do pessoal de nosso curso de treinamento. Todos esses candidatos, porm, j so formados em escolas superiores e tm, portanto uma extensa histria. Nesta entrevista pessoal com o candidato, no h propriamente um formulrio especial, apesar de que conservamos, geralmente em nossa frente alguma anotao, para que nossas perguntas possam seguir uma orientao clara. Deduzimos, porm, muito mais sobre o candidato por suas respostas propriamente ditas. Umas indagaes que sempre gosto de fazer  sobre quantos irmos e irms o candidato tem, e pela maneira que eles respondem, demonstrando prazer ou indiferena para com seus irmos, ns depreendemos muito sobre a sua maneira de ser e de se dar com as pessoas.

2 PERGUNTA: O Dr. Waterhouse nos explicou que h na Escola Perkins dois programas para formao de professores. Agora, ns perguntamos: so dois campos de pesquisa diferentes, formando professores em campos diferentes, dentro da prpria especializao de educao dos cegos?

RESPOSTA: Realmente so dois programas: um para professores de cegos, e, mais outro, com professores especializados na educao de cegos-surdos; neste tivemos o prazer de ter entre ns a professora Da. Nice Saraiva.

3 PERGUNTA: Porque insiste o Dr. Waterhouse em que as pessoas cegas devam ter um comportamento especial? No seria ento o caso de todos quererem ser cegos, para apresentarem tambm essas condies morais e intelectuais excepcionais?

RESPOSTA: Na realidade as pessoas cegas podem ter os defeitos que quiserem, mas o fato trgico  que, como suas aes so constantemente observadas, tero que evitar certos defeitos para poderem conseguir um lugar razovel na vida em sociedade. Tero que ser capazes de resolver certas situaes sociais difceis, evitando, por exemplo, sentirem-se constantemente ressentidas, pois todo o seu comportamento inadequado ser logo notado. Conheci milhares de homens e mulheres cegos, mas no tenho lembrana nenhuma de um cego realmente bem sucedido na vida, que no se apresentasse superior aos do seu meio circulante.

4 PERGUNTA: Quando o Dr. Waterhouse, na sua seleo de candidatos descobre que um deles constitui problema, pela histria de sua vida ou por si prprio, qual o seu procedimento adotado?

RESPOSTA: O candidato, ao ser entrevistado, j sofreu uma seleo prvia. Entretanto, podemos esclarecer que o critrio adotado  o da seleo de acordo com suas qualidades pessoais. Escolhemos, de preferncia, aqueles candidatos que sentimos que sero homens e mulheres bem sucedidos na vida -  claro que se eles tm as qualidades necessrias para serem professores: Professores realizados na vida, tero um dia certamente alunos realizados.

Aqui coube uma explanao de D. Luiza Isnard que explicou que os candidatos aos cursos de treinamento no so recebidos na Perkins apenas porque se matricularam
- tm que fazer antes, o que chamamos estudo do material. Alm disso, normalmente a escola tem um nmero de candidatos trs a quatro vezes maior do que o que ela
pode ter durante o ano, de modo que a seleo  excelente.

5 PERGUNTA: A Escola Perkins  uma instituio de ensino segregado ou integrado?

RESPOSTA: Eu diria que a Escola Perkins  tanto uma coisa quanto outra. Ela  uma escola residencial, mas que trabalha em estreita e constante cooperao com a comunidade e suas famlias. Existe alguma segregao e alguma integrao na maioria de suas atividades, e isso tem provado ser muito produtivo.

6 PERGUNTA: Gostaria de saber se h nos Estados Unidos cursos especiais para as pessoas fazerem reabilitao.

RESPOSTA: No sei muito bem a respeito de reabilitao, porque ando ocupado demais no setor da educao - Est fora do meu campo, portanto.. Mas posso afirmar que no conheo outro pas com variedade mais extensa de cursos de reabilitao do que nos Estados Unidos.

7 PERGUNTA: Na Escola Perkins, como se resolve a questo da co-educao?

RESPOSTA: Vou dar-lhes uma resposta que poder surpreend-los. No nosso modo de ver,  mais importante para um adolescente, que tenha seus "flirts" bem sucedidos, do que as notas elevadas durante o curso. E vejam bem, que consideramos, notas altas, assunto da mais alta importncia.

8 PERGUNTA: Em que medida nos Estados Unidos os professores cegos so aproveitados em escolas pblicas e particulares, e em que nveis, do primrio ao superior?

RESPOSTA: Bem, cerca de 10% do meu prprio pessoal,  constitudo de professores cegos. Tenho conhecimento de que h professores cegos trabalhando em todos os nveis. Tem havido at aqui certas dificuldades para esses professores encontrarem posies na educao geral, mas estas dificuldades vm sendo gradativamente superadas.
Acho de grande valor colocar professores cegos no meu pessoal, pois eles servem de modelo aos meus alunos. Mas, por isso mesmo, a seleo na escolha do professor cego tem que ser muito mais cuidadosa, porque sua influncia sobre a criana cega sob sua responsabilidade ser tremenda, muito maior do que a de qualquer outro professor vidente.

9 PERGUNTA: Gostaria de saber como conseguiria uma mquina Braille para minha escola que luta com dificuldade?

RESPOSTA: Este assunto dever ser resolvido depois, particularmente. D. Dorina, porm, pediu licena, para explicar que felizmente, agora, atravs da Campanha Nacional de Educao dos Cegos, esse pedido ia poder ser satisfeito.

10 PERGUNTA: Como os professores que saem do Perkins continuam a receber orientao?

RESPOSTA: Quando estes professores terminam seus cursos, no so mais crianas, e devem estar a cuidar de si mesmos. Todos, porm, se mantm, em contato com a escola, escrevendo freqentemente, ou visitando-nos, mas estes so contatos absolutamente informais

Terminadas as perguntas D. Dorina agradeceu ao Dr. Waterhouse pela sua palestra e disse que dela um ponto deveria ser destacado, que era o de que, h uma necessidade muito grande de educao social, pois,, um cego mal preparado constitui um srio perigo, com sua influncia negativa para a integrao de outros cegos na sociedade.

A seguir foi suspensa a sesso pelo presidente da mesa por dez minutos. Reiniciados os trabalhos o Sr. Haroldo Pedreira relator da tese do dia foi convocado a vir  mesa a fim de responder as perguntas  ele dirigidas. Foi lida a 1 PERGUNTA composta de quatro itens:
a) Qual a funo de um orientador profissional num centro de reabilitao;
b) O orientador profissional deve acompanhar o cego at o ambiente onde vai trabalhar?
c) Qual a diferena entre orientao educacional?
d) A cegueira limita a profisso ou a profisso deve ser adequada  cegueira?

RESPOSTA:
a) A mesma que de qualquer outro orientador s que ele se restringe  profisso;
b) Depende das condies do ambiente e das condies do indivduo e se for um ambiente diferente deve ao menos no primeiro dia, acompanh-lo ao servio para observar
suas reaes;
c) A funo do orientador educacional est ligada ao ensino, enquanto que a do orientador profissional se liga  profisso,  sua vocao;
d) A profisso no s para o cego deve ser adequada, mas sim a qualquer indivduo. Sabe-se que 20% das profisses so compatveis a um indivduo normal, e que 15%
so compatveis ao cego.

2 PERGUNTA "O que se tem feito no sentido de formar a comunidade para aceitao do profissional cego? Existem possibilidades de um cego atingir uma boa posio no comrcio, na indstria, como "public relation", ou seletor de pessoal?

RESPOSTA: - "Praticamente se tem feito pouco no sentido de preparar a comunidade para aceitao do indivduo cego. Em colocao profissional, agora est se comeando. H sessenta casos de colocao na indstria pelo Centro de Reabilitao. De maneira geral  difcil para o cego trabalhar no comrcio devido  falta de adequao profissional neste campo, pois o comrcio exige uma srie de formalidades a serem preenchidas e isto depende muito da pessoa".

3 PERGUNTA: "Qual  o mercado do trabalho para os cegos existente atualmente em So Paulo. H alguma organizao interessada em ampliar esse mercado?"

RESPOSTA: "Em geral em So Paulo h mais colocao do cego na indstria. Em hospitais j agora o campo est se abrindo oferecendo trabalho em cmaras escuras de raio X. Atualmente em So Paulo s existem duas organizaes que cuidam da colocao de cegos no mercado de trabalho a Fundao para o Livro do Cego no Brasil e o SENAI".

4 PERGUNTA: "O que pode o senhor nos informar acerca da orientao de cegos feita pelo SENAI"? O relator pediu ao Sr. Geraldo Sandoval que ocupa no SENAI o cargo de orientador profissional de cegos, para que viesse responder a essa pergunta, pois ningum melhor do que ele poderia faz-lo.

RESPOSTA - Explicou o Sr. Geraldo Sandoval, que visando o recrutamento de mo-de-obra para a indstria, h no SENAI o setor de colocao do cego. Segundo estatsticas realizadas em seu servio este ms, h em So Paulo no campo industrial duzentas e vinte e duas grandes empresas com quase 1.000 ocupaes compatveis ao cego. Que dentro do seu setor tem ele procurado fazer o possvel, mas tem encontrado limitaes que se prendem ao regulamento interno das empresas.

Terminado o esclarecimento, foi lida a ltima pergunta:

"No Brasil as Companhias de Seguros seguram os empregados cegos? Como est resolvido esse problema no Brasil?" Depois de ter sido identificada, como autora da pergunta, a representante de Portugal e ter ela explicado que esse problema tem preocupado muito seu pas, o relator explicou: "Aqui no houve o problema. Talvez essa dvida tenha surgido devido a ponto de vista de que o cego por no enxergar esta sujeito a mais acidentes. Cabe portanto a equipe tcnica de reabilitao preparar tambm a comunidade na aceitao do cego como um indivduo capaz de desempenhar eficazmente sua funo profissional ".

Satisfeitas as perguntas, o presidente da mesa agradeceu ao Sr. Haroldo Pedreira e avisou ento aos presentes que a seguir ia ser exibido um filme sobre "The Perkins School Story". Antes do incio da exibio despediu-se dos congressistas e agradeceu a colaborao dos secretrios da mesa.

Passou-se ento a exibio do filme, e  medida que ia sendo exibido D. Luiza Banducci Isnard, leu a traduo do texto. Terminada a exibio D. Dorina de Gouva Nowill, esclareceu que esse filme ficaria no Brasil, e que poderia se solicitado para exibio em outras cidades do nosso pas.

Foram ento encerrados os trabalhos e para constar o que acima nos referimos, ns os secretrios lavramos a presente ata que depois de lida e aprovada, ser assinada pelo Presidente da Sesso e por ns secretrios. So Paulo, doze de novembro de 1964. ass. Olenka Reda M. Pio; Roberto Lopes Andrade.



SEXTA FEIRA 13 DE NOVEMBRO DE 1964 -9:00 HORAS - 6 SESSO PLENRIA

Presidente: DR. MURILLO CAMPELLO
Secretaria: MARIA DO CARMO AYRES MARIA APARECIDA BIANCO

Ata da sexta sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais - So Paulo. Aos treze dias do ms de novembro de 1964, s 9,20 horas, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina, cita  Av. Brigadeiro Luiz Antnio, 278, 8 andar, realizou-se a sexta sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, presidida pelo Dr. Murillo Campello, Diretor do Instituto Nacional de Educao de Surdos da Guanabara. Abrindo a sesso, o presidente da mesa comunicou ao plenrio a alterao na ordem da exposio dos temas. Assim sendo, concedeu a palavra  prof. Wanda Ciccone Paschoalick professora especializada da Secretaria da Educao de So Paulo - Capital, que discorreu sobre: "Consideraes sobre a educao dos retardados mentais portadores de deficincia visual".


CONSIDERAES SOBRE A EDUCAO DOS RETARDADOS MENTAIS PORTADORES DE DEFICINCIA VISUAL
WANDA CICCONE PASCHOALICK -Professora Especializada em Ensino de Cegos e Ensino de Deficientes Mentais, Regente da Classe de Ajustamento do Grupo Escolar "Prof.
Pedro Voss" - So Paulo.

CONSIDERAES GERAIS:

Avaliamos o verdadeiro engrandecimento de uma sociedade pela capacidade de compreenso de cada membro, manifestada atravs da mtua colaborao, caracterizada pela f e confiana nas possibilidades fsicas, morais e intelectuais do ser humano.

O bem-estar social depende dos esforos empregados pelos integrantes da comunidade, no sentido de por em prtica os salutares princpios de solidariedade humana.
E , graas ainda a essa unio de esforos que alguns povos encontraram a soluo de vrios problemas sociais, principalmente os atinentes  educao dos chamados deficientes fsicos, mentais e sensoriais.

No Brasil, felizmente muito j se fez por eles, mas tambm muito ainda resta a fazer. No por inrcia dos brasileiros, mas pela morosidade natural da evoluo especfica dos campos tcnicos. Quero crer, seja essa lentido benfazeja e positiva, pois nos d a oportunidade de experimentar. selecionar e adotar sistemas aperfeioados e eficientes de assistncia educacional, empregados por outros povos.

Hodiernamente, a legislao em todo mundo, tende a reconhecer o direito e mesmo a obrigao de proporcionar educao e instruo a todos os seres humanos, sejam eles deficientes ou no.

O governo brasileiro, atravs da lei n. 4.024 de 20/12/61, Lei de DIRETRIZES E BASES DA EDUCAO, determina que:

Ttulo II - DO DIREITO  EDUCAO -Art. 2 - A educao  direito de todos e ser dada no lar e na escola.  Art. 3 - O direito  educao  assegurado: I - Pela obrigao do poder pblico e pela liberdade de iniciativa particular de ministrarem o ensino em todos os graus, na forma da lei em vigor; II - Pela obrigao de Estado de fornecer recursos indispensveis para que a famlia e. na falta dessa, os demais membros da sociedade se desobriguem dos encargos da educao, quando provada a insuficincia de meios, de modo que sejam asseguradas iguais oportunidades a todos.

Ttulo X - DA EDUCAO DOS EXCEPCIONAIS - Art. 88 - A educao dos excepcionais, deve, no que for possvel, enquadrar-se no sistema geral de educao, a fim de integr-los na comunidade. Art. 89 - Toda iniciativa privada considerada eficiente pelos conselhos estaduais de educao, receber dos poderes pblicos tratamento especial mediante bolsa de estudo, emprstimos e :subvenes.

Vamos encontrar na DECLARAO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM, adotada em 10/12/48, pela Assemblia-Geral da Organizao das Naes Unidas (ONU), que:

Art. 1 - Todo os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. So dotados de conscincia e devem agir, uns perante os outros com esprito de fraternidade. Art. 3 - Todo indivduo tem direito  vida,  liberdade e a segurana de sua pessoa. Art. 22 - Toda pessoa como membro da sociedade tem direito  segurana social, destinada a proporcionar-lhe a satisfao de seus direitos econmicos, sociais e culturais indispensveis  sua dignidade e ao livre desenvolvimento de sua personalidade, segundo a organizao e os recursos de cada pas. Art. 26 - Toda pessoa tem direito  educao, em plena igualdade e em funo de seus merecimentos.

Diante da legislao internacional e nacional, temos o dever moral e cvico de pr em prtica os princpios sbios e humanos da solidariedade social, assistindo ao indivduo deficiente com a convico de que todo ser  til  humanidade. Se agimos e reagimos e essa razo depende do estmulo que recebemos, a ns, estudantes do problema da criana deficiente, cabe proporcionar estmulos certos em momentos devidos, com objetivos definidos, para que haja proveito til no s a sociedade, mas principalmente para o prprio indivduo deficiente, tornando-o mais feliz e menos dependente.

Dentro da educao dos deficientes em geral, vamos destacar e analisar o problema da criana duplamente deficiente, visual e mental, procurando dar pequena parcela de nossa colaborao aos interessados no assunto e ao mesmo tempo confessar a nossa alegria em ver este tema ser focalizado neste conclave de acentuada repercusso social.

A expresso "criana excepcional", j h algum tempo vem sendo usada no Brasil para designar os portadores de caractersticas orgnicas ou psquicas que os colocam abaixo ou acima daqueles considerados normais, de tal maneira que se tornam necessrios meios especializados para sua educao, instruo e formao profissional. 
Dentro deste conceito, a expresso "crianas excepcionais", abrange as super-dotadas e as infra-dotadas. Dentre estas ltimas, distinguimos as portadoras de alteraes ou deficincias do sistema neuro-steo-muscular, dos sentidos e do aparelho psquico. As portadoras de deficincias ou alteraes do sistema neuro-steo-muscular, so crianas com defeitos fsicos, paralticas, vtimas de m formao cerebral congnita ou seqela de meninge, encefalites, tumores ou abscessos cerebrais, de traumas, de poliomielite ou conseqncia de determinadas molstias heredo-degenerativas. "As portadoras de deficincia dos sentidos. so crianas surdas, mudas e cegas, sejam estas deficincias de origem congnita ou adquirida. O grupo das portadoras de distrbios psquicos,  integrado pelas:
a) deficincias mentais;
b) psicopatias;
c) psicoses propriamente ditas;
d) e pelos desajustamentos emocionais

As que nos interessam, neste trabalho, so as crianas que apresentam deficincia visual e distrbios psquicos, simultaneamente.

A orientao no atendimento desses casos depende dos diagnsticos de cada um deles. Difcil especificar o tratamento para cada caso em particular.

Em sntese, vamos nos restringir s citaes acima, sem procurar definir ou conceituar o grau de deficincia visual ou mental de que nos ocupamos em nosso campo e cujos portadores constituem o objeto do nosso trabalho. Salientamos apenas que a elegibilidade do caso quanto  deficincia visual, se faz tendo em observao a lei n. 5.991 de 26/12/60 que, em seu art. 2 estabelece consideraes sobre a acuidade visual do cego e amblope.

No grupo de crianas portadoras de dupla deficincia, a assistncia deve variar de acordo com o tipo de distrbio psquico, pois a limitao sensorial, neste caso,  a deficincia que constitui menor obstculo.

Aps oito anos de trabalho com cegos portadores de deficincia mental, esperamos com este contato encontrar a soluo para muitos problemas at agora considerados insolveis, ou uma forma conciliatria que leve  satisfao profissional de dever cumprido de acordo com o ideal de que todo ser humano  passvel de educao.

Mtodos, formas e processos que nos pareceram adequados foram experimentados para atingir os fins desejados. Para descobrir meios mais eficientes que nos permitam lidar satisfatoriamente com essas crianas. Ainda h muito que aprender e, dificilmente este tipo de educao perder seu carter experimental devido ao progresso e evoluo das cincias. Haver sempre novas idias em prtica e a possibilidade cada vez maior de se encontrar novas e mais adequadas respostas.
Cada criana  uma interrogao. Muitas perguntas vm  mente, muitas ficam sem resposta.

A criana portadora de dupla deficincia, dependendo do seu grau de limitao mental, reconhece-se como um indivduo deficiente. No sabemos at que ponto esse reconhecimento  consciente, advindo da percepo do que o rodeia, ou simples conseqncia da sua aceitao ou rejeio pelo meio social. Sabemos apenas que a criana limitada, mental e visual, leva mais tempo para tomar conhecimento do mundo fsico que a rodela, pois precisa usar os sentidos que lhe restam e elaborar mentalmente o quanto for capaz. Na locomoo verificamos que  mais desenvolta, talvez pelo fato de ser irresponsvel at consigo prpria. Seu andar  desarmonizado, descoordenado; todavia tem sua sensibilidade vestibular desenvolvida, permitindo-lhe a percepo dos obstculos a alguma distncia. No lhe  aconselhvel o uso da bengala ou co-guia justamente por causa da irresponsabilidade. No desenvolvimento da linguagem apresenta dificuldades de expresso e articulao.  mais falante do que o deficiente mental comum do tipo instvel. Tem gosto pelo trabalho e  muito prestativo gostando de ser solicitado. Aprecia festas,  alegre e social. Participa ativamente de qualquer programa festivo, sem qualquer inibio ou autocrtica. Sua afetividade tende  ambivalncia. Ele  um todo indivisvel. No  um indivduo deficiente mental e um indivduo deficiente visual;  ambas as coisas ao mesmo tempo, com suas caractersticas e limitaes prprias. , antes de tudo, um ser humano.

A Fundao para o Livro do Cego no Brasil, em 1955. iniciou em carter particular a orientao educacional de deficientes visuais portadores de limitaes adicionais.

A Secretaria de Estado dos Negcios da Educao, em 1957 e 1958, dando execuo ao convnio firmado com a Fundao, criou duas Classes de Ajustamento para os casos de dupla deficincia, sem especificar qual limitao adicional acompanharia a visual. Desse modo, at hoje foram atendidos 52 casos, cujas idades variaram de 7 a 42 anos, dentre os quais alunos com distrbios psquicos (alunos educveis e apenas adestrveis); alunos no portadores de limitaes psquicas e alunos traumatizados por cegueira recente e alunos portadores de limitaes fsicas. Como regente de uma das Classes de Ajustamento, apenas com a especializao em ensino de cegos, deparei com problemas de ordem psquica que constituam a maioria dos casos, os quais levaram-me a especializao, tambm em ensino de deficientes mentais (1959). Concludo
tal curso, e diante da experincia prtica com a classe, iniciei a seleo dos casos de maneira mais especfica, procurando agrupar os deficientes visuais portadores de limitaes mentais. Desta forma pudemos trabalhar, determinando nossos objetivos e estudando o elemento humano com o qual trabalhamos, embora conscientes de que esta pequena amostra no representa a realidade do problema. Um grande nmero de casos dever existir, disseminado nas instituies, lares, asilos, sem a oportunidade de receber a ateno devida,  espera que medidas adequadas sejam tomadas para sua localizao.

EDUCAO NO LAR

Os pais da criana portadora de dupla deficincia, ao procurarem educao especializada para seus filhos, geralmente se encaminham ao campo da educao especializada de cegos e dificilmente para o de deficientes mentais. Alegam uns, que seus filhos no aprendem porque no enxergam; outros, porque no aceitam a possibilidade de terem gerado uma criana naquelas condies; outros ainda, por julgarem as limitaes impostas pela cegueira como as mais graves. Os mais conformados, ao terem em mos os diagnsticos das duas deficincias, buscam imediatamente orientao especializada para seus filhos. Outros mais resistentes, vo percorrer consultrios mdicos, na nsia da confirmao ou negao dos diagnsticos, ou ainda,  procura de um mdico que lhes garanta a recuperao integral da criana. Negam a realidade dos fatos e destes so poucos os que conseguem superar os traumas consecutivos pelos quais passam. No  melhor a atitude oposta dos pais que se submetem resignadamente  situao, ignorando as capacidades restantes da criana, e se desinteressando pelos recursos que a comunidade oferece. Para se ter uma idia exata deste problema, esclarecemos que j orientamos casos que ficaram esperando a "cura" durante 20 anos ou mais. O profissional que compreende essa atitude dos pais como "apenas negao da realidade", consegue ajud-los muito. Primeiro ouvindo, depois analisando, em seguida planejando. Mais tarde, orientando conscientemente e solicitando ajuda de outros profissionais quando o caso assim o exigir.

Lembramos aqui Dr. Stanislaw Krinski quando diz: "As atitudes da famlia, conseqentes ao reconhecimento do filho deficiente, no raro, modificam todo o comportamento social do grupo familiar. Aps um perodo inicial de revolta, de angstia, de desorientao face ao problema, h uma gradativa adaptao  realidade. Procura-se por todos os meios enfrent-la e minor-la. Com isso, todo um processo de ajustamento se faz necessrio. No raras vezes, h a falncia do lar em funo do filho deficiente - a autojustificao, a projeo de culpa sobre o outro cnjuge, o desagrado face ao presente e a aflio e responsabilidades para o futuro. Outras vezes h a atitude positiva, to desejvel, de compreenso e de entendimento melhor de todo o grupo familiar, que se une e se concentra - s vezes exageradamente - em torno do problema e suas possveis solues 
A educao da criana portadora de dupla deficincia deve ser iniciada o mais cedo possvel e seus pais sero os seus primeiros orientadores. Devero ser pacientes, amorosos e perseverantes Para eles  sempre um rude golpe um filho duplamente inferior  mdia das crianas. Essa descoberta  um choque to sbito, que no podem aceit-la de imediato.  natural que no a aceitem, seno depois de exames cuidadosos por especialistas aptos a julgarem as limitaes da criana. A recusa na aceitao da verdade, depois de conhecidos os resultados, pode acarretar efeitos desastrosos para a criana. Muitas vezes fora a criana a uma rdua e longa luta para satisfazer as expectativas demasiado altas dos pais e pe em perigo sua felicidade, pelo fato de no lhe ser ministrado desde cedo o treino devido. Por conseguinte, quanto mais depressa os pais conhecerem as limitaes do filho, tanto melhor, pois estaro em condies de fazer planos para a sua orientao. Quando levada  escola, a criana revela o excelente treino que recebeu em casa.

Se a me lhe tiver ensinado pacientemente as coisas necessrias e lhe tiver permitido a satisfao de "ajud-la" de mil e uma formas, em servios ou atividades domsticas, ao mesmo tempo educativas e agradveis, ela estar apta a ser operante e eficiente na escola.

A orientao especializada ser dada aos pais em reunies de pais e mestres, no caso da criana j freqentar a escola; ou, ento, por um orientador domiciliar, que ser o professor duplamente especializado (em ensino de cegos e em ensinos de deficientes mentais) se a criana ainda no atingiu a idade escolar. Esse profissional vai  residncia, orientar os pais a respeito de certos aspectos fundamentais do desenvolvimento da criana duplamente deficiente. Alguns destes aspectos podero ser sintetizados da seguinte maneira:
1) Habilidades do cuidado pessoal: Ensinar a criana a cuidar de si,  uma das tarefas mais difceis. Para tanto, h certos princpios bsicos e salientamos principalmente os da individualizao e o da determinao do grau de maturidade, que devero ser levados em conta, a fim de conseguirmos algum sucesso no ensino do cuidado pessoal.
Os hbitos de alimentao, higiene pessoal e outros, esto na dependncia da maturidade e capacidade de aprendizagem da criana. Intil  ensinar-lhe uma habilidade para a qual ela ainda no est preparada. Isto conduz ao fracasso e este diminui a vontade de aprender.
2) Independncia: Do bom desenvolvimento das habilidades do cuidado pessoal, decorrer grande parte do desenvolvimento da independncia. Mas, para a criana tornar-se independente  necessrio desenvolver tambm seu sentimento de segurana. Esta segurana est na dependncia de uma srie de atitudes, tais como: aceitao, por parte dos pais e familiares, das suas condies fsicas e mentais; exigncia somente daquilo que ela possa dar; a aceitao social, da qual cuidaremos mais adiante etc, auxiliam sobremaneira o educando a tornar-se independente. As atitudes inadequadas. tanto sociais como familiares, exercem influncias negativas, dificultando  at mesmo cerceando sua independncia pessoal.
3) Os brinquedos: So um dos aspectos mais importantes da educao da criana deficiente mental. Para ela. no so apenas uma forma de divertimento. So mais que isto, desenvolvimento fsico, mental e emocional, Por intermdio deles, a criana compreende o ambiente e se relaciona com ele. Os brinquedos sero escolhidos levando-se em conta o desenvolvimento da criana. Devem ser coloridos, simples e variados. Dentre eles, alguns que venham exigir a participao de outras crianas. Os pais geralmente cercam o filho de brinquedos sem ensinar o que devem fazer com todos esses objetos. A ansiedade, a superproteo e o desconhecimento da importncia dos brinquedos empregados como um meio educacional prejudicam muito o desenvolvimento da criana e o orientador dever estar atento para que isto no acontea.
4) A aceitao Social:  de real importncia, tanto para os pais como para a criana portadora de dupla deficincia, o auxlio que ser prestado pelo orientador, a fim de que a criana se torne mais aceita na famlia e na sociedade. Os problemas de comportamento precisam ser controlados. Uma criana bem educada, ser mais aceita do que uma que grita, chora, que se encoleriza, que tem acessos de mau humor destruindo tudo que encontra  sua frente. Os hbitos desejveis de conduta devem ser estabelecidos de forma coerente e sistemtica.  muito difcil para a criana, como para o educador, estabelecer padres aceitveis de conduta. No entanto ser duplamente mais difcil, modificar os maus hbitos j implantados. A famlia deve cooperar no desenvolvimento destes padres, dentro de um comum acordo. Todos devem estar bem esclarecidos sobre o que se pretende conseguir da criana e os meios dos quais lanaremos mos para atingir nossos objetivos. No podemos esperar que ela seja aceita l fora se dentro de casa o grupo familiar a rejeita, devido ao seu mau comportamento. As boas maneiras devem ser ensinadas. Um "bom dia", "muito obrigado" etc., auxiliam muito a sua aceitao social. Da mesma maneira, os bons modos e posturas fsicas corretas, sero meios bastante positivos para que a criana portadora de dupla deficincia seja bem-vinda ao meio social. Outros aspectos importantes deste tpico so os de independncia e aparncia pessoal.  desagradvel e cansativa a solicitao contnua de auxlio por parte da criana. Desde que ela tenha possibilidades de executar alguma tarefa, deve faz-lo. Por outro lado, o efeito da aparncia pessoal, produz nos outros, de forma direta, uma atitude de aceitao ou rejeio. Uma criana que regularmente toma banho e escova os dentes etc., ser logicamente mais aceita do que uma que no desenvolve nenhum desses hbitos. Essas atitudes influem muito no desenvolvimento do sentimento de segurana, ao qual nos referimos em tpico anterior.

Da boa orientao dos pais e conseqentemente da boa educao recebida em casa, depender a aprendizagem da criana, na escola.

EDUCAO ESCOLAR

Ao receber em sua classe, um cego deficiente mental, o professor especializado deve, j ter em mos, dados que lhe possibilitem analis-lo sob vrios aspectos: oftalmolgico, mdico, social, e os antecedentes escolares, no caso de no se tratar de matrcula inicial. Esses dados fornecem ao professor, elementos que facilitam de forma eficiente seu trabalho com o educando.

Torna-se necessrio acentuar as diferenas que existem entre a criana emocionalmente perturbada, a portadora do retardo pedaggico e a deficiente mental ou mentalmente limitada.

A emocionalmente perturbada apresenta um desenvolvimento mental normal, mas os problemas emocionais desencadeados por diversas causas, acarretam dificuldades no relacionamento e na aprendizagem, tornando necessrios ateno e tratamento especiais, atravs dos quais, poder-se- conseguir sua recuperao.

A portadora de retardo pedaggico, possui um crebro normal, porm, no devidamente explorado. As causas desta condio, podem decorrer de defeitos fsicos e sensoriais, condies domsticas desfavorveis, sade descuidada e especialmente uma atitude errnea por parte dos pais, na orientao destas crianas, manifestada pela superproteo, pela rejeio ou no estimulao que  o abandono. Com uma orientao individual e uma educao cuidadosa elas conseguiro um desenvolvimento satisfatrio.

A criana deficiente mental ou mentalmente limitada, no apresenta um desenvolvimento mental normal, devido s mais diferentes e discutidas causas. Nenhum ensino ou atividade poder fazer com que cheguem  normalidade. Poder-se-, com uma terapia educacional, contatos sociais, mas nunca s com o academismo ou tendo como nico objetivo educacional, a alfabetizao. O objetivo primordial dever ser a adequao do indivduo ao meio social.

Antes da elaborao do plano de trabalho, o educador precisa fazer uma observao das diferentes reas do desenvolvimento, do comportamento, da criana portadora de dupla deficincia, focalizando a conduta fsica, as atividades ldicas. o cuidado pessoal, as reaes sociais e a linguagem. Dessas observaes, obtemos no geral, um quadro bastante complexo, devido s variaes muito acentuadas do desenvolvimento nas diferentes reas, motivadas, muitas vezes, por falhas da educao no lar ou ento, por condies inerentes ao caso.

Sumariamente, o professor especializado, poder determinar que nvel a criana est se comportando, em cada um destes planos. No se trata da aplicao de teste, mas apenas da observao cuidadosa que dever ser feita atravs de seu contato dirio com o caso, das condutas tpicas em diversos nveis e em vrias atividades.
A observao  um excelente complemento, e freqentemente mais digna de confiana que os testes, porque as provas no testam a capacidade de adaptao s novas condies e aos novos problemas da vida da criana.

Certos princpios regem a educao da criana cega retardada mental:
1) Princpio da individualizao: Quando falamos sobre a necessidade do professor ter em mos dados que lhe permitam uma avaliao de seu aluno sob vrios aspectos. quando ressaltamos a necessidade de uma observao cuidadosa do seu desenvolvimento nas diferentes reas do comportamento, ns nos referimos ao conhecimento individual do educando. Mas, no basta apenas conhec-lo individualmente;  necessrio trat-lo e educ-lo de forma individual. Durante estes anos de ensino especializado, que analisamos e experimentamos idias que surgiram devido s dificuldades naturais de trabalho, sentimos que, com cada criana que trabalhamos, a experincia foi diferente.
2) Princpio da concretizao: Os cegos tm a tendncia de usar conceitos imaginativos ou de substituio (verbalismo) e uma das principais tarefas do professor especializado em ensino de cegos, e particularmente, especializado em ensino de cegos retardados mentais,  proporcionar o maior numero de experincias e material objetivos, com a finalidade de evitar a formao de conceitos errados. Faz-se necessrio o emprego do material didtico para substituir ou complementar a observao direta na vida real, quando esta no for possvel, e tambm empreg-lo, sempre que necessrio, para aprofundar ou renovar uma observao..
3) Principio da realidade autntica: A educao dessas crianas  a realidade, mas realidade autntica, direta e imediata. A aprendizagem por meio de livros deve ser restringida tanto quanto seja possvel. A criana deve compreender de modo prtico e real as coisas das quais depende sua vida diria e aprender a tomar um lugar til no seu restrito meio. antes de entrar para o grande mundo. Tudo que aprender deve estar baseado na experincia real.
4) Principio da auto-atividade: Como para qualquer outra criana, a educao da cega retardada mental, tambm deve ser dada atravs da mxima participao pessoal.
O que entra na mente dos alunos, no  o que ensinamos acerca do que outros tenham feito ou descoberto. , isto sim, o que eles conseguiram fazer ou descobrir, mediante seus esforos. Visa este princpio, conseguir o desenvolvimento de sua personalidade, sem restringir sua educao a uma repetio mecnica. Deve-se diminuir a passividade e estimular a atividade.
5) Princpio da repetio: As constantes repeties de aulas ministradas e motivadas com as mais variadas formas. fazem com que o aluno assimile noes prticas, como as de tica social, moral e cultural.
6) Principio da disciplina: A criana portadora de dupla deficincia aprender que na vida em todos os setores e em quaisquer circunstncias, temos que agir dentro de uma rotina disciplinar. Esta disciplina,  transmitida pelo professor, atravs de suas prprias aes, de uma forma no intencional. Todavia, o professor deve, de forma intencional, conduzir suas aulas de modo a despertar a ateno dos alunos, sobre as vantagens prticas da ordem, da organizao e da disciplina.

Planejamento de trabalho: O planejamento no  uma tarefa uniforme, submissa s regras predeterminadas e inflexveis. No  soluo particular, restrita a uma frmula determinada. No pode oferecer, de imediato, solues atravs de regras miraculosas. Em sua elaborao, supe sempre, pesquisa, conhecimento e previso.

 fundamental no planejamento, o conhecimento objetivo do problema sobre o qual se planeja; para a consecuo desse conhecimento,  indispensvel a pesquisa.  importante que o planejamento atente para:
a) Individualizao: Encarando a criana portadora de dupla deficincia com seus problemas, capacidades e limitaes prprias. O objetivo do planejamento deve respeitar o potencial de cada aluno.
b) Considerao do duplo deficiente como um todo: Podemos diversificar os problemas apresentados pelo duplo deficiente, mas no podemos esquecer que ele  um ser indivisvel. Por isso, h necessidade de uma equipe especializada que atenda  essa diversificao de problemas.

Todo planejamento deve visar o preenchimento das lacunas da educao no lar. Crianas com precrio desenvolvimento de cuidados pessoais que no sabem brincar, que no tm qualquer independncia pessoal, necessitam de um currculo educacional especfico a essas necessidades.

A educao escolar, baseada em uma srie de seqncias, traz melhores resultados do que um rgido programa de estudos pr-estabelecidos. Os professores especializados, no tm um programa a vencer, mas sim um desenvolvimento integral a conseguir. No desenrolar destas seqncias, procura-se inculcar cuidados pessoais, segurana, boa postura fsica, capacidade de comunicao, compreenso do mundo em que vive, treinamento sensrio-motor, e ao mesmo tempo desenvolver a capacidade de resolver problemas elementares de clculo aritmtico, que surgem no decorrer da vida diria, e dot-lo das condies de comunicao atravs da linguagem escrita e oral. Estas seqncias sero enquadradas nas diferentes matrias do currculo: estudos sociais, trabalhos manuais, canto, recreao, atividades da vida diria, educao fsica,
dico e fontica, conhecimentos aritmticos, linguagem escrita etc.. Os conhecimentos do educando devem ser ampliados de forma dosada e as seqncias devem ser diariamente desenvolvidas em aula e com horrio planejado. Embora o ensino tenha que atender s necessidades individuais, isto no quer dizer que as atividades no possam ser dadas em grupo. O professor sabe o que pode exigir de cada aluno. A leitura, escrita e o clculo so matrias que podero ser ministradas somente depois de se conseguir um progresso no comportamento.

Os tcnicos, conhecedores das limitaes do educando. devem trabalhar em equipe: O psiclogo, o assistente social de casos, o professor, o tcnico de educao fsica, o recreacionista, o tcnico em atividades da vida diria, o ortofonista so elementos indispensveis para o desenvolvimento destas crianas. A equipe atuar de forma harmoniosa, tendo como objetivo nico de trabalho, a criana portadora de dupla deficincia.

"O trabalho de equipe,  uma unio combinada, cooperativa, democrtica, multiprofissional, dedicada a um fim comum - o melhor tratamento para as necessidades fundamentais do indivduo.  um grupo organizado, distinto em suas partes, agindo como uma unidade".

A equipe especializada no atendimento da criana portadora de dupla deficincia para alcanar xito, deve levar em conta os seguintes fatores:
1) cooperao entre seus membros;
2) cada membro deve conhecer seu limite de ao;
3) aceitao do caso como ele . e no como gostaria que fosse;
4) o planejamento, para cada caso, deve estar de acordo com o potencial do mesmo;
5) respeito mtuo entre os membros, achando que a ao de todos  importante;
6) em reunio, os membros da equipe no devero apenas relatar, mas tambm interpretar a ao;
7) cada membro dever ter o conhecimento especializado sobre seu campo de ao, alm de outros bsicos sobre os demais campos, a fim de expressar-se em termos profissionais compreensveis:
8) no deve haver competio entre os membros, porque o trabalho  elaborado em funo de um cliente e no de um membro da equipe;
9) as responsabilidades devem ser controladas e repartidas eqitativamente;
10) todos os membros da equipe devem estar capacitados para compreender as limitaes da criana portadora de dupla deficincia.

ASPECTOS GERAIS DO ATENDIMENTO DA CRIANA PORTADORA DE DUPLA DEFICINCIA

Em sua primeira fase, o duplo deficiente deve ser atendido em regime de semi-internato, porque somente assim poderemos orient-lo na forma mais eficiente, em todas as atividades do cotidiano. No podemos estabelecer limite cronolgico para o trmino desta primeira fase. Ele somente poder freqentar uma classe de Ajustamento quando tiver atingido um nvel de desenvolvimento geral que permita a socializao. Esta ser a segunda fase de atendimento. As classes devem estar localizadas em pontos favorveis, em diversos bairros da cidade, facilitando assim a locomoo das crianas. Essas classes tm o seu nmero de alunos limitado. 5 no mximo, porque atendem um grupo heterogneo de alunos, que exigem dos profissionais atendimentos individuais. O horrio de estudos depender dos estabelecidos nas entidades escolares junto s quais funcionam.

Pelo exposto, deduzimos a impraticabilidade do atendimento da criana portadora de dupla deficincia, atravs do sistema de educao integrada devido  complexidade do problema conseqente das limitaes impostas pelas suas deficincias. A ao contnua, individual, sistemtica, impede o atendimento dessas crianas pelo Servio de Ensino Itinerante.

A orientao da criana cega deficiente mental, deve ser feita atravs de um Setor Educacional Especializado para Crianas Cegas com Distrbios Psquicos. Isto porque ele necessita ser tratado como um duplo deficiente. com suas limitaes prprias.  um todo indivisvel e como tal, exige dos profissionais conhecimentos especficos sobre seu desenvolvimento e limitaes.

O desenvolvimento psquico do duplo deficiente  moroso. Aps uma terapia educacional, poder aprender um ofcio simples e tornar-se auto-suficiente. Se na escola ns o preparamos para a vida, logicamente ele dever participar da sociedade como elemento til.

O PROFESSOR ESPECIALIZADO

O educador caracteriza-se por sua capacidade de influir sobre um indivduo ou grupos de indivduos, por meio de palavras concretizadas em princpios orientados, em normas ou diretrizes, pela ao, pelo exemplo, identificando sua conduta com seus conhecimentos. levantando-se com o educando no sentido de uma evoluo contnua e construtiva.

Em nosso campo, muitas vezes a conduta do professor sobrepe-se ao conhecimento, pela intuio, aptido e vocao.

No Brasil no existe o curso de especializao em ensino de duplo deficiente (cego deficiente mental). Sou especializada em Ensino de Cegos e em Ensino de Deficientes Mentais, separadamente. Assim, meu trabalho ainda se encontra na fase de adaptaes de acertos, ensaios e erros. Nesse tatear, selecionei atitudes positivos que influenciaram sobremaneira no progresso de cada aluno. Concomitantemente, passei a zelar mais pela minha responsabilidade profissional, anotando fatos, ampliando conhecimentos tericos, adaptando sistemas e retificando conceitos. De maneira geral, considero que os fatores que proporcionam um trabalho eficiente junto ao educando duplo deficiente, esto intrinsecamente ligados s atitudes do professor que podem ser resumidas no seguinte:
1) Aceitar a criana como ela  e no como gostaria que fosse;
2) acreditar na possibilidade de progresso do educando, no limitando sua possibilidade de progredir;
3) elogiar sem exagerar;
4) aprovar todas as vezes que notar algo certo ou de seu agrado, com palavras ou gestos amigveis; onde demonstre a aceitao do aluno e o reconhecimento pelo esforo desenvolvido:
5) dirigir e conservar a ateno do aluno no trabalho. As tarefas no devero ser longas e exaustivas, mas curtas e interessantes;
6) estimular a socializao da criana com os demais;
7) ser firme e convincente. Estar capacitado para um trabalho rduo, interessante e nem sempre fcil;
8) na disciplina, agir com justia. Nos casos de punio, corrigir imediatamente de forma apropriada. No exagerar uma falta: uma reprimenda bem feita, seguida de medida disciplinar correta e constante, ajudar a mudar o comportamento da criana, mais do que sermes longos e estridentes;
9) respeitar o aluno. Lembrar que antes de ser indivduo deficiente, ele  "PESSOA HUMANA", digna de sua tica profissional.

Alm da formao tcnica, o professor dever ter as seguintes condies:
a) ser honesto com seu trabalho e consigo mesmo;
b) seu relacionamento deve ser fcil e simptico, mas dentro de uma cortesia profissional;
c) ser observador agudo e ter capacidade de avaliao;
d) ter intuio e carter capaz de responder a todas as suas reaes emocionais, de modo construtivo, realista e otimista;
e) ser paciente e no ansioso com a morosidade natural da criana;
f) ser capaz de iniciativas, quando necessrio;
g) ter boa aparncia pessoal e sanidade fsica e mental;
h) no apresentar deficincias fsicas e sensoriais.

Para a educao de um cego deficiente mental, so necessrios profundos e atualizados conhecimentos sobre o assunto, pesquisas regulares e sem dvida alguma, conveniente preparao, porque s boa vontade no resolve.



CONCLUSES:

1) - A educao da criana duplamente deficiente  de importncia vital para o indivduo e para o meio. A comunidade precisa assegurar condies de atendimento atravs da criao de um setor especializado, preparao de tcnicos, auxlio pecunirio para este tipo de trabalho e principalmente reconhecimento do dever social e humano, mais que cvico, de assistncia aos deficientes.
2) - Decorrente da obrigatoriedade de atendimento da criana duplamente deficiente, necessrio se faz a localizao dos casos para a determinao das suas necessidades e da criao de recursos adequados para seu atendimento.
3) - Apesar de abolida em outros pases, a expresso "excepcional", no sentido de conceituar os indivduos infra e super dotados, no Brasil, este termo vem sendo usado, provocando debates e controvrsias.
4) - O indivduo duplamente deficiente (cego deficiente mental) ainda no possui entre ns uma definio especfica. Por esse motivo, limitamo-nos a citaes gerais, procurando localiz-lo dentro do quadro das deficincias.
5) - Um plano de assistncia aos deficientes em geral. envolve problemas muito srios que vo desde o interesse crescente pelo problema at o indispensvel apoio econmico, sem o qual os planos no passam da teoria. Trs aspectos devem ser abordados com carinho:
a) continuo trabalho de assistncia;
b) pesquisas e aplicao de seus resultados;
c) seleo e treinamento de profissionais.
6) - Grande nfase  dispensada atualmente  orientao dos pais e familiares dos deficientes. Pais devem ser convenientemente preparados para o papel que devero desempenhar na orientao dos filhos. Lar e escola unem-se com um nico objetivo: a criana deficiente.
7) - A educao do indivduo duplamente deficiente  dispendiosa. Exige equipe tcnica numerosa, local de trabalho adequadamente aparelhado, material didtico atraente, variado e numeroso.
8) - A remunerao dos tcnicos especializados para a assistncia de crianas cegas deficientes mentais, deve ser compensatria. O exerccio da profisso exige conhecimentos atualizados e de alto padro sobre o assunto, pesquisas regulares, boa apresentao pessoal e dilatado horrio de trabalho.
9) - Dada s caractersticas complexas do indivduo duplo deficiente e a importncia da especializao para seu atendimento,  conveniente ressaltarmos a necessidade de sanidade fsica e mental por parte dos tcnicos, sem entrarmos em detalhes nos perigos que acarretam ao aluno, a atuao de um limitado sensorial e de um leigo para a sua orientao.
10) - No exerccio de meu trabalho, coletei informaes sobre o atendimento dos indivduos portadores de dupla deficincia em nosso pas. Alguns trabalhos foram desenvolvidos esporadicamente, por leigos interessados no assunto e desejosos de prestar alguma assistncia a esses indivduos. A bibliografia especializada nacional,  quase inexistente. Algumas experincias realizadas no exterior, chegam at ns, de modo assistemtico, atravs de ligeiros artigos publicados em revistas especializadas.
11) - Educar, no  somente alfabetizar;  desenvolver aptides, capacidades fsicas e intelectuais com o fim de preparar o indivduo para a vida, tornando-o um elemento til a si,  famlia e  sociedade.


A relatora no decorrer da exposio da tese, omitiu a leitura das leis para no ultrapassar o tempo regulamentar. Mesmo assim, O tempo foi esgotado e por manifestao geral do plenrio, o presidente da mesa concordou que se conclusse o trabalho, o que se prolongou por mais 20 minutos. Terminada a apresentao do tema, o presidente solicitou aos congressistas que fizessem as perguntas referentes ao assunto, e que as mesmas seriam recolhidas pelas secretrias da mesa. Para isso foi dado um intervalo de 5 minutos. Reiniciada a sesso, o Sr. Presidente usou da palavra para convidar o segundo relator, Dr. Jos Geraldo de Camargo Lima - SP - Capital, que falou sobre:
- "Aspectos neurolgicos da educao especializada". A explanao foi ilustrada com "slides" e um cartaz. (*)

Terminada a palestra, o Sr. presidente concedeu os 5 minutos destinados  formulao de perguntas sobre a tese. Nesse espao de tempo, foram feitos pela Secretria do Congresso, os seguintes comunicados: "Seria distribuda pela Comisso Social do Congresso, uma lembrana a todos os seus participantes. Em seguida foram submetidos  aprovao do plenrio, os seguintes telegramas: ao Sr. Mal Castelo Branco: "O 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, ora reunido nesta Capital, com participao numerosas entidades governamentais e particulares do pas e exterior, expressa a V. Exa. suas respeitosas saudaes com reconhecimento alto esprito pblico com que V. Exa. superiormente dirige promissores destinos Nao, ao mesmo tempo quer formular apelo e confia na necessria legislao possibilite aos excepcionais, inclusive os cegos, meios e condies de serem convenientemente atendidas suas mais justas legtimas reivindicaes. Cordiais e atenciosos cumprimentos". Ao Exmo. Sr. Senador Auro de Moura Andrade: "O 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais ora reunido nesta Capital, com participao numerosas entidades governamentais e particulares, do pas e exterior, vem meu intermdio apresentar aos dignos representantes do povo, nessa casa Congresso Nacional, suas efusivas saudaes e apelos sentido uma legislao assegure aos excepcionais, inclusive os cegos, sua integrao comunidade mesmo tempo que confia lhes sejam estabelecidas percentagem fixas distribuio verbas e fundos, inclusive plano trienal educao, para melhor e conveniente atendimento suas mais justas legtimas reivindicaes.
 Atenciosos e cordiais cumprimentos". Ao Exmo. Sr. Deputado Ranieri Mazzili: "O 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais ora reunido nesta Capital, com participao numerosas entidades governamentais e particulares, do pas e exterior, vem meu intermdio apresentar aos dignos representantes povo, nessa casa Congresso Nacional, suas efusivas saudaes e apelar sentido uma legislao assegure aos excepcionais, inclusive os cegos, sua integrao comunidade mesmo tempo que confia lhes sejam estabelecidas percentagens fixas, distribuio verbas e fundos, inclusive plano trienal educao, para melhor e conveniente atendimento suas mais justas legtimas reivindicaes. Atenciosos e cordiais cumprimentos". Ao Exmo. Sr. Dr. Adhemar de Barros: "O 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais ora reunido nesta Capital, com participao numerosas entidades governamentais e particulares, do pas e exterior, com o apresentar a V. Exa. suas efusivas saudaes transmite apelo e confia concretizao medidas governamentais assegurem aos excepcionais, inclusive os cegos, meios e condies de verem atendidas suas
mais justas legtimas reivindicaes. Atenciosamente cordiais cumprimentos". Ao Exmo. Sr. Deputado Cyro Albuquerque: "O 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais ora reunido nesta Capital, com a participao numerosas entidades governamentais e particulares, do pas e exterior, vem apresentar aos dignos representantes povo paulista nessa digna Assemblia suas efusivas saudaes e apelar sentido uma legislao assegure aos Excepcionais, inclusive os cegos, sua necessria integrao comunidade, mesmo tempo que confia no estabelecimento percentagens fixas, melhor atendimento suas mais justas legtimas reivindicaes. Atenciosos e cordiais cumprimentos". A aprovao foi dada por palmas. Foram ainda submetidas  aprovao, as seguintes indicaes:
"Atendendo que  de suma convenincia e importncia que os Poderes, Executivos e Legislativos, dos Estados da Federao tenham conhecimento das principais atividades do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, os Congressistas que a esta subscrevem sugerem que a Comisso Executiva do Conclave, em oportuno tempo, remeta aos governos dos Estados, bem como s suas respectivas assemblias legislativas, no s os anais do congresso, seno, tambm, o apelo no sentido da concretizao de medidas governamentais e legislativas que assegurem aos excepcionais, inclusive os cegos, a sua definitiva integrao na comunidade. Sala das Sesses, 13 de novembro de 1964. ass. Rogrio Vieira, Teresinha Rossi, Jairo Moraes, Murillo Campello, Dalka Vieira de Moraes, Silvino Coelho, Edy Pinheiro Alves, Aracy Mafra, Susana Costa, Ana Maria Bernard da Costa, Yacy de Oliveira Nery, Lygia Costa de Menezes, Marialva Feij Frazo".

"Considerando o notrio xito alcanado pelo 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, sob os auspcios da benemrita Campanha Nacional de Educao dos Cegos; considerando os altos objetivos desse j memorvel Conclave e os magnficos resultados colhidos atravs das brilhantes palestras, teses e sugestes que foram oferecidas  considerao do plenrio; considerando, ainda, que urge organizar os anais do Congresso bem como dar destinao, conveniente e adequada, s concluses preconizadas nos referidos trabalhos; considerando, finalmente, que esses mencionados resultados constituem, sem dvida, o fruto dos esforos e do inegvel tirocnio da ilustre comisso executiva que organizou, incentivou e bem orientou o Conclave, da repercusso em todo o territrio nacional e, at no exterior, como isso testifica a participao de diversas representaes estrangeiras no presente Congresso, submetemos  alta considerao do plenrio as seguintes indicaes:
1) que seja mantida, em carter permanente, a Comisso Executiva que organizou e dirigiu o 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, concedendo-lhe os mais amplos poderes para promover a realizao do II Congresso, com a mesma denominao, dentro de trs anos no mximo, convocando a sua reunio para local, ms e dias que forem julgados oportunos e convenientes;
2) - que sejam conclusas  dita Comisso Executiva, todas as palestras, teses e sugestes que constituram os temrios do programa do Congresso, a fim de que ela, pela maneira que julgar conveniente e adequada, encaminhe  considerao dos poderes pblicos competentes, as concluses que julgar mais conveniente ao desenvolvimento e ao aprimoramento da educao dos cegos no territrio nacional;
3) - que se solicite  Campanha Nacional de Educao dos Cegos que homologou essas referidas indicaes e conceda na sua oportunidade, os recursos e meios necessrios  realizao do pretendido II Congresso Brasileiro de Educao de Deficiente Visuais. Sala das sesses, 13 de novembro de 1964. ass. Murillo Campello, Dalka Vieira de Moraes, Silvino Coelho, Flora Barroso de Albuquerque, Aracy Mafra, Susana Costa, Ana Maria Bernard da Costa, Yacy de Oliveira Nery, Lygia Costa de Menezes, Marialva Feij Frazo".

Tambm foram aprovadas por palmas. Foi comunicada tambm a presena, j em So Paulo, do Sr. Ministro da Educao e Cultura, para participar, juntamente com o Sr. Governador do Estado e o Sr. Secretrio da Educao do Estado de So Paulo, da Sesso de Encerramento do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais. 
Reaberta a sesso pelo presidente, usou da palavra o Sr. Edward Waterhouse, que interpretado por D. Luiza Banducci Isnard, comunicou aos congressistas que, de 21 a 28 de agosto de 1967, ser realizado na Perkins School for the Bhind - Massachussets, um Congresso para professores especializados em ensino de cegos, que ter por tema: "Mtodos de ensino para pessoas cegas". E ainda: que as pessoas interessadas em receber os relatrios e panfletos relativos ao citado Congresso, devero deixar seus nomes e endereos na Secretaria do 1 Congresso de Educao de Deficientes Visuais, ou ento, que se dirijam diretamente a ele, por carta pelo seguinte endereo: Mr. Edward Waterhouse - Perkins School for the Blind - Watertown 72 - Massachussets - U.S.A. Em seguida usou da palavra a profa. Nice Tonhosi Saraiva - professora especializada - Secretaria da Educao de So Paulo - Capital, que abordou o seguinte tema: "Consideraes sobre a Educao dos Deficientes audiovisuais"


CONSIDERAES SOBRE EDUCAO DE DEFICIENTES AUDIOVISUAIS
Nice Tonhosi Saraiva - Professora especializada da Secretaria da Educao de So Paulo (Capital).

 problema dos mais complexos o da educao dos excepcionais deficientes que, felizmente vem despertando, nos ltimos anos, em nosso pas, a ateno, no s de educadores e mdicos, como tambm da sociedade e autoridades governamentais.

A Campanha Nacional de Educao dos Cegos - CNEC - que se destina a proporcionar melhores condies para a educao e reabilitao dos deficientes visuais, promovendo este Congresso, confirma o interesse que o governo vem tendo pelo bem estar desses deficientes.

Cabe-me salientar a contribuio valiosa dada pela diretora executiva da Campanha Nacional de Educao dos Cegos, incluindo, pela primeira vez no Brasil. o deficiente audiovisual nos temas abordados neste Congresso.

Incentiva-me assim a continuar a luta por este campo especializado, certa de que, num futuro muito prximo, os deficientes audiovisuais tero seu lugar na educao, integrando-se na sociedade.

Baseada nos quatro anos de experincias e estudos, abordarei alguns aspectos sobre a educao do deficiente audiovisual. Espero com isto, despertar o interesse do governo e dos professores, esclarecendo o magistrio e a comunidade em geral.  preciso que tenham conscincia de que h criaturas colocadas injustamente  margem da sociedade, impossibilitadas que esto de serem elementos teis, devido  falta de atendimento educativo, pela grande limitao que lhes causa sua dupla deficincia.

HISTRICO

Ao tratarmos da dupla deficincia: cegueira e surdez. vem-nos imediatamente a lembrana de Helen Keller, a famosa cega-surda norte-americana, conhecida no mundo todo. no s pelo sucesso de sua educao, como tambm pelo trabalho que vem realizando em prol dos deficientes da viso e da audio.

Mas Helen Keller no foi a nica cega-surda a ser educada at hoje. Muitos outros cegos-surdos, estimulados pelo seu esforo, conseguiram, se no igualar-se a ela em cultura, pelo menos atingir um certo grau de educao e independncia. quebrando assim, a enorme barreira de isolamento que lhes causa a falta de comunicao.

Podemos citar como exemplo, Robert Smithdas e Richard Kinney que atingiram grau universitrio.

Desde 1648 os professores de surdos j se preocupavam com o problema da educao do deficiente audiovisual principalmente pela dificuldade de comunicao, salientando a importncia do sentido do tato para o ensino da linguagem.

Em 1779, o francs Deschamps, interessado na educao do deficiente audiovisual, publicou um livro, do qual extramos um pensamento que, at hoje serve de lema aos professores desses deficientes: "PACINCIA E REPETIO SO AS PALAVRAS-CHAVES PARA O SUCESSO NA EDUCAO DO SURDO-CEGO".

Em 1795, Lorenzo Hervas y Panduro, educador de surdos. comeou a se preocupar com a possibilidade de pessoas surdas ficarem cegas. Estudou ento, um modo de ensinar a linguagem ao surdo-cego. Cita ele em um livro, que o Abade L'Eppe, educador de surdos na Frana, mostrou interesse em educar uma criana cega-surda. Se no o fez, foi porque no encontrou nenhuma. Abade L'Eppe, por sua vez, baseou-se em Diderot. numa carta publicada em 1749.

Em 1837, Dr. Samuel Gridley Howe, precursor da educao do cego nos Estados Unidos, tornou-se tambm precursor da educao do cego-surdo, educando Laura Bridgman. Abriu-se assim, o caminho para outros deficientes sarem do isolamento em que viviam, e orientadores estudarem as tcnicas necessrias para educ-los.

Cientes da educao de Laura Bridgman, os pais de Helen Keller tomaram conhecimento da possibilidade de educar sua filha. Entraram em contacto com a Perkins School for the Blind (Escola Perkins para Cegos) onde estudou Laura Bridgman. O ento diretor desta escola, Michael Anagnos selecionou Annie Sullivan, sua ex-aluna, para professora particular de Helen Keller.

Aos 10 anos de idade, Helen Keller, ciente de que Ragnild Kaata, cega-surda norueguesa aprendera a falar, comeou a estudar com uma professora de surdos, aprendendo o meio mais comum de entendimento entre os homens - a linguagem oral.

Com a iniciativa do Dr. Howe, a Escola Perkins comeou a aceitar mais alunos, estimulando outras escolas a se interessarem pelo deficiente audiovisual entre elas, o Instituto para Cegos de Nova York.

Em 1926, Sophia Alcorn, professora de surdos, educou duas crianas: TAD e OMA, tentando uma nova tcnica para o ensino da linguagem oral aos deficientes audiovisuais. Surgiu da, o mtodo TADOMA, empregado com sucesso at os nossos dias..

Aquele pas tornou-se o lder da educao do deficiente audiovisual e a Escola Perkins, o centro de orientao a todos os educadores de cegos-surdos no mundo, pois possui uma equipe especializada das melhores, mantendo um curso de especializao para professores, aceitando candidatos de todos os pases.

Seu atual diretor, Dr. Edward Waterhouse, grande entusiasta e zeloso de seu departamento especializado, oferece orientao ps-escolar aos alunos, tanto deficientes audiovisuais, como professores, atualizando-os com publicaes de pesquisas, congressos e estudos em geral.

Assim, sentimo-nos assistidos moral e tecnicamente mesmo quando isolados em nossos pases, uma vez que, no mundo todo, formamos um pequeno grupo de orientadores de deficientes audiovisuais.

Nos Estados Unidos h sete escolas, entre escolas de cegos e de surdos, que atendem a estes deficientes.

Na Escola Perkins, hoje, aproximadamente quarenta alunos so atendidos por dezessete professores e outros tcnicos.

Alm dos Estados Unidos, conforme dados colhidos em 1962, podemos citar os seguintes pases dentro da educao do deficiente audiovisual:
1. - Inglaterra - atende a 15 alunos e mantm um curso de especializao para professores, funcionando em escolas de cegos, que atende a crianas com deficincias adicionais. Crianas surdas-amblopes so atendidas em uma escola de surdos.
2. -        Itlia - atende a crianas, embora no se saiba o nmero delas.
3. -        Rssia - as informaes de um artigo de jornal indicam Olga Skorokjodova, educada pelo alfabeto manual, que exerce a profisso de psicloga em seu pas. Um relatrio do Congresso, cita uma aluna que est sendo educada em Moscou (Ma).
4. -        Dinamarca - Quatro ou cinco crianas registradas em escolas de surdos, mas ainda no iniciaram sua educao, 4 ou 5 sero atendidas em escola de cegos. Adultos so atendidos em Associaes.
5. - Noruega - trs crianas freqentando escola de surdos e adultos so atendidos em Associaes.
6. -        Sucia - uma escola de cegos recebe crianas com deficincias adicionais. Ali, vive uma criana cega-surda. Adultos, como na Noruega, so atendidos em associaes.
7. -        Finlndia - Em 1962 no havia alunos, mas as matrculas estavam abertas e duas crianas eram aguardadas.
8. -        Sua - Em fase de pesquisas.

Em 1964, em Crdoba, Argentina, foi instalada uma classe especial em escola de cegos e est funcionando com 2 alunos.

Em 1962 em Hanover, Alemanha, houve um congresso de educao de cegos, onde foram abordados problemas sobre os deficientes audiovisuais, dando oportunidade aos educadores desses deficientes de adquirirem novos conhecimentos a respeito do campo a que se dedicam.

Os pases participantes foram: Inglaterra, Estados Unidos, Rssia, Itlia. Dinamarca. Noruega, Sucia, Finlndia. Islndia, Sua e Turquia. (Refiro-me aqui, os representantes no campo de educao de deficientes audiovisuais).

O Brasil foi convidado atravs de minha pessoa, que, infelizmente, por dificuldades econmicas, no pude participar daquele importante conclave. Recebi, no entanto, do Dr. Waterhouse, o relatrio das concluses dos temas tratados sobre cegos-surdos.

HISTRICO NO BRASIL

Obtive meu certificado de especializao no campo, atravs de bolsa de estudos da Escola Perkins, com autorizao do governo do Estado de So Paulo para afastar-me de meu cargo sem prejuzo de vencimentos e demais vantagens e ajuda de 50 dlares do Itamarati.

Assim, com minha volta em junho de 1961, iniciou-se oficialmente a educao do cego-surdo no Brasil.

Em 28 de junho de 1962, o Instituto de Cegos "Padre Chico", firmou convnio com a Campanha Nacional de Educao dos Cegos CNEC - passando a receber uma verba destinada ao Setor de Educao de Deficientes Audiovisuais

SEDAV - na Fundao para o Livro do Cego no Brasil (FLCB)  uma classe especial naquele Instituto. Atravs de um segundo convnio entre as duas entidades, comprometeu-se o Instituto "Padre Chico" a pagar a professora responsvel pelo Setor e seguir a orientao do mesmo.

O "SEDAV" tinha como finalidade, pesquisas, atendimento e encaminhamento de crianas e adultos, alm do treinamento de professores e orientao geral no campo.

A classe especial para crianas cegas-surdas do Instituto Padre Chico, funcionou durante algum tempo com duas alunas. As crianas tiveram toda assistncia mdica e material atravs da verba da Campanha, de recursos do Padre Chico, da Fundao e comunitrios.

Em maro de 1963, uma das alunas, aps exames mdicos minuciosos e observaes na classe, foi considerada tambm dbil mental e encaminhada pelo Servio Social do Estado a um instituto especializado em deficientes mentais.

A outra aluna apresentava todas as caractersticas de criana educvel, demonstrando-o pelo progresso que teve durante o tempo em que permaneceu na escola.

Esta classe contava com uma professora especializada. comissionada pelo governo estadual, uma atendente e uma vigia, contratadas pela Campanha.

Em janeiro de 1962, a atendente foi nomeada pelo Estado para prestar servios no Instituto Padre Chico.

No "SEDAV", foram atendidos dois adultos, sendo um na sede e outro em ensino domiciliar. O primeiro,  totalmente cego-surdo, freqentou o curso de alfabetizao e comunicao, desde o incio do Setor e o segundo, surdo-amblope, passou a ser atendido em sua residncia  partir de fevereiro de 1964. Ambos tiveram bom aproveitamento. So hoje considerados alfabetizados e possuem meios de comunicao.

Em abril de 1963, o Setor realizou uma pesquisa para localizao desses deficientes em escolas de surdos e no Instituto de Cegos Padre Chico, atravs do Setor de Pesquisas da Fundao.

Foram localizados quatro casos elegveis para classes especiais de cego-surdo. Estes casos, apesar de ainda no estarem enquadrados na definio de deficientes audiovisuais, j poderiam estar sendo orientados nesse campo, uma vez que suas deficincias constituem obstculos para a vida diria. Trs destas crianas continuam freqentando classes de surdos do governo e uma, na poca, aluna de uma escola para surdos, est atualmente com professor particular.

De 1 de maro a 27 de novembro de 1963, duas professoras foram treinadas no ensino de deficientes audiovisuais, concomitantemente ao curso de especializao em ensino de surdos, j possuindo anteriormente o certificado de especializao em ensino de cegos.

Essas professoras pertenciam ao quadro de professores especializados da Fundao. A servio dessa entidade, graas a compreenso de sua presidente, ambas freqentaram o referido curso.

Em 14 de dezembro de 1963, foi extinta a Primeira Classe Especial para Crianas Cegas-Surdas do Instituto de Cegos Padre Chico. A aluna da classe foi transferida para uma escola de surdos no interior do Estado de So Paulo.

Em 27 de novembro de 1963, deixei o Setor de Educao de Deficientes Audiovisuais, assumindo a responsabilidade do mesmo,  duas professoras preparadas.

Em portaria n 75 de 21 de maio do corrente ano, foi criado o Setor de Educao e Assistncia aos Deficientes Audiovisuais SEDAV - subordinado ao Servio de Educao de Surdos do Departamento de Educao do Estado de So Paulo.

Com a instalao deste Setor no Estado, a Fundao extinguiu o seu, concordando em ceder suas duas professoras, j pertencentes ao quadro do magistrio pblico.

Estas, tiveram livre escolha entre a transferncia ou permanncia no campo da educao de cegos. Uma optou por este campo e a outra foi colocada  disposio do Departamento de Educao do Estado de So Paulo, a partir de 1 de setembro do corrente ano, para prestar servios junto ao "SEDAV", sem prejuzo de vencimentos e demais vantagens do cargo.

Ao ser criado o "SEDAV", o Departamento de Educao do Estado de So Paulo colocou-me  disposio do Servio de Educao de Surdos, para orientar o referido Setor.

Deste modo, amplia-se o nmero de tcnicos neste campo, possibilitando maior desenvolvimento do Setor e melhor atendimento dos casos.

SETOR DE EDUCAO E ASSISTNCIA AOS DEFICIENTES AUDIOVISUAIS - SEDAV

Este Setor, com a mesma finalidade do primeiro, j abriu matrculas para crianas audiovisuais.

A ex-aluna do Instituto de Cegos Padre Chico, aguarda soluo para transferir-se para alguma Instituio da Capital a fim de que possa ser orientada.

Cabe notar que, como a criana j no vive com a famlia, de nada afetaria a transferncia para outra instituio.

Os dois adultos, continuam a ser atendidos normalmente em suas residncias.

Faz parte do planejamento do Setor, uma divulgao sistemtica a rgos especializados, atravs de palestras, participao da imprensa etc., a fim de no s esclarecer, como oferecer  comunidade, os servios do Setor. Para tanto, contamos com os recursos tcnicos do Servio de Educao de Surdos, o apoio inestimvel de seu supervisor, professores e funcionrios e do Servio de Relaes Pblicas do Departamento de Educao do Estado.

CEGO-SURDO

Definio adotada pela "Conference of Executive of American Schools for the Deaf" (Conferncia de Diretores de Escolas Americanas para Surdos) e "American Association of Instructors of the Blind" (Associao Americana de instrutores de Cegos), nos Estados Unidos:

" deficiente audiovisual o indivduo cujas deficincias visuais e auditiva so obstculos para as atividades comuns para a vida diria".

Importa notar que nesta definio esto implcitas as definies de cegueira e de surdez:
- Cego -  o indivduo com grau de viso de O a 0,1, no melhor olho aps tratamento ou correo.
- Amblope - o indivduo com grau de viso de 0,1 a 0,3, no melhor olho, aps correo ou tratamento.
- Surdo -  o individuo incapacitado de seguir uma conversao normal pela audio. Os indivduos enquadrados nesta definio podem apresentar os graus de surdez, desde surdez social at surdez total.

Definio para fins educacionais: Adotada pelo "National Study Commitee on Education of Deaf Blind Children" (Comit Nacional de Estudos sobre Crianas Cegas-Surdas):

" considerada cega-surda a criana cujas deficincias visual e auditiva so obstculos para freqentar classes especiais para cegos ou para surdos".

Podemos classificar estes deficientes em quatro grupos. de acordo com a gravidade de suas deficincias sensoriais:
- Grupo 1 - totalmente cego-surdo.
- Grupo 2 - totalmente surdo-parcialmente cego (amblope).
- Grupo 3 - totalmente cego-parcialmente surdo.
- Grupo 4 - parcialmente cego-surdo. (amblope).


QUEM  O DEFICIENTE AUDIOVISUAL?

As limitaes fsicas do deficiente audiovisual causam-lhe completo alheamento do meio em que vive, isolando-o, transformando-o em peso morto para a vida e a sociedade.
Se, porm, lhe for dado um meio de comunicao, ele vai adquirindo, atravs das experincias da vida diria, uma idia do mundo em que vive e ao qual tambm pertence.

Para melhor ilustrar os sentimentos do cego-surdo, transcrevo abaixo, alguns trechos de um artigo do "Outlook for the Blind and the Teachers Forum" vol. 38, n 1, revista editada pela American Foundation for the Blind, USA, 1942:

"Fui cego-surdo durante um breve perodo de minha infncia e concluo que ser surdo como uma pedra  pior que ser totalmente cego. A surdez causa irritao, afasta o surdo do convvio social. Dizem que os "cegos so os mais pobres da comunidade e os surdos, os mais miserveis. Mesmo resumindo as duas deficincias a maior ainda  a surdez, porque causa o isolamento do mundo exterior. A humanidade em geral achava que eu era retardado mental, porque no podia ver nem ouvir. Mas ensinei a muitos a esquecer a minha cegueira e ainda surdez.  muito fcil dizer que um cego-surdo  retardado mental e assim, eximir-se de sua responsabilidade. Eu preciso do contato fsico para saber que no estou s. Estou s, at que me toquem. Voc seria amigo de um cego-surdo? Pense em ns como irmos e pessoas como vocs, no por compaixo, mas por amizade. Ns precisamos de ajuda e compreenso.. Muitos de ns somos pobres em experincias do mundo; muitos de ns achamos grande prazer  em pequenos prazeres da vida: uma festa, um passeio e mais que tudo. andar com algum que fale conosco".

O autor desse artigo, baseado em sua experincia, considera a surdez como a deficincia que mais limita o indivduo. em virtude do isolamento que lhe causa.

Considera ainda que a dupla deficincia cegueira e surdez,  considerada por quase todos, acrescida com uma terceira deficincia: a debilidade mental. Isto porque no existem ainda meios de avaliao da inteligncia do cego-surdo, uma vez que os testes existentes exigem ambos ou pelo menos um dos sentidos. Cabe-nos informar no entanto, que a Escola Perkins j est adaptando alguns testes. A falta de recursos para educar-se,  a maior barreira para o cego-surdo poder sair do isolamento que vive e mostrar  comunidade do que  capaz sua inteligncia.

Sente-se o autor incompreendido pelos que o cercam evidenciando a necessidade que temos do calor humano. Uma pequena mostra de amizade  para o cego-surdo uma contribuio valiosa.

A FAMLIA

A me,  no lar, a pessoa mais importante na vida dos filhos. Seu papel torna-se mais relevante ainda, quando se trata de um filho deficiente.

Afeto, aceitao e aprovao, devem sempre fazer parte da vida da criana, para torn-la feliz. A me exerce um papel importante para auxiliar o filho a desenvolver a autoconfiana e a independncia fsica. Deve ajud-lo a adquirir estas qualidades, encorajando-o a fazer as coisas que as crianas comuns aprendem a fazer atravs da imitao. Deve deixar o filho "expressar-se", expandir seus sentimentos, experimentar  sua maneira. Precisa, entretanto, proporcionar-lhe as experincias da vida diria, atravs do contato fsico. para que ele sinta o que no pode ver e adquira, pela repetio, os conhecimentos e a autoconfiana.

A criana deve ser includa, sempre que possvel, nas atividades da famlia, para que no se torne um "objeto"  parte, que s se veste, se alimenta e dorme. Isto, porm, no significa que ela passe a tomar conta da casa e de todos. Ser um membro do lar e no o centro das atenes familiares e nem relegada ao abandono.

A ESCOLA

A atitude do mestre  to importante quanto qualquer mtodo a ser empregado na educao da criana cega-surda. Alm dos conhecimentos tcnicos, so qualidades importantes, o carinho, a afeio, a pacincia, a persistncia e a firmeza.

A famlia depender do professor, tanto para aprender a lidar com seu filho, como para compreender seus meios de comunicao. Sua colaborao ao professor  inestimvel para o sucesso da educao da criana.

As menores atividades da vida diria, so objeto de aprendizagem sistemtica. Esta aprendizagem deveria ser iniciada no lar, o mais cedo possvel, o que na maioria das vezes no se verifica. Em geral, fazem parte do programa escolar, atividades como: escovar os dentes, mastigar, usar os talheres. abrir a fechar torneiras, vestir-se etc.
 
O professor deve, portanto, aceitar a lentido e a limitao que a criana apresenta Assim, no se sentir frustrado ao ver que passa muitas vezes, dois a trs anos ensinando aquelas atividades, conseguindo um mnimo de resultado. Isto prova que dentro daquela cabecinha h um crebro que pensa, uma inteligncia a desabrochar.

Podemos dizer que a educao propriamente dita se inicia quando a criana compreende o que o professor deseja dela, e, tenta faz-lo sozinha, mesmo sem perfeio.

O relacionamento entre o professor e aluno,  de suma importncia. Por meio deste relacionamento o professor poder fazer a criana sentir que ele  algum que quer ajud-la, que a estima e procura entender seus meios mais rudes de expresso. Mesmo que se resumam eles a choro, gritos, gestos agressivos, apatia, teimosia etc.

As frustraes e o entusiasmo so dois sentimentos que acompanham professores e pais destes deficientes. No se devem deixar desanimar pelos fracassos e nem entusiasmar demais pelos sucessos. O equilbrio emocional  de grande importncia para o professor, pois, embora no o perceba, transmitir ao aluno, seu estado de esprito, apesar de ser a criana deficiente audiovisual.

O ensino neste campo  essencialmente individual. Uma classe comporta dois alunos totalmente cegos-surdos ou at trs surdos-amblopes.

Embora assistindo a nmero reduzido de alunos, a escola necessita de um atendente para cada grupo, com o fim de cuidar das crianas no perodo oposto ao do professor.
No caso de escola residencial, uma vigia dever dormir no quarto para atend-las, se houver necessidade. A criana cega-surda dever permanecer sozinha o menos possvel.

Condies para a criana ser aceita na classe especial -A avaliao da capacidade da criana deficiente audiovisual ser feita pela equipe especializada: psiquiatra, psicologista, professor especializado, assistente social etc.

Sero ento, agrupadas em duas categorias: educveis e adestrveis.

Condies para a matricula:
1. Mnimo de 4 anos de idade, mximo de 15 (flexvel).
2. Apresentar relatrio mdico, o mais especfico possvel.
3. No apresentar deficincia adicional (mental, a mais comum).
4. Inelegvel para classe de cegos ou de surdos, pela acentuao de ambas as deficincias.

Perodo de observao na classe: mais ou menos de 6 meses.

No fim deste perodo de observao, a equipe faz uma anlise de capacidade do aluno, levando em considerao, a gravidade de seus problemas, como: idade que ficou cego e surdo, idade que entrou na escola, deficincias fsicas adicionais, vivncias etc.

MTODOS

O TADOMA, desde 1930, vem sendo aplicado com sucesso no ensino da fala a crianas deficientes audiovisuais. Consiste no aprendizado da fala pelo uso do tato, atravs do qual, so percebidas as vibraes sonoras.

Aos poucos, a criana vai treinando o ato, vai percebendo o mecanismo da fala, at compreender que pode repetir aqueles movimentos da face do professor.

Adultos - O ensino da comunicao varia de acordo com a idade em que ficou cego e surdo, idade atual, grau de cegueira e surdez e vivncias.

 importante saber qual das duas deficincias  mais antiga ou se so concomitantes.

O orientador deve partir sempre da comunicao que o deficiente audiovisual possui. Se ele j sabe falar, continuar a treinar a fala, para que ela no se degenere.
Treinar ento, o alfabeto manual internacional para cegos-surdos, que consiste em traar com o dedo, na palma da mo do cego-surdo, as letras maisculas do alfabeto comum. Este ser o meio de ele receber comunicao de qualquer pessoa..

Podemos citar outros alfabetos: manual americano, manual britnico, Lorm, Luva Alfabtica etc.

Alm dos alfabetos, h a mmica e os gestos naturais.

Dentre estes, o alfabeto manual americano para surdos, adaptado ao cego-surdo,  o mais eficiente e mais utilizado para adultos.

A COMUNIDADE

Tendo como exemplo o comentrio sobre o artigo do cego-surdo americano, citado neste trabalho, sentimos a importncia da atitude e compreenso da comunidade para com o duplo deficiente.

Felizmente estes deficientes formam um pequeno grupo na populao, mas ele deve consistir motivo de ateno da comunidade. Precisa tanto dos servios de educao e reabilitao de cegos ou de surdo.s quanto de deficientes audiovisuais.

Assim, aps os exames mdicos necessrios e depois de enquadrados na definio de deficientes audiovisuais, eles devero, o mais cedo possvel, ser encaminhados ao setor especializado a fim de receber a devida orientao.

Infelizmente as escolas especializadas para cegos ou para surdos, principalmente as escolas residenciais de So Paulo, tm oferecido uma certa resistncia  instalao de classes especiais para estes deficientes.

Assim sendo, atualmente somos obrigados a atender a essas crianas em horrio mais reduzido - 4 horas - em escola pblica.  o caso da classe instalada no Instituto de Educao e Assistncia aos Deficientes da Audio e Fala, graas  compreenso de seu supervisor e colaborao do governo do Estado. O ideal seria um regime de semi-internato ou internato, para uma educao especial mais completa

Esclarecimentos so necessrios para alertar o povo, e faz-lo participar da integrao do cego-surdo na sociedade.

CONCLUSES

Este campo de educao, ainda novo no pas, inicia seus primeiros passos para o atendimento do cego-surdo. Embora sendo um nmero reduzido na populao, estes deficientes tm direito a uma assistncia educacional, tornando-se seres capazes de desempenhar, dentro de suas limitaes, seu papel na sociedade. No  raro como se julga encontrar um cego-surdo. O que acontece, porm,  que, na impossibilidade de atendimento, a famlia conserva-o em casa.

H necessidade de pesquisas para localizao desses deficientes, atravs de palestras de esclarecimento, visitas a escolas de cegos e de surdos, a rgos mdicos especializados, a colaborao do governo e de entidades particulares. Alm disso, a formao de tcnicos, a criao de classes especiais, so condies primordiais para a educao do deficiente audiovisual.

Concluindo, repito a filosofia de Deschamps, publicada em 1779, que at hoje, ainda serve de lema aos professores de cegos surdos:

"PACINCIA E REPETIO SO AS PALAVRAS-CHAVES PARA O SUCESSO NA EDUCAO DO CEGO-SURDO"

Sendo o tema muito vasto, o tempo regulamentar no foi suficiente para apresent-lo. Houve ento, uma solicitao geral do plenrio no sentido de se prolongar o tempo, para sua explanao total, em virtude de ser o assunto bastante interessante e quase que desconhecido dos presentes. O Sr. Presidente concordou com o plenrio e assim a relatora pode apresentar integralmente seu trabalho. Para ilustrao desse tema, deveria ser projetado um filme. Entretanto o tempo estava quase esgotado e haveria ainda a parte das respostas s perguntas sobre os temas desenvolvidos durante a sesso. No sendo possvel a realizao de ambos, o Sr. Presidente comunicou o fato ao plenrio e procedeu-se ento, um julgamento que terminou favoravelmente  projeo do filme. O Sr. Presidente usou ainda a palavra para declarar encerrada a sesso aps a projeo do filme. Foi ento lavrada a presente ata que depois de lida e aprovada ser assinada pelo Sr. Presidente e pelas secretrias da sesso.
So Paulo, 13 de novembro de 1964. ass. Murillo Campello, Maria do Carmo Avres, Maria Aparecida Bianco.



SEXTA FEIRA, 13 DE NOVEMBRO DE 1964. 14:00 HORAS.
7 SESSO PLENRIA
Presidente: D. EDY PINHEIRO ALVES
Secretaria: D. HELENA AUGUSTA DE SOUZA MELO, D. MARISA DELLA SANTA

Ata da stima sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais - So Paulo. Aos treze dias do ms de novembro de 1964, s 14,05 hs. no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina, sito a Av. Brigadeiro Luiz Antnio, 278, realizou-se a stima sesso plenria do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, presidida pela Sra. Edy Pinheiro Alves, Chefe do Servio de Orientao e Controle do Ensino Primrio Oficial do Departamento de Educao Primria da Guanabara em substituio ao Prof. Elizirio Rodrigues de Souza, Coordenador do Plano Trienal do Ministrio da Educao e Cultura em So Paulo. Foi entregue a palavra  primeira oradora da tarde D. Mary Franklin de Andrade que falou sobre o tema "A importncia da Avaliao dos Casos".


A IMPORTNCIA DA AVALIAO DOS CASOS
MARY FRANKLIN DE ANDRADE -Encarregada do Setor de Servio Social do Instituto de Reabilitao da Universidade de So Paulo - So Paulo.

Considera-se incapacitada uma criana que dentro de certos limites no pode aprender, brincar, trabalhar ou fazer as mesmas coisas que as crianas de seu grupo de idade realizam, tendo dificuldade em desenvolver completamente seu potencial mental, fsico e emocional.

Desde os primeiros tempos, as sociedades tinham algum mtodo de lidar com crianas deficientes. Em alguns povos, uma vez provado que a criana no tinha meios de se incorporar de uma maneira produtiva ao seu grupo social, ela era eliminada (pela morte, abandono etc.) Em outras pocas lhes eram atribudos poderes sobrenaturais, sendo consideradas como "crianas do bom Deus" ou "possessos pelo demnio". Posteriormente, ainda consideradas inteis, mas no sendo mais admitida pelos padres morais a idia de abandono ou morte, elas passaram a ser asiladas, segregadas, o que constitui tambm uma forma de eliminao do grupo social. S mais recentemente  que comearam a ser compreendidas como portadoras de alguma deficincia que as coloca em desvantagem em relao a outras crianas, mas no as tornam capazes de participar da sociedade.

Esta concepo mais objetiva do problema leva a considerar a criana incapacitada de maneira global, com necessidades semelhantes s das outras, mas com alguma deficincia fsica, mental ou sensorial e sofrendo a interferncia de fatores sociais e emocionais.

O crescimento  uma caracterstica da infncia e todas as crianas passam por perodos de mudana e ajustamento  medida que crescem. Na maioria das famlias, este processo  temporrio e sem muitas complicaes. Pelo contrrio, o nascimento de uma criana com um defeito e o descobrimento de uma incapacidade fsica pode desencadear uma srie de acontecimentos que afetam a criana, a famlia, os amigos e a comunidade em que vive. Sentimentos de culpa, vergonha, falta de compreenso e decepes podem destroar a unio familiar. Seu processo de crescimento e a aquisio de conhecimentos e habilidades podem ser prejudicados pela falta de orientao e por problemas emocionais dos pais. A falta de servios adequados na comunidade aumenta estas dificuldades. 

Todas as crianas com um processo incapacitante devem receber os cuidados de servios especiais, organizados para atender as suas necessidades especficas.

Estes so aspectos gerais do problema. No entanto s  possvel planejar uma prestao de servios eficiente para a criana, se houver um conhecimento individualizado de cada caso em seus vrios aspectos. Estes dados so obtidos atravs de mtodos de avaliao.

Para a avaliao da criana portadora de incapacidade so importantes os seguintes elementos:
- mdicos,
- sociais,
- psicolgicos,
- educacionais e
- profissionais.

1 - AVALIAO MDICA

A avaliao mdica tem por objetivo:
1. Conhecer o estado geral de sade do individuo para controle de suas condies fsicas e, no caso de serem encontradas outras molstias no relacionadas  cegueira, dar orientao para tratamento (por exemplo, verminoses, desnutrio).
2. Determinar se a cegueira  proveniente de uma leso central, por exemplo casos de Paralisia Cerebral, e, nesse caso, pesquisar outras conseqncias dessa leso, tais como surdez, paralisias etc.
3. Se a deficincia visual  decorrente de molstias gerais, tais como sfilis, diabetes, arteriosclerose, molstias infecciosas, molstias de sistema nervoso etc., o exame mdico orienta sobre os efeitos colaterais da doena e as providncias necessrias para tratamento adequado, o que, em alguns casos limita a participao do cliente em programa de reabilitao.

A avaliao mdica deve incluir todos os elementos essenciais do exame clnico. Evidentemente, cada tipo de incapacidade fsica e cada cliente exigem a ateno para seu problema especfico. Por exemplo, o foco de interesse em exame de um indivduo amputado, difere muito da nfase dada na histria clnica, as condies de nascimento de uma criana com Paralisia Cerebral.

Por outro lado, em se tratando de pessoas com deficincia fsica, mental ou sensorial, no interessa apenas a investigao dos dados patolgicos, mas  de grande importncia a determinao da capacidade funcional restante, uma vez que o objetivo do trabalho de educao ou reabilitao vai se concentrar na capacidade conservada e no na incapacidade.

No caso de criana com deficincia visual  importante pesquisar aspectos tais como:
1. Fatores pr-natais - Condies de sade da me durante a gravidez e cuidados mdicos recebidos nesse perodo. Pesquisar a ocorrncia de doenas como sfilis, rubola etc, que podem ter ocasionado a cegueira. O conhecimento destes dados permite, se ainda possvel um tratamento  famlia e conduz, em maior escala,  preveno de outros casos.
2. Condies de nascimento - Tipo e durao do trabalho de parto, posio da criana ao nascer, danos sofridos pela criana. Parto operatrio (frceps e cesariana).
Procurar conhecer com exatido as condies da criana ao nascer, peso, cor, dificuldades respiratrias etc. Saber se foi notada qualquer anormalidade aparente logo aps o nascimento. Estes dados so importantes para a descoberta de uma leso mais grave e tambm para determinar as causas de cegueira devidas a acidentes de parto, oftalmia do recm-nascido etc.
3. Hbitos de alimentao e higiene - A alimentao da criana foi natural ou por mamadeira? Foi usado um horrio? Apresentava a criana dificuldade para receber o alimento? Atualmente alimenta-se bem? Apresentava-se desnutrida ou  obesa? Dorme bem? Segue um horrio determinado? A respeito da aquisio de hbitos de higiene, desde que poca a criana foi ensinada e comeou a executar sozinha seus cuidados de higiene?  capaz de comer s? Necessita de auxlio para vestir-se e banhar-se? Tem controle dos esfncteres?
4. Coordenao motora - Com que idade a criana comeou a sentar-se, engatinhar e andar? consegue locomover-se sem auxlio em local conhecido? Sobe ou desce escadas? Revela senso de ritmo?
5. Audio e linguagem - Reconhece a voz dos pais e pessoas de casa? Com que idade comeou a falar? Apresenta algum defeito anatmico congnito da boca? Revela dificuldade na fala? Em alguns casos torna-se necessrio um exame especializado para medir a acuidade auditiva da criana.
6. Histria da Sade - Mencionar as doenas prprias de infncia, condies alrgicas, traumatismos e acidentes. Obter a histria de tratamentos mdicos e cirrgicos anteriores.

Em suma, o estudo detalhadamente do caso fornece elementos com os quais  possvel determinar, do ponto de vista clnico, o desenvolvimento fsico e as condies atuais de sade da criana.

Com relao  incapacidade fsica, o exame especializado, no caso da deficincia visual, o exame oftalmolgico, fornece elementos precisos com relao a diagnstico, prognstico, grau de incapacidade, possibilidade de uso da viso restante e oferece sugestes de cuidados necessrios para melhoria, conservao ou restaurao da viso.

II - AVALIAO SOCIAL

A avaliao social abrange as relaes existentes entre a criana, sua famlia e a comunidade.

Tem por objetivo determinar os fatores sociais, econmicos, emocionais e ambientais que se apresentam como importantes para o planejamento dos cuidados necessrios  criana. Procura tambm reconhecer os obstculos que possam cercear o processo educativo.

 feita atravs de entrevistas com o cliente e a famlia, cujo objetivo precpuo  estudar os vrios aspectos da unidade familiar, com a finalidade de obter uma idia clara das dinmicas da integrao do grupo familiar e da situao da criana cega no funcionamento da famlia.

Este conhecimento permite uma formulao diagnstica sobre as dificuldades enfrentadas pela famlia, e da ajuda necessria para resolv-las.

Alm disso, a avaliao social oferece oportunidade para que se estabelea uma relao entre o cliente e a obra social. Atravs desta relao  que a famlia ser esclarecida sobre as necessidades da criana e ser convidada e estimulada a usar os servios que a obra e a comunidade podem lhe prestar.

O estudo das atitudes dos pais e irmos em relao  criana incapacitada  essencial para a compreenso de um determinado grupo familiar.

O impacto que na maioria das vezes os pais sofrem ao tomarem conhecimento da cegueira do filho  compreensvel.

As expectativas em torno do crescimento normal e do sucesso das realizaes da criana, que so esperanas legtimas de todos os pais, so subitamente cortadas.

A maneira como vo sofrer e reagir ao trauma est relacionado com a estrutura da personalidade de cada um e seus padres habituais de enfrentar as tenses.

Na maioria das vezes, os pais no tiveram experincias anteriores com as capacidades fsicas ou mentais, no esto preparados para lidar com elas. Se eles nutrem preconceitos comuns a respeito da cegueira e consideram o deficiente visual como um intil e incapaz, a presena de uma criana cega se torna ainda mais decepcionante para eles.

Se nunca foram esclarecidos a respeito das possibilidades de uma pessoa cega, eles tero dvidas e receio de que seu filho no seja capaz de desenvolver-se normalmente, estudar, trabalhar, casar-se e prover a prpria subsistncia.

O sofrimento causado ento, pela constatao da deficincia visual, pode lhes ser to penoso que os leve a se sentirem "perseguidos pelo destino" e desencadeia uma sria de atitudes e reaes em relao a eles prprios e  criana.

Durante um certo perodo eles podem desejar tanto que aquele sofrimento desaparea, que chegam a descrer do diagnstico, fazendo uma verdadeira peregrinao aos consultrios mdicos e outras fontes de esperana como "curandeiros, benzedores" etc.

Esta busca no est ligada  crena ou descrena na competncia mdica, mas prende-se muito mais  necessidade de afastar uma realidade dolorosa.

Se a realidade se impe, eles tentam achar uma razo na qual tenha origem a cegueira, culpando-se ento por descuidos anteriores  instalao da incapacidade, ou projetando em outros seus sentimentos de culpa.

Se para eles a cegueira est ligada  idia de castigo, podem senti-la como uma punio por alguma culpa real ou imaginria.

A personalidade de cada indivduo " um produto, em evoluo, de sua formao constitucional, de seu ambiente fsico e social, de suas experincias passadas, de suas percepes e reaes atuais e mesmo de suas aspiraes futuras" (Helen Harris Perlman).

Suas reaes em cada situao de vida so condicionadas por todos estes elementos. As:sim, o pai e a me da criana cega tm a sua "histria de vida".

Cada um deles  proveniente de uma famlia bem organizada ou no, viveu experincias importantes na sua infncia, alargou os seus crculos de contato com o mundo, travando relaes na escola, no trabalho e nas ocasies de recreao. Cada um dele:s tem uma filosofia de vida, que, de maneira expressa, ou inconsciente, se traduz atravs de suas atividades e aes.

Na base de todas estas experincias, inclusive,  que um escolheu o outro como companheiro de vida.

Na nova unidade familiar que se forma, cada um deles tem um papel a assumir (de esposa, de pais, de chefe de famlia etc.) e o desempenho deste papel  considerado "bom ou mau", conforme o indivduo corresponde ou no s expectativas em torno dele.

Ambos vivem experincias em conjunto e desenvolvem um relacionamento em que entram sentimentos, atitudes e comportamento.

Existe entre eles uma forma de comunicao que faz com que, embora vivendo sob o mesmo teto, estejam mais prximos ou mais distantes um do outro; expressem com espontaneidade, ou reprimam seus sentimentos.

E na medida em que ambos atingirem certa maturidade emocional, tm aspiraes semelhantes e encontram um no outro satisfao para suas necessidades sexuais, sociais e afetivas, o casamento pode ser considerado mais forte ou mais vulnervel.

A presena de uma criana incapacitada afeta o relacionamento entre os pais. Se o casamento  forte e satisfatrio, um encontrar no outro apoio e compreenso; pelo contrrio, se a ligao entre os pais  "vulnervel e conflitiva", a deficincia da criana pode ser o elemento que traz  tona e desencadeia os problemas j existentes.

 importante tambm considerar que cada casal tem determinadas metas em comum, com relao a padro de vida, valores sociais etc., chegando a estabelecer uma certa prioridade para alcan-las. Se uma criana  concebida em uma poca considerada inoportuna pelos pais, antes mesmo do nascimento ela j pode ser rejeitada.

A constatao de que o filho  portador de uma incapacidade vai despertar ansiedade e atingir problemas anteriores que estavam latentes. Por exemplo, os pais podem considerar a deficincia como uma punio por haverem rejeitado a criana.

O ressentimento pela perda sofrida com a incapacidade pode assumir vrias formas. Os pais podem isolar-se da sociedade, temendo no conseguir dissimular a revolta que sentem contra os que so mais felizes que eles. Podem desenvolver sentimentos de autocompaixo. Muitos pais sofreram, eles prprios privaes materiais e emocionais. A dependncia da criana cega pode agravar estas necessidades insatisfatrias; as constantes solicitaes da criana podem chegar a esgotar suas energias, tornando-se difcil para eles desempenhar o papel de pais.

A expresso destes problemas assume, s vezes, a forma de superproteo. Descrentes das possibilidades da criana, ou incapazes de conter sua ansiedade ao v-la experimentar suas prprias foras, os adultos cerceiam seu desenvolvimento e reduzem-na a completa dependncia.

Se os pais no resolverem seus problemas afetivos de maneira satisfatria, a criana deficiente pode ser utilizada por um deles neste sentido, como  o caso da me que se sentindo insatisfeita como esposa, emprega todas as suas energias no desempenho do papel de me, chegando a prejudicar e impedir a independncia do filho.

Se os pais esto de tal maneira envolvidos em seus problemas, eles tero dificuldades em ver a criana realmente com suas limitaes e habilidades.

Muito de suas energias vai ser gasto no sentido de controlar seus sentimentos, no lhes sendo possvel oferecer o apoio e afeio de que a criana necessita nos seus esforos de aprendizado.

Por outro lado,  preciso considerar tambm o que representa a criana incapacitada para os pais, no sentido de trabalho ou preocupao.

Quanto de esforos eles precisaro fazer para proporcionar-lhe tratamento e educao adequada? Onde encontraro tais facilidades? Como a presena da criana ir aumentar seus encargos e responsabilidades? Tero eles recursos financeiros para atender as necessidades da criana?

As dvidas sobre a maneira como educ-la e as preocupaes a respeito de seu futuro muitas vezes assaltam os pais.

 de grande valor nessa ocasio a ajuda eficiente do Servio Social de Casos. Atravs do relacionamento com o assistente social, os pais tero oportunidade de expressar seus sentimentos, de se sentirem apoiados e compreendidos, e, a partir dessa fase, comear a perceber as suas atitudes e refletir sobre os seus prprios problemas com relao  criana cega.

Muitas vezes,  preciso um longo perodo de acompanhamento do caso para ajudar os pais a atingirem um ponto de verdadeira aceitao da incapacidade da criana.

Nos casos em que a presena da criana desencadeia uma srie de problemas anteriores dos pais e pe  mostra as insatisfaes de parte a parte, o seguimento de Servio Social de Casos pode lev-los a perceber claramente estes problemas e enfrent-los, procurando um ajustamento em bases mais satisfatrias.

Em outras vezes, a interferncia do Servio Social de Casos se faz necessria para esclarecer a famlia sobre a existncia de recursos na comunidade e incentiv-la a tomar providncia para o atendimento adequado da criana.

Na compreenso do caso, deve ser considerada tambm a existncia de outras crianas videntes na famlia, e seu relacionamento com o irmo deficiente.

Os irmos mais velhos ficam muitas vezes envergonhados com relao aos companheiros por terem um irmo ou irm cego; ou ento sentem que a presena da criana deficiente limita a sua liberdade nas brincadeiras prprias da infncia. Isto pode lev-los a nutrir sentimentos confusos e ambivalentes a respeito do irmo.

Se a criana cega monopoliza a ateno dos pais, eles podem se sentir esquecidos e reagir com cime. Podem manifest-lo de maneira abertamente hostil, ou atravs de queixas para obter tambm a ateno dos pais.

A atitude da comunidade tambm dificulta e influencia o trabalho de educao dos pais. Mesmo no momento atual, so correntes os preconceitos a respeito da cegueira sua equiparao  mendicncia e inutilidade social, as atitudes de horror, piedade, e culpa.  comum ver-se o indivduo cego isolado, pouco solicitado pelos que o cercam, e, ao mesmo tempo despertando solicitude exagerada e superproteo (veja-se o caso do pagamento de passagens de transporte coletivos).

O desconhecimento das possibilidades das pessoas cegas e a descrena em suas habilidades levam a uma atitude de espanto e valorizao exagerada de suas realizaes.

Certas exigncias e responsabilidades, aceitas como naturais para a maioria das pessoas em determinadas idades (por exemplo trabalhar e prover a prpria subsistncia, locomover-se com desembarao em uma grande cidade, viajar, expor-se a certos riscos), so consideradas ainda como sendo "crueldade" quando exigido de uma pessoa cega.

Em decorrncia de seus preconceitos e problemas em relao  cegueira, , s vezes, mais tranqilizante para sociedade manter os indivduos deficientes "protegidos" e segregados da vida comum e competitiva da maioria da populao.

As atitudes da comunidade devem mudar. Apesar de haver uma compreenso maior e melhor aproveitamento da pessoa deficiente, ainda persistem muitos preconceitos com relao  cegueira, dificultando a integrao dos deficientes visuais na vida da sociedade.

O processo de crescimento de uma criana cega  naturalmente mais complicado do que o de uma criana vidente. A impossibilidade de formar imagens visuais de objetos, de pessoas, do ambiente e do prprio corpo lhes dificulta o aprendizado, e, a aquisio de experincias deve ser feita atravs do tato, do olfato, do gosto e da audio.

Alguns pais que so capazes de aceitar a deficincia da criana, intuitivamente atendem as suas necessidades, mas mesmo assim a maioria deles precisa adquirir conhecimentos de como atender as deficincias da criana adequadamente.

Saber, por exemplo, que a criana cega precisa de mais estmulo para movimentar-se no bero. No tendo um conceito de espao, precisa que lhe falem a respeito de distncias e a encorajem a explorar o ambiente movimentando-se dentro dele e tocando as paredes, mveis, objetos etc.

Uma vez que a aprovao, desaprovao, afeto, apoio, no podem lhe ser transmitidos atravs da expresso facial, ou de um sorriso, os pais precisam aprender a transmiti-los atravs da voz, do contato fsico, do carinho.

A ausncia de estmulo visual tambm dificulta a aquisio de hbitos de higiene e alimentao. A criana necessita durante um certo perodo pegar os alimentos, conhec-los, antes de aprender a se utilizar de talheres. A limpeza, o cuidado com a aparncia precisam lhe ser incutidos atravs de outros mtodos, que no o apelo visual.

Desde cedo, as crianas videntes so corrigidas e ensinadas a no tocar certos objetos ou partes do corpo e a tomar contato com as coisas atravs da viso e no do manuseio. Ao ensinar a criana cega a se utilizar do tato, do olfato e do gosto para adquirir experincias e entrar em contato com os objetos e o ambiente, os pais esto adotando mtodos no aceitos em geral, considerados impolidos e que vo inclusive contra certos tabus culturais.

Diante de todos estes aspectos  importante e s vezes imprescindvel, que a famlia conte com a ajuda profissional do assistente social, com quem poder discutir as dificuldades que encontra e receber orientao sobre a educao do filho.

Nos primeiros anos de vida, na idade pr-escolar, quando a criana ainda no recebe os servios de nenhum outro tcnico,  o assistente social o profissional que est em contato com a famlia. Sua interveno oportuna vai ajudar os pais a proporcionar ao filho um ambiente favorvel ao seu desenvolvimento; vai evitar que seja retardada ou impedida a explorao das capacidades que a criana tem e vai prevenir a formao de maus ajustamentos do futuro adulto deficiente visual.

Alm da avaliao da integrao do grupo familiar e do impacto provocado pela cegueira de um dos seus membros,  importante a considerao de dificuldades objetivas tais como: falta de recursos econmicos ausncia de facilidades escolares etc.

Em nosso pas a maioria da populao vive em condies scio-econmicas precrias, sem conseguir nem mesmo atender as necessidades bsicas de sobrevivncia; alimentao, vesturio, habitao adequada etc.  alto o ndice de analfabetismo e baixo o nvel de instruo.

 Sendo a unidade familiar uma amostra do grupo social de que faz parte, a famlia da pessoa cega tambm  atingida por estas condies gerais. Assim, os indivduos se encontram absorvidos na luta pela sobrevivncia, que pouca ateno dispensam  explorao das capacidades restantes dos mais deficientes.

Muitas vezes a avaliao social vai demonstrar que o tratamento do caso depende da elevao de nvel econmico e social de toda famlia.

Se o pas ainda luta por alfabetizar grande parte do seu povo  sinal de que mesmo as pessoas com plena capacidade fsica e mental no receberam ainda o mnimo necessrio e no tm oportunidade de desenvolvimento de todo o seu potencial. Assim so ainda menores as oportunidades oferecidas s pessoas portadoras de alguma deficincia para adquirir instruo e tratamento adequado. Neste aspecto so mais beneficiadas as residentes em grandes centros urbanos, onde podem encontrar maiores facilidades
para aprendizado, treinamento e colocao em emprego. O simples fato de residir em zona rural, ou em uma cidade que no disponha de recursos especiais de ensino, impede qualquer planejamento de cuidados para uma criana cega.

As dificuldades econmicas, de distncia, e a falta de classes especiais so to grandes, que os pais vem o internamento como a nica soluo para o problema de aprendizado da criana. Porm, tais casos merecem estudo cuidadoso, pois estes argumentos podem ser apenas aspectos ou disfarces de uma atitude mais profunda de rejeio da criana e desejo de transferir a responsabilidade de seu cuidado para terceiros.

A institucionalizao torna-se nestes casos, como j foi dito antes, uma forma de "proteo" que a sociedade impe aos indivduos cegos. Sob a aparncia de custdia socialmente aceita, so isolados e segregados, estes indivduos para que no despertem ou agitem as emoes dos outros membros do grupo social.

Por fim,  importante lembrar que a avaliao social  a oportunidade que o assistente social tem de estabelecer um contrato de prestao de servios a um cliente, levando-o da condio de indivduo que solicita ajuda  de pessoa interessada em fazer alguma coisa pelo seu problema.

Para o planejamento dos cuidados a serem prestados ao portador de deficincia visual, devemos levar tambm em considerao os achados psicolgicos.

III - AVALIAO PSICOLGICA

A avaliao psicolgica tem por objetivo conhecer e determinar as condies intelectuais, de personalidade, os interesses, aptides e habilidades especificas dos indivduos.

 feita atravs da aplicao de provas psicolgicas tais como testes e tcnicas projetivas, e de entrevistas com o cliente.

Sabe-se que a criana portadora de incapacidade pode apresentar as mesmas formas de conduta e reaes emocionais que so comuns ao mesmo grupo de idade. No entanto, a incapacidade pode acarretar dificuldades no processo geral de desenvolvimento da criana, interferindo no seu desenvolvimento intelectual e emocional.

A criana cega, tendo a sua possibIlidade de contato com o ambiente limitada, necessitando aprender de maneira diferente das outras crianas, estando exposta s vezes a rejeio dos pais, est sujeita a frustraes constantes, e necessita de um ego particularmente forte para desenvolver-se bem, estabelecer relaes com o
mundo e aprender a alcanar o que deseja.

A mesma limitao fsica pode ter significado diferente para duas crianas, dependendo da estrutura de sua personalidade, da maneira como se sentem aceitas pelos membros da. famlia, especialmente os pais, e das oportunidades que lhes so proporcionadas de participar da vida comum do seu grupo de idade.

A avaliao psicolgica vai procurar investigar em cada. caso em particular, de que maneira a incapacidade afeta a personalidade e a conduta da criana. Naturalmente, o grau de sucesso que cada criana consegue atingir em suas realizaes depende do seu potencial intelectual. Mas muitas vezes esta capacidade de realizar, de produzir, est embotada e impedida pela interferncia de problemas emocionais.

Cabe ao psiclogo determinar o nvel da capacidade da criana e descobrir at que ponto, fatores emocionais esto interferindo na sua produo.

Espera-se tambm da avaliao psicolgica, que transmita aos outros tcnicos que trabalham com a criana o conhecimento de traos da personalidade da criana, seus pontos fracos e fortes.

Este conhecimento possibilita dar orientao tanto aos pais da criana, quanto aos profissionais que lidam com ela, sobre a melhor maneira de conduzi-la e de lhe proporcionar instruo e recreao adequadas.

Completadas as avaliaes mdica, social e psicolgicas, os profissionais que lidam com a criana tem elementos suficientes para caracterizar sua situao em todos os aspectos essenciais: quais as suas condies fsicas gerais, qual a gravidade da deficincia, de que maneira a incapacidade afeta a criana e atinge o ambiente familiar, quais as dinmicas de interao do grupo familiar e com que foras positivas conta para enfrentar o problema e por fim, qual o potencial da criana cega.

Todos os dados pesquisados atravs das avaliaes mdica, social e psicolgica s tm finalidade se forem utilizados para um planejamento dos cuidados de que a criana necessita, e uma prestao de servio adequado.

Devem ser tiradas concluses sobre o tipo de educao a ser proporcionado - classe Braille, ensino itinerante, classe de adaptao, escola residencial etc., escolhendo-se sempre aquele que mais beneficie a criana.

Devem ser consideradas a necessidade e as possibilidades prticas de fazer o seguimento psicolgico e social do caso, se necessrio.

 til estabelecer os objetivos que cada profissional pretende atingir no seu campo de ao, e determinar de que maneira sero reavaliados os progressos realizados.

 preciso ter sempre em mente, que o objetivo da educao da criana  integr-la da maneira mais satisfatria e produtiva no seu grupo social, assim, sempre que possvel, as necessidades educativas da criana, devem ser atendidas na sua prpria comunidade, e ela deve ser estimulada a participar de atividades recreativas com crianas comuns, para que, alm de desenvolver a sua iniciativa, ganhar satisfaes emocionais e travar amizades, aprenda a vencer as barreiras levantadas pela deficincia.

Houve como de praxe um intervalo de cinco minutos para que o plenrio entregasse as perguntas  mesa. Aps o intervalo foi entregue a palavra a Dra. Nair Lemos Gonalves, Livre Docente da Cadeira de Legislao da Faculdade de Direito da Universidade de So Paulo que discorreu sobre "Legislao no Campo da Cegueira".


LEGISLA0 NO CAMPO DA CEGUEIRA
PROF. DRA. NAIR LEMOS GONALVES - Livre Docente da cadeira de Legislao Social, da Faculdade de Direito da Universidade de So Paulo -So Paulo.

1 - O ttulo dEste trabalho exige a observao inicial de que, sendo a cegueira apenas uma das possveis deficincias, nele no se cuidar de normas legais referentes aos cegos e amblopes, mas principalmente de medidas e disposies de carter mais geral, que tambm interessam aos deficientes visuais.

2 - O problema apresenta, esquematicamente, trs aspectos principais, ligados a numerosas questes que vm desafiando cientistas, tcnicos, o Poder Pblico e a iniciativa privada:
a) - Educao, abrangendo o ensino, ou melhor, a educao especializada que se entrelaa muitas vezes com a reabilitao, considerada esta no seu sentido amplo; a formao de tcnicos e professores especializados; e finalmente, a pesquisa de nvel superior, retaguarda indispensvel, como se reconheceu no Simpsio de Educao Especial, realizado em Braslia em 1963, tambm sob os auspcios da Campanha Nacional de Educao de Cegos.
b) - Trabalho, abrangendo o setor pblico, isto , o servio pblico federal, estadual e municipal, e o setor privado.
c) - Previdncia, compreendendo igualmente dois setores distintos, o regime de previdncia dos servidores pblicos e a previdncia social dos empregados em empresas privadas


Esta contribuio, por sua prpria natureza e dada a limitao do tempo, se refere apenas a algumas dessas questes.

3 - Conforme tivemos oportunidade de salientar em recente parecer emitido por solicitao da Campanha Nacional de Educao de Cegos,  sem dvida dos mais graves o problema da educao do cego e o de sua colocao em trabalho adequado, de forma que possa transformar-se em elemento til da comunidade, perfeitamente integrado na populao ativa responsvel pelos destinos da Ptria. As solues tcnicas possveis podem assim resumir-se:

I - Considerando o trabalho,  preciso lembrar que a reabilitao profissional tem por objetivo atingir a reabilitao integral do deficiente ou excepcional negativo, oferecendo ou devolvendo  comunidade elementos que, de preferncia, possam constituir verdadeira mo de obra a ser disputada no mercado de trabalho, por sua eficincia, em igualdade de condies com as pessoas consideradas "normais".

De acordo com essa orientao, afastam os tcnicos, como indesejveis, as medidas que possam resultar em privilgio dos excepcionais e com elas a chamada "imposio de mo de obra", ou melhor, a reserva obrigatria de certas tarefas, no servio pblico ou fora dele, para serem exercidas pelos deficientes.

II - A reabilitao integral, entretanto, no prescinde da adequada compreenso do problema pela comunidade, pois mesmo nos Estados Unidos da Amrica, onde  enorme o progresso nesse setor, MARY E. SWITZER, Diretora do "Office of Vocational Rehabilitation", referindo-se aos acidentados do trabalho, lembra que "We should not permit ourselves the ilusion that the injured workman can receive adequate rehabilitation without ensurng that the community is prepared to furnish compreensive services" (In "Role of the Federal Governement in Vocational Rehabilitation". Reprinted from Archives of Physical Medicine and Rehabilitation", vol. 37, set. 1956).

Diversas so as medidas adotadas hoje em todos os pases para provocar a compreenso e as providncias necessrias  instalao de rgos de reabilitao pela comunidade.
a) Levantamento das tarefas que, nas instituies, empresas pblicas e particulares, possam ser executadas com eficincia pelos excepcionais, porque o exerccio das atribuies correspondentes no exige o rgo ou a funo dos quais, em virtude de sua deficincia, est privada a pessoa de capacidade reduzida. Tal levantamento realiza-se de forma espontnea pelos servios especializados de reabilitao, interessados mais diretos na colocao das pessoas que concluem com xito o processo de reabilitao, ou resultam de imposio legal, como acontece no Estado de So Paulo (decreto n 42.850, de 30-12-1963, art. 29, que regulamentou a lei n 3.794, de 5-2-1957); no Municpio da Capital de So Paulo (lei n 5.336, de 2-9-1957, e n 5.690, de 8-2-1960); e no Estado de Minas Gerais (lei n 2.538, de 23-12-1961).
b) Reserva obrigatria, por lei, de certa percentagem dos cargos ou funes em rgos pblicos ou mesmo em empresas privadas, a serem preenchidos pelos excepcionais.
Atravs da colocao a princpio obrigatria, trata-se provar, na prtica, o real interesse econmico do trabalho que eles podem realizar, desde que colocados em tarefas para as quais tenham aptides e estejam devidamente preparados. Nesse sentido, o art. 55 da Lei Orgnica da Previdncia Social, lei n 3.807, de 26-8-1960, pelo qual "as empresas que dispuserem de 20 (vinte) ou mais empregados sero obrigadas a reservar 2%. (dois por cento) a 5% (cinco por cento) de cargos, para atender aos casos de readaptados ou reeducados profissionalmente, na forma que o regulamento desta lei estabelecer", devendo "as instituies de previdncia social (admitir) a seus servios os segurados reeducados ou readaptados profissionalmente", tambm na forma do regulamento. Pela lei n 2.538, de 23-12-1961, no Estado de Minas Gerais, "de cada 10 vagas que ocorrerem em cargos ou funes de servio pblico estadual, uma ser destinada ao aproveitamento de pessoa portadora de defeito fsico, observada a respectiva habilitao e atendidos aos preceitos legais para preenchimento de cargos ou funes pblicas.
c) Determinao legal de aproveitamento em tarefas adequadas, no servio pblico, das pessoas que, por deficincia verificada nos exames de sanidade e capacidade fsica, sejam impedidas de tomar posse ou entrar em exerccio de cargos ou funes para os quais foram nomeadas ou admitidas, como acontece com o Regulamento da Lei do Estado de So Paulo n 3.794, de 5-2-195(?), art. 29, do decreto n 42.850, de 30-12-1963.
d) Determinao legal de preferncia em favor dos excepcionais, em caso de obteno de autorizao para o exerccio de profisses. que exijam essa formalidade. A lei n 5.336, de 2-9-1957, do Municpio da Capital de 5. Paulo, permite aos excepcionais o exerccio do comrcio nas feiras livres, a domiclio e nas vias pblicas, com iseno de tributos.
e) Criao de rgos especializados, a exemplo do "President's Committee ou Employment of the Physically Handicapped", dos Estados Unidos da Amrica e dos "Local Disablement Committees" da Inglaterra, incumbidos de tomar todas as medidas capazes de facilitar a colocao dos excepcionais em empregos adequados.
f) Criao de rgos, como a "Remploy Ltd" da Inglaterra, conhecidos como oficinas protegidas ou abrigadas, que do trabalho aos excepcionais que, embora habilitados para o exerccio de determinadas profisses, ainda no se encontram em condies de enfrentar o regime competitivo do mercado de trabalho comum. Entre ns, esforos nesse sentido esto sendo desenvolvidos pela Superintendncia dos Servios de Reabilitao Profissional da Previdncia Social - SUSERRPS - e por outros rgos pblicos e particulares, dentre os quais se pode citar o Centro de Reabilitao de Cegos, da Fundao para o Livro do Cego no Brasil. Recentemente, pela Portaria GR-76, de 13-8-1964, o Reitor da Universidade de So Paulo, criou, junto ao Instituto de Reabilitao, anexo  Ctedra de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina
da Universidade de So Paulo, o Fundo de Pesquisas para Treinamento e Colocao Profissional de pessoas de capacidade reduzida, que dever custear estabelecimento com finalidade semelhante  das oficinas protegidas.


4. Fcil, pois, concluir que todas essas medidas podero ter suas vantagens exploradas devidamente num programa de educao e reabilitao de excepcionais. A eficincia de cada uma delas dever ser aferida em funo da realidade social e cujas necessidades se deseja atender.

5. H, entretanto, dois problemas bsicos que se apresentam sempre que se cuida da colocao de excepcionais:

I) - Os exames de sanidade e capacidade fsica, exigidos para exerccio de certos cargos ou funes, realizam-se mais com objetivo de medir deficincias do que verificar se, no obstante a deficincia, est o excepcional capacitado para o desempenho da tarefa que se prope realizar. A propsito. cabe citar a Declarao Conjunta de 1961, feita pelos Membros do "President's Committee of the Physically Handicapped" dos Estados Unidos da Amrica:

.... We seek no special privilege for the handicapped; merely their right to opportunity. We believe in measuring a man for employment by his abilities rather than his disabilities.

"We urge this measure of man as a guide to his employment, whether a the employer be Federal, State, or Municipal Government, or private industry or business. We urge it, too, as a guide to his reemployment, should he be injured or disabled on the job.

"To be refused employment, for any reason is not pleasant. But to be refused without consideration, without any attempt at objective evaluation, merely because of a handicap, is indeed a bitter experience. We therefore urge all employers - in Government, the professions, industry, and business - to weigh all handicapped appiicants fairly; to weigh not their disabilities but their worth as useful and productive members of our labor force..." (in "Performance" October 1961 p. 3).

II - Esta questo se correlata com os direitos que o regime jurdico dos servidores pblicos, o sistema de previdncia social e a lei de acidentes do trabalho asseguram aos trabalhadores, notadamente no que se refere  licena para tratamento de sade, auxlio doena e aposentadoria por invalidez. bem como  indenizao por incapacidade permanente. A lei aponta certas deficincias ou estados patolgicos, entre eles a cegueira, como causas capazes de assegurar tais benefcios. Compreende-se, pois, que os mdicos encarregados de realizar os exames de sanidade e capacidade fsica para ingresso procurem afastar os excepcionais, os cegos, por exemplo, da investidura no cargo ou na funo, tentando assim resguardar contra a possibilidade de a mesma deficincia., no considerada no momento do ingresso, porque no impedia nem dificultava o exerccio das atribuies a serem desempenhadas, vir a ser alegada posteriormente, com base na lei, como causa capaz de desobrigar do trabalho o excepcional, que ter direito, conforme o caso, a licena com vencimentos para tratamento de sade, aposentadoria por invalidez, auxlio doena ou mesmo indenizao por incapacidade permanente.

6. Recentemente, um grupo de estudos, do qual participamos, integrado por tcnicos da SUSERPS e do Servio de Reabilitao do Servio Social da Indstria - SESI, - reconheceu a necessidade da reformulao dos conceitos de sanidade e capacidade fsica, orgnica e mental e procurou atend-la ao elaborar diversas sugestes de alterao do anteprojeto de Cdigo de Trabalho, do Prof. Dr. Evaristo de Moraes Filho. revisto pelo autor e pelos Profs. Drs. Jos Martins Catharino e Mozart Victor Russomano.

7. CONCLUSES:

I - Sem desprezar as variadas medidas tendentes a garantir o emprego do cego.s e dos excepcionais em geral, sempre cabveis nos programas de educao especial e de reabilitao, parece que a lei (Estatuto dos Funcionrios; Cdigo do Trabalho; Lei Orgnica da Previdncia Social etc.) e mesmo a Constituio Federal, se necessrio, deveriam ser objeto de reviso para garantir:
a) reformulao do conceito de sanidade e capacidade fsica, orgnica ou mental, a fim de que se avalie a capacidade tendo em vista a tarefa a ser desempenhada e a capacidade restante do deficiente;
b) reformulao do conceito de invalidez, deixando claro que as causas que autorizam licena para tratamento de sade, auxlio doena e aposentadoria por invalidez devem ser posteriores ao ingresso no cargo ou funo e s reconhecidas quando acarretarem, no caso concreto, incapacidade para o trabalho.

II - A Constituio Federal poderia contribuir decisivamente para tal reformulao, se adotadas emendas semelhantes s seguintes:
a) O pargrafo nico do art. 157 passaria a  1, sendo acrescentados os ~ 2 e 3, assim:
"1 No se admitir distino entre o trabalho manual ou tcnico e o trabalho intelectual, nem entre os profissionais respectivos, no que concerne a direitos, garantias e benefcios.

" 2 A limitao ou deficincia fsica, orgnica ou mental no constituir impedimento ao ingresso em cargo, funo ou ocupao pblica ou particular, quando a limitao ou deficincia verificada no impedir o exerccio, com eficincia normal, das atribuies a serem desempenhadas.

" 3 No se reconhecer como causa de invalidez a limitao ou deficincia de que trata o pargrafo anterior".

b)        Ao art. 186 poderiam acrescentar-se os pargrafos seguintes:

"Art. 186. A primeira investidura em cargo de carreira e em outros que a lei determinar efetuar-se- mediante concurso, precedendo inspeo de sade.

" 1 Na inspeo de sade de que trata este artigo considerar-se-o as atribuies a serem desempenhadas pelo examinando.

" 2 A limitao ou deficincia fsica, orgnica ou mental no constituir impedimento  investidura, quando no impedirem o exerccio, com eficincia normal, das atribuies mencionadas no  1 deste artigo".

c)        O art. 191 reconhece a invalidez como causa de aposentadoria, determinando no  3 o pagamento de proventos integrais ao funcionrio que se invalidar por "acidente ocorrido no servio, por molstia profissional ou por doena grave contagiosa ou incurvel especificada em lei". "Poder-se-ia acrescentar a esse artigo o seguinte:

" 5 No se reconhecer como causa de invalidez a limitao ou deficincia fsica, orgnica ou mental que no impea o exerccio, com eficincia normal, de atribuies prprias do cargo ocupado pelo funcionrio".


A seguir foi dada pela mesa a oportunidade de dirigirem perguntas sobre o tema abordado. Exatamente, aps um intervalo de dez minutos. s 15,15 hs.. foi entregue a palavra ao terceiro orador inscrito Dr. Jairo de Moraes, Diretor do Instituto Benjamin Constant, Rio de Janeiro - Gb, que cedeu a palavra ao professor Silvino Coelho para que este fizesse a parte introdutora da tese "A educao do pblico". A seguir o Dr. Jairo Moraes concluiu a tese.

A EDUCAO DO PBLICO
PROF. SILVINO COELHO DE SOUZA NETTO - Chefe do Setor de Educao do Instituto Benjamin Constant - Rio de Janeiro - Guanabara.


1 - IMPORTNCIA DA ADEQUAO EDUCATIVA DO CEGO NO BRASIL, COM A REALIDADE BRASILEIRA

INTRODUO

A realidade da cultura brasileira se prende a diversos fatores condicionados a vrias circunstncias de ordem tnica, geogrfica histrica, tendo como resultado outros problemas. cuja natureza econmica, social, poltica e educacional d todo um complexo cultural com caractersticas prprias que merecem criticas de fundamento histrico.

A sociedade brasileira  o resultado de uma composio de raas diferentes, com culturas diferentes. Somos um povo ao mesmo tempo ocidental e oriental, por isto mesmo apresentando caractersticas peculiares e exigindo tratamento especial.

A gente brasileira  inteligente, tem ndole boa e uma vez bem orientada tudo faz e dela tudo se consegue. Portanto, vivendo num pas onde os seus irmos tm, excelentes qualidades, o que  preciso para o perfeito entrosamento do cego com a sociedade,  uma honesta propaganda aliada ao preparo do cego para o trabalho. Sendo o Brasil um territrio continental, com comunicao e transporte deficientes,  fcil de se concluir a deficincia em todos os setores da vida, no escapando o educacional.
Sabemos que  grande o nmero de analfabetos brasileiros, como  imenso tambm o nmero dos no preparados profissionalmente para enfrentar as exigncias sociais contemporneas.

Fazendo-se a anlise de tais situaes, observamos que temos pela frente rdua tarefa, a realizar.

A educao reflete-se diretamente no estgio cultural em que vivemos e se resume na cultura contida na histria de um povo ou de uma nao.. A histria do nosso desenvolvimento cultural est cheia de acontecimentos de toda sorte, cabendo aos interessados no progresso, selecionar o que h de positivo para a educao e eliminar aquilo que trava a evoluo.

Estamos passando por uma transformao que tudo exige de ns no sentido da perfeita harmonia entre os indivduos, porque sem a qual jamais pode haver compreenso, tranqilidade e segurana, os responsveis somos todos, porm, diretamente cai sobre os ombros dos homens de conscincia.

Quanto mais se adquire tanto maior  a nossa responsabilidade para com os nossos semelhantes.

Intercmbio entre as instituies de cegos no Brasil:

No se compreende o porqu da distncia existente nas relaes dos estabelecimentos destinados a educao e ao trabalho para cegos. So inmeros os exemplos demonstrativos referentes ao xito das adequadas inter-relaes dos organismos que visam proporcionar algum bem estar social.

O poder Executivo do governo no poderia realizar nada independente do poder Legislativo e Judicirio num regime democrtico; um pas no possui tudo aquilo de que ele necessita eis porque recorre ao auxlio dos pases com que tem relaes; as empresas industriais, comerciais, jornalsticas, as agncias de publicidade e departamento de relaes pblicas, vivem todas estas instituies graas s relaes harmoniosas e adequadas que mantm reciprocamente.

Este primeiro Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais  a maior prova do que estamos afirmando, bem como representa o maior esforo de vontade no sentido de estabelecer estas imprescindveis inter-relaes tiflo-pedaggicas nacionais.

O Instituto Benjamin Constant e a Campanha Nacional de Educao dos Cegos so rgos federais destinados a promover a educao para os cegos no Brasil. Os recursos que contam para tal fim so fornecidos pelo governo federal. O governo brasileiro nunca falhou no cumprimento do dever sagrado em zelar pelo desenvolvimento scio-cultural dos seus patrcios no videntes.

Tem dado pouco  verdade em referncia ao necessrio, mas tem despendido muito em relao ao aproveitamento. Se mais no d  porque no temos sabido bem aplicar. Os cegos tm direitos mas no lhes foram dispensados o direito de ter obrigaes e deveres.

Estou com esperana e f de que ao terminar este to oportuno Congresso, algo de concreto e objetivo deixe-nos como trao de brevidade para atingir o alvo de nossos ideais e alvio das nossas necessidades.

Para tanto s atravs de nova orientao podemos alcanar o desejado.

 necessrio e j  tempo mesmo de aquisio de conscincia tiflo-pedaggica nacional. Cabe ao Instituto Benjamin Constant e a Campanha Nacional de Educao dos Cegos a maior incumbncia de tais responsabilidades por terem mbito. de ao nacional. Entretanto, os dois rgos devem se entrosar mais e se entenderem melhor. No vejo razo porque. as duas entidades andam distantes, quando sabemos que aquela  filha deste, quanto s outras Instituies  igualmente necessrio o intercmbio cultural. Vamos pois, eis aqui o meu convite, unirmo-nos indefesamente pelo engrandecimento dos. deficientes visuais do Brasil.

Adequao do Ensino e da Aprendizagem de Deficientes Visuais com as Escolas comuns.

Vimos na introduo que  grande o territrio brasileiro, bem como suas deficincias de comunicao e transportes. Da a necessidade premente de formar professores, orientadores, assistentes sociais etc, especializados em educao, ensino e reabilitao de deficientes visuais. Preparados tecnicamente estes profissionais, est feito o caminho que deve orientar a equipe que se dedicar  misso educadora de cegos e amblopes, embora sejam numerosos os obstculos a vencer, o certo  que se termina conquistando o ambiente fsico e social tornando-os favorveis ao ajustamento dos nossos pupilos, redundando na integrao dos indivduos na sociedade.

Sempre que houver boa orientao, melhor planejamento. organizao, direo adequadas, as escolas aceitam os alunos deficientes visuais, surtindo efeitos excelentes.

Conseqentemente se tivermos o propsito de lutar pela integrao social dos deficientes visuais, s temos um caminho a seguir: devemos criar condies promovendo por todos os meios possveis o encontro dos deficientes com o meio comum. Os mesmos devem ser conduzidos para a sociedade e nunca esta ser levada at eles, seno quando a integrao se tenha realizado, porque desta forma o ambiente anormal tende a desaparecer. Por isto trabalhemos cada vez mais no sentido de colocar maior nmero de crianas junto das videntes.
Instituies que j vm dando esta orientao educativa no Brasil. A entidade pioneira em educao integrada para deficientes visuais no Brasil  a Fundao para o Livro cio Cego no Brasil.

O seu raio de ao vai se estendendo pelo Brasil a fora, depois de ter comprovado em So Paulo de maneira nobilitante, quo extraordinrias tem sido as vantagens deste mtodo empregado visando a libertao dos deficientes visuais do condenvel isolamento. Tambm tem se esforado a Fundao em colocar os adultos deficientes visuais nas indstrias, passando antes pelo processo de reabilitao.

Outras Instituies congneres tentam seguir-lhe a pista acrescentando j xito admirvel. Est neste caso o Instituto de Cegos da Bahia etc.

CONCLUSO

O Instituto Benjamin Constant est exigindo transformao, porque sendo uma entidade secular j no mais atende em nossos dias, as necessidades dos alunos que nele vivem.

 necessrio iniciar esta reforma pelo estudo do seu regimento interno.

Se houver oportunidade nos debates que devero ocorrer no Congresso, defenderemos o nosso ponto de vista a respeito desta transformao.

Finalmente, deixo claro que se o intercmbio entre as Entidades de cegos no for adequado com as instituies comuns, dificilmente poderemos realizar o que tanto almejamos.

II - EDUCAO DO PBLICO EM GERAL - INFORMAES NAS ESCOLAS PRIMRIAS. SECUNDRIAS E SUPERIORES D. SARAH COUTO CSAR
 Tcnica de Educao do Instituto Benjamin Constant - Rio de Janeiro - Guanabara.

A Pedagogia moderna preconiza que a segregao do indivduo, seja ele portador ou no de alguma deficincia,  um mal. Sabe-se hoje por experincia, que um lar sadio, numa comunidade sadia  o lugar ideal para a educao e o desenvolvimento harmonioso das funes psicolgicas e orgnicas das crianas.. A retirada de uma criana do lar constitui sempre srio problema comprometendo muitas vezes a sua sade fsica e mental. Considerando-se o caso da criana cega, o resultado  ainda mais desastroso.
Por no possuir viso, ela . muito mais sensvel e necessita de muito maior apoio que uma criana comum.  imprescindvel que pais, educadores e a comunidade em geral, num trabalho conjunto auxiliem esta criana a desenvolver o sentimento de autoconfiana, colocando-a em situaes normais para que ela encontre as solues normais para os seus problemas. Esses problemas residem fundamentalmente na necessidade que o indivduo tem de obter um lugar definido na sociedade a que pertence.
Esse meio ambiente deve, alm disso criar condies que permitam a cada indivduo utilizar-se do seu potencial de ajustamento.

Como criar essas condies? Preparando a comunidade desde cedo atravs de um trabalho contnuo e bem elaborado a fim de modificar certas atitudes erradas que at hoje tem assumido a nossa sociedade em relao ao indivduo cego. Nas Escolas Primrias por exemplo, interessar as crianas. em biografias de pessoas cegas que no obstante sua condio fsica conseguiram superar a deficincia e transformar-se em grandes lderes. Escolher temas para discusso em classe como por exemplo: O que faramos se tivssemos em nossa classe uma criana cega? O papel do co-guia. O uso da bengala etc. Ilustrar os conhecimentos tericos com visitas s escolas para deficientes visuais, para que sintam e vejam como uma criana cega pode e deve ser tratada. Aproveitar cada ano a semana dedicada ao deficiente da viso para intensificar a campanha de esclarecimento, afixando cartazes, intensificar a campanha de esclarecimento, afixando cartazes, desenvolvendo temas relativos ao problema da cegueira.
Outra iniciativa de grande valor so as reunies de pais feitas na escola onde so debatidos assuntos referentes  pedagogia e Psicologia infantil.

Nas Escolas Secundrias, alm do trabalho de propaganda que deve ser feito em moldes semelhantes aos das Escolas Primrias, desenvolvendo temas, escolhendo como assunto para debate, deve ser feito o intercmbio com escolas para cegos, no que diz respeito  vida social e cultural dos alunos. Aproveitar as oportunidades de datas festivas para convites e participao em festas, demonstrao de conjuntos musicais, de coral falado etc, em colgios de videntes. Usar as habilitaes dos deficientes visuais como instrumento para desenvolver camaradagem e estimular os adolescentes videntes a interessarem-se cada vez mais pelo seu colega cego.

Nas escolas onde alunos cegos estudam junto com os videntes, sente-se que apesar de no haver um trabalho organizado no sentido de promover a integrao do jovem cego, esta se faz quase automaticamente. Somos testemunhas disso, quando vemos no nosso Instituto Benjamin Constant, chegarem grupos de alunos videntes, colegas dos nossos alunos para estudarem juntos o assunto da prova de amanh. Todos alegres, demonstrando perfeito entrosamento, trocando experincias e conhecimentos. Por que no aproveitar essas ocasies para fazer um trabalho de grupo, estendendo aos diversos colgios, numa campanha de esclarecimento e solidariedade humana?

Nas Escolas Superiores, o trabalho seria ainda mais fcil. tendo-se em conta o grau de conhecimento e a idade dos estudantes: Em algumas Faculdades como Medicina e Servio Social o assunto j  conhecido e o trabalho seria apenas de coordenar os conhecimentos no sentido de adotarem uma atitude mais humana e compreensiva em relao ao indivduo cego. Um programa de atividades, com a organizao de seminrios de estudos, de encontro de tcnicos em assuntos sociais deveria ser feito interessando os estudantes em geral. A propaganda atravs de filmes, de programas culturais em semana dedicada ao deficiente visual, seria tima para intensificar a campanha.
 preciso que ns tcnicos que conhecemos mais de perto o problema, nos unamos a fim de acabar de uma vez por todas com os tabus e preconceitos que infelizmente ainda so comuns em nossa sociedade. O cego no quer compaixo. Ele quer sim compreenso e condies para viver uma vida normal e feliz no seio da sociedade. Isso s conseguiremos atravs de um trabalho srio e continuado com a ajuda de todos.


III        - A EDUCAO D0 PBLICO
DR. JAIRO MORAES - Diretor do Instituto Benjamin Constant, do Ministrio da Educao e Cultura - Rio de Janeiro -Guanabara.

Em todos os servios gerais, com a participao direta ou indireta do pblico,  necessrio dar a esse mesmo pblico uma informao certa e incisiva para que possa ser compreendida a medida tomada e no haver possibilidades de exploraes.

Sempre  bom ter-se em vista que h uma parte do pblico cheia de boa vontade e de capacidade de compreenso. Para esta parte no h necessidade de explicaes longas e exaustivas.  o pblico que participa ativamente - em bom sentido - da vida social.

 o grupo que compreende que h dificuldades grandes para vencer. Por vezes os dirigentes tm, diante de si. problemas aflitivos e que lhes fogem das mos: depende de muitos a soluo.

Quem j passou pelos altos cargos da administrao - a pblica por excelncia - sabe que problemas, aparentemente simples, sofrem deturpaes e deformaes tais que a um simples exame nem se parecem com a realidade.

So interesses vrios: polticos, pessoais, administrativos e da alta esfera social.

Os interesses polticos procuram canalizar em certo sentido, para proveitos outros, as solues. Nem sempre as melhores mas as que atendem melhor os anseios do grupo dominante, no setor.  a tendncia de fazer crer que a soluo somente foi possvel graas  habilidade, capacidade, cultura, orientao da esfera dominante.  o prestgio que decorre da ao.

Os pessoais, podendo ou no coincidir com os polticos. so muitas vezes os que desviam mais a orientao segura e superior.  o desejo ou a necessidade de demonstrao de prestgio ou valor.  o personalismo se sobrepondo  necessidade real.  forma particularmente perniciosa ao bem comum.  o jogo de interesses, sem controle, muitas vezes. E quando considerarmos que uma boa administrao pode ser comprometida por essa intromisso indevida do fator pessoal?

Os interesses administrativos podem atuar de uma certa maneira contrria aos interesses particulares de determinado servio. Fazendo parte de um todo, pode a situao total no permitir o desenvolvimento harmnico de um setor particular. Por vezes um determinado setor toma indevida projeo, asfixiando outro.. No  que se desconhea a necessidade:  a urgncia dada a outro setor, prejudicando determinado.  a predominncia de certo ngulo do problema. Num caso de grande comoo cessam as atividades menores em benefcio do maior.  o determinismo scio administrativo que assim o exige. 

Durante os perodos mais agudos das lutas sociais os problemas so encarados de acordo com a dominao ou idia em expanso no momento.  a absoro de problemas menores por um maior.  a mutao das idias, das destinaes, das tendncias ou das escolas.  a transformao social que sempre tem o seu lugar, mas que se torna aguda em um determinado perodo da histria.

Assim tem sido a evoluo de todos os problemas sociais e no seria agora que iramos ter uma exceo.

H, lamentavelmente, uma grande parte da populao que se alheia, por motivos vrios, do conhecimento da situao social da qual, mesmo na incincia faz parte. Os problemas sociais afetam, indistintamente, a todos os integrantes da comunidade ptria. A cada um cabe uma parcela, de acordo com a sua capacidade, posio social, cultura e seus vrios atributos. O que no pode admitir  o alheamento proposital. A omisso , por vezes, to daninha quanto a comisso..

Omite-se o tcnico, omite-se o administrador, omite-se o poltico, omite-se o fazendrio: a quem caber o nus de resolver as situaes diversas decorrentes das necessidades gerais?

Na sociedade h gradaes inalienveis. H o mais bem dotado que tem por dever dirigir. Alm da capacidade  necessria tambm a oportunidade. Se damos ao mais capaz a oportunidade temos o direito de reclamar a execuo boa em tempo til. Nem  possvel proclamar-se que a direo deveria caber ao que necessita do servio. Seria a falncia da organizao que compete a todos fortalecer.

Uma pequena parte, felizmente muito pequena, tende a no colaborar.  um pouco mais do que indiferena, alheamento;  vontade de perturbar o bom andamento. Eu me refiro, certamente, a elementos que - mal informados, uns, simples antipatizantes. outros - tentam dificultar a obra redentora dos que do tudo para a melhoria da vida daqueles que a natureza marcou com seu signo.

Como  possvel, colaborao no desconhecimento? A primeira providncia por certo,  a divulgao.  preciso, obstinadamente, dar conhecimento ao grande pblico do problema. Depois de informar, com as mais profundas mincias, penetrar em todos os setores da opinio geral!

No caso particular do cego  preciso que o pblico seja meridianamente informado.

 necessrio que cada um saiba que o cego  um elemento que - como todos os demais cidados - bem educado (em seu sentido tcnico) pode contribuir para o bem comum.
 o cego um elemento construtivo da sociedade e tem direitos e - acima de tudo - obrigaes.

Educado, preparado para a vida, pode realizar a sua tarefa para o bem estar social.

 profundamente errada, Sras. e Srs., a atitude de muitos pretenderem dar ao cego mais do que ele necessita.  o cego, dentro de seus quatro sentidos, um cidado igual aos outros.

O que  preciso  que a sociedade se capacite de que tem de tratar o cego como um cidado!

E ele, realmente, o !

Eu fao um veemente apelo aos homens da indstria, do comrcio e ao pblico em geral!

Procurem todos colaborar com os servios de cegos, comprando-lhes os servios! Pagando-lhes o que puderem produzir! Dando-lhes renda, de acordo com a sua produo!

O cego precisa de servio e no de piedade!

H muitos e muitos servios nos quais os cegos podem colaborar eficientemente. J o fazem em vrios setores das atividades. Por que reduzi-los?

Agora eu me dirijo, em especial, s famlias que tm cegos. No procurem segregar seus filhos cegos. Quanto mais conviverem com a famlia, mais facilmente se integraro na vida normal brasileira.

 erro profundo a criao de ambientes artificiais nos quais os cegos s tenham contato com outros cegos.

Cria-se a mentalidade do indivduo "diferente".

O indivduo "diferente" reage tambm de forma peculiar. Seus anseios deixam de coincidir com os da maioria e o desajustamento est consumado.

Urge a criao da mentalidade da integrao total do cego na sociedade.
Quando eu digo integrao eu o fao da forma a mais veemente. No o fato de ser um elemento eternamente dependente e sim a tima situao de completa igualdade de condies com os demais, dentro de sua educao especializada.

Se o pblico ficar esclarecido do fato de ser o cego um elemento que pode e deve ter o seu lugar no conceito dos cidados, se as famlias compreenderem que os seus entes privados da viso no so de nenhuma forma carga penosa, se a Ptria puder contar com este notvel contingente de obreiros, eu no tenho a menor dvida em afirmar desta tribuna:

"a cegueira ter deixado de constituir um problema e ser apenas um aspecto rotineiro da realidade brasileira."


Novamente foram dados os cinco minutos para entrega de perguntas  presidncia da mesa. Posteriormente, entregou-se a palavra  D. Celina Junqueira, tcnica do Instituto Nacional de Estudos Pedaggicos, Rio de Janeiro - Gb - que defendeu a tese "A Formao Integral do Educando". Esta tese deveria ter sido pronunciada por ocasio da primeira sesso plenria A oradora ficou de enviar a tese  direo do Congresso. (O trabalho no foi entregue para publicao). Houve o intervalo regimental, para entrega de perguntas sobre o assunto exposto.

Passou-se a seguir para as respostas s perguntas entregues  mesa. Leu-se tambm comunicado da Secretaria-Geral do Congresso e que anexamos a esta.

Sobre a primeira tese foram feitas as seguintes perguntas e deram-se as seguintes respostas:

1 PERGUNTA: "Existem tcnicas projetivas especiais para aplicao ao cego?"
RESPOSTA: "Ns sabemos da existncia de um teste de Rorschach que  utilizado pelo Departamento de Psicologia da Fundao para o Livro do Cego no Brasil, mas para melhores informaes os srs. podero dirigir-se ao referido Departamento".

2 PERGUNTA: "Para reabilitar um cego  necessrio a ficha completa de sua vida, isto , histrico contendo informaes referentes a todos os aspectos, no incio de sua reabilitao?"
RESPOSTA: "No se pode qualificar de ficha, mas compreenso de sua vida, atravs de algumas observaes sobre os fatos que interessem ao Assistente Social".

3 PERGUNTA: "O Assistente Social vai a busca do cliente, ou espera que o procurem, para s ento agir junto  famlia para o tratamento do caso?" RESPOSTA: "Depende das facilidades da Comunidade e da Obra. Existem processos agressivos em comunidades pobres. Quando isso no aconteceu, quando h saturao e outro  o tipo de comunidade, no se procura, isto no significa rejeio, mas sim por saturao."

4 PERGUNTA: "Qual  o papel do professor na avaliao do caso, quando a criana est em idade escolar? A sua contribuio no seria valiosa?" RESPOSTA: "No foi abordado este fato, pois o trabalho apresentado diz respeito  Avaliao Previa. Porm,  importante a avaliao pelo professor, aps, porm, como contribuio ao trabalho do Assistente Social".

5 PERGUNTA: "Quando no h trabalho do Assistente Social, at que ponto o professor tem que chegar, para que a parte que se refere esta tese no seja levada ao desconhecimento total?" RESPOSTA: "Pergunta interessante, pois, h lugares onde no h Assistente Social. O professor na falta do mesmo fica conhecendo certos problemas da famlia do cliente. No compete, porm, ao professor a avaliao, pois cada um tem atribuio devida. Isto acontece com qualquer profissional".

Com relao  segunda tese foi formulada a seguinte pergunta: "Desejaria saber Dra. Nair Lemos, quais so as perspectivas com que conta, para tornar realidade a sua proposta de alterao no texto constitucional?" RESPOSTA: "Como cada pessoa tem um circulo de influncia decisivo  neste que se pede a sua atuao para conseguir a alterao do texto.  importante pois a participao de todos na campanha."

Foi entregue tambm, assinada pelo Sr. Joaquim Lima de Moraes, a seguinte informao que serviu de contribuio  tese da Dra. Nair Lemos: - "Informamos que alm do Centro de Reabilitao a Fundao para o Livro do Cego no Brasil h sete anos possui uma oficina protegida de trabalhos para cegos que j prestou servios temporrios e definitivos de adestramento manual a mais de 150 deficientes visuais,. dos quais 14 foram colocados na indstria privada, at setembro ltimo. Presentemente a referida oficina funciona com 22 operrios".

Com relao  tese do Dr. Jairo Moraes, foi feita pergunta a respeito do nmero de entidades, na Guanabara, encarregadas de atendimento de deficientes visuais. Dr. Jairo Moraes respondeu que o melhor informante seria o Instituto Brasileiro de Estatstica, que  uma entidade federal. Mas disse que h o Instituto Oscar Clarck, dirigido pelo. General Jaime Ferreira e onze estabelecimentos particulares para cegos.

Para a quarta tese sobre "A formao integral do educando", no houve perguntas. A mesa cedeu ento tempo para que fossem feitos avisos pela primeira secretria da Comisso Executiva, D. Jurema Lucy Venturini, que deu avisos sobre entregas de certificados. Foi feita tambm uma indagao  presidente sobre as possibilidades de serem feitas perguntas pertinentes  tese apresentada na sexta sesso plenria sobre o tema "Consideraes sobre a educao dos deficientes audiovisuais". Foi negada a autorizao para realizao das referidas perguntas. - Nada mais havendo a tratar, o senhor presidente, deu por encerrada a stima sesso plenria, aps agradecer aos expositores e aos senhores congressistas. Foi lavrada a referida ata que aps a leitura e aprovao ser assinada pelo senhor presidente da mesa e as secretrias das sesses. So Paulo, 13 de novembro de 1964. ass. Edy Pinheiro Alves; a) Helena Augusta de Souza Meio; a) Mansa Deila. Santa.


SEXTA FEIRA, 13 DE NOVEMBRO DE 1964 17:30 HORAS

SESSO DE ENCERRAMENTO

Aos treze dias do ms de novembro de 1964, s 17:30 horas, no Anfiteatro da Associao Paulista de Medicina, cita  Av. Brigadeiro Luiz Antnio, 278, 8 andar, realizou-se a Sesso Solene de Encerramento do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, presidida pelo Exmo. Sr. Prof. Dr. Flvio Suplicy de Lacerda. D. D. Ministro da Educao e Cultura e com a presena das seguintes autoridades: Dr. Adhemar Pereira de Barros. D.D. Governador do Estado de So Paulo; Dr. Jos Carlos Ataliba Nogueira, D.D. Secretrio do Estado dos Negcios da Educao e Cultura do Estado de So Paulo, o D.D. Representante do Exmo. Sr. Prefeito Municipal de So Paulo e D. Dorina de Gouva Nowill, Presidente da Comisso Executiva do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais.

Prof. Dr. Flvio Suplicy de Lacerda: "Com a presena honrosa de sua Excia. o Sr. Governador do Estado de So Paulo, eu declaro aberta a sesso final do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais. Dando andamento aos nossos trabalhos tenho a satisfao de passar a palavra ao Dr. Jairo Moraes, diretor do Instituto Benjamin Constant. Dr. Jairo Moraes: Tenho em mos uma moo de 50 (cinqenta) assinaturas pedindo o seguinte:

MOO - "Os membros do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais que a esta subscrevem, tendo em vista que a feliz e oportuna iniciativa da Campanha Nacional de Educao dos Cegos, do Ministrio da Educao e Cultura, permitiu a realizao do presente conclave que teve a participao de numerosas entidades, particulares e governamentais, tanto do pas como do exterior;

considerando ainda que a referida Campanha, atravs de sua abnegada Diretora Executiva, a ilustre e digna Professora. D. DORINA DE GOUVA NOWILL, sob cuja inspirao e tenacidade vem realizando, benfica e eficazmente, a obra. por todos os ttulos benemrita do bem estar social e moral dos cegos, quer no campo da educao das crianas e dos jovens privados da viso, quer no setor da reabilitao dos cegos adultos;

reconhecendo que  sobremodo marcante a atuao serena e bem intencionada da ilustre dama que dirige os destinos da mencionada Campanha, cujos atos e iniciativas se operam sob a gide da mais acentuada justia e esprito pblico o que , tambm, motivo de orgulho e de honra para o Brasil, face ao renome internacional que j alcanou, merc de sua nobre e impecvel conduta, alm de notria atuao, nos Congressos que j tem participado no exterior, representando com dignidade e alto descortino, os legtimos interesses e anseios dos cegos de nossa ptria;

os congressistas, abaixo submetem  considerao do plenrio a presente moo de aplausos e profundo reconhecimento  Campanha Nacional de Educao dos Cegos, do Ministrio da Educao e Cultura, pela benemrita obra que vem realizando no pas e, de merecido e especial louvor, quela que, sobre ser a sua incansvel diretora executiva, no mede sacrifcios e esforos no sentido da integrao total das crianas e adultos cegos na comunidade. Sala das sesses, 13-11-64.
Ass. Jairo Moraes, Murilo Campello, Jos Almeida, Dalva Guido Fernandes, Nazareth Pereira Mendes, Guiomar Costa Manso, Maria Ceclia da Cunha Ferraz, Geralda A. M. Estevo, Jos Sobral, Anbal Sandano, Azaury da Cruz Tiriba, Edy Pinheiro Alves, Flora Barroso de Albuquerque, Myriam Paiato, Hortncia Almeida de Carvalho, Isabel T. Guimares Alves, Olenka Reda M. Pio, Luzia Ciscato, Vera Alice C. Martins, Sylvia Rodrigues Teixeira, Elza Silveira, Luzia Aparecida Daniel, Pednina S. Silveira, Ruth S. Ribeiro, Irm Maria das Graas, Irm Maria da Apresentao, Ana Maria Bernard da Costa, Haide Zorzan, Maria Helena Nolf, Dalcio Annunziatto, Eliza M. Annunziatto, Brasljo Starepravo, Aparecida Garcia, Luzia Lopes Lima, Ruth Ferreira, Josefa Calasans da Cruz, Luis Geraldo de Mattos, Ezilda Tereza R. Pereira, Julha Nakamura, Keiko Tanigaki, Maria Clia G. Sabia, Adalgisa Mattos, M. Silva, Lucy Reinert, Maria Jos S. Massaini, Maria Eliza de Oliveira Geribelo, Suzana Costa, Cinira Roca Dordal, Silvino Coelho, Nice Tonhosi de Saraiva.

Prof. Dr. Flavio Suplicy de Lacerda: "A manifestao do plenrio j se fez sentir pela unanimidade desta salva de palmas de modo que, est naturalmente aprovada.
Vai falar o Sr. Roberto Isnard, membro da comisso da Campanha Nacional de Educao dos Cegos e Chefes do Departamento de Relaes Pblicas da Fundao para o Livro do Cego no Brasil.

Sr. Roberto Isnard: "Sr. Ministro, que veio ao nosso trabalho de hoje, eu queria neste momento citar a V. Excia. em nome dos que assinaram a moo de agradecimento s Instituies que colaboraram na realizao deste congresso e que no poderamos jamais esquecer o grande esforo que foi despendido por estas instituies, que junto conosco vieram compreender nossos problemas e fazer todo o esforo para que este Congresso tivesse o xito que teve. Eu queria que a secretria por favor lesse a moo  V. Excia."

MOO - "O 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, considerando, como valiosa e exemplar, a desinteressada e benfica cooperao que deram ao presente Conclave:
- o Instituto de Reabilitao da Universidade de So Paulo
- a Fundao para o Livro do Cego no Brasil
- a Federao Nacional das APAEs
- o Instituto Padre Chico
- a Liga do Professorado Catlico e, notadamente,
- a Associao Paulista de Medicina e
- Lions Club de So Paulo, aquela, hospedando o Congresso em sua sede e lhe facilitando, sobremodo, a execuo dos trabalhos e, este no esmerado e incansvel apoio
e colaborao, postos ao servio do Conclave.

Os Congressistas, no encerramento de suas atividades. manifestam a essas mencionadas entidades o seu profundo agradecimento com a inequvoca demonstrao do seu maior apreo. Sala das sesses, 13-11-1964.

Ass. Rogrio Vieira, Teresinha Rossi, Jairo Moraes, Jos Almeida, Dalcio Annunziatto, Eliza M. Annunziatto, Braslio Starepravo, Dalva Guido Fernandes, Nazareth Pereira Mendes, Luzia Lopes Lima, Ruth Ferreira, Josefa Calasans da Cruz, Luis Geraldo de Mattos, Ezilda Tereza R. Pereira, Julha Nakamtira, Keiko Tanagaki, Adalgisa J. Matta, Maria J. Savi Massaini, Lucy Reinert, M. Silva, Maria Eliza de Oliveira Geribelo, Susana Costa, Cinira Dordal, Silvino Coelho, Nice Tonhosi Saraiva, Ignez AOS. Enfeldt, Maria Helena Nolf, Guiomar Costa Manso,Murilo Campello, Maria Ceclia da C. Ferraz, Geralda Amaral de M. Estevo. Jos Sobral, Anbal Sandano, Azaury Turiba, Edy Pinheiro Alves, Flora Barroso de Albuquerque, Miryam Paiato, Hortncia Almeida de Carvalho, Isabel Teresa Guimares Alves, Sylvia Rodrigues Teixeira,
Olenka Reda M. Pio, Vera Alice C. Martins, Luzia Ciscato. Elza Silveira, Theresinha Silva, Luzia Aparecida Daniel, Pedrina S. Silveira, Ruth S. Ribeiro, Irm Maria das Graas, Irm Maria da Apresentao, Ana Maria Bernard Costa. Haide Zorzan.


D. Dorina de Gouva Nowill: "Exmo. Sr. Ministro da Educao e Cultura, D . D. Presidente deste Congresso; Exmo. Sr. Dr. Adhemar Pereira de Barros, mui digno governador do Estado de So Paulo; Exmo. Sr. Secretrio de Estado dos Negcios da Educao de So Paulo; Exmo. Sr. Representante de S. Excia. o Prefeito de So Paulo. Sero breves as nossas palavras de hoje, antes de tudo, permitam, as autoridades presentes, os senhores e senhoras congressistas, que lhes expresse o agradecimento de todo o meu corao pela generosidade com que fui por todos tratada e neste momento, pela muito expressiva Moo lida, pelo nosso grande colaborador diretor do Instituto Benjamin Constant, Dr. Jairo Moraes, a todos a gratido de meu corao. No fui apenas eu que realizei este Congresso, nenhum de ns jamais na vida pode realizar sozinho. As obras, so sempre fruto de um trabalho de equipe, da colaborao de todos. Deus permitiu enfim nestes dias, a graa de termos excelentes colaboradores, esforados, dinmicos, incansveis que fizeram deste congresso, este sucesso que todos os senhores acabam de presenciar e que por inmeras maneiras, procuraram fazer-nos sentir que estavam aqui, usufruindo a troca de experincias, da troca de  conhecimentos e principalmente da oportunidade de nos conhecermos mais e melhor. Nosso pas  imenso, lutamos todos por um mesmo ideal e quantas vezes, quo pouco podemos encontrar-nos. As dificuldades que ainda enfrentamos nos nossos meios de comunicao, muito dificultam nossa tarefa para a execuo de um programa de mbito nacional. Todavia foi essa equipe, foi essa comisso executiva, foram as nossas abnegadas secretrias, os nossos colaboradores da publicidade, os nossos grandes amigos da imprensa falada e escrita que permitiram trazer a So Paulo no apenas os brasileiros de norte a sul, mas representantes de vrios pases, fazendo deste 1 Congresso Brasileiro, praticamente um Congresso Internacional. Aqui temos representantes da Argentina, Estados Unidos, Portugal e Uruguai, temos tambm dentro dos Estados do Brasil: Bahia, Guanabara, Mato Grosso, Minas Gerais. Par, Paran, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe, So Paulo e o Distrito Federal. apenas a discriminao dos nomes dos Estados  suficiente para que compreendamos o sucesso deste Congresso. Vamos todavia separar-nos hoje. Sempre chega a hora da despedida e em nome da comisso executiva, em nome da Campanha Nacional de Educao dos Cegos, do Ministrio da Educao e Cultura, quero agradecer senhores congressistas, o brilho que trouxeram a este nosso Primeiro Congresso Brasileiro, e j sabemos pelas deliberaes, que ser apenas o primeiro porque outros se seguiro, e muitos sero os frutos, que poderemos obter para os nossos programas de educao e reabilitao de deficientes visuais em todo territrio nacional. Muitas so as necessidades das inmeras crianas deficientes visuais neste pas. Mas com estas autoridades aqui presentes, senhores congressistas, podemos ter certeza que os nossos poderes constitudos procuraro por todas as maneiras colaborar com os nossos esforos trazendo s crianas cegas brasileiras, e aos nossos programas de reabilitao para adultos cegos toda aquela contribuio e a colaborao que esperamos. Podemos dizer que marcamos hoje uma era, todos ns aqui presentes, um passado de problemas, de obstculos, e de grandes dificuldades, que sem desmerecer, talvez fique pertencendo, ao passado. O presente com a presena das ilustres autoridades  mais do que uma esperana,  uma certeza, e desta maneira desejo agradecer a todos os senhores, mais uma vez fazendo votos que em todos rinces de nossa terra, tenhamos dentro de ns bem aceso o ideal que nos empolgou nestes dias, para a integrao total, completa, de todos os brasileiro,s portadores de deficincia visual. E como no poderia deixar de ser, num momento como este temos a imensa satisfao de apresentar uma moo a esta figura insigne, Sua Exa. o Sr. Ministro da Educao e Cultura, mui digno presidente nato, da Campanha Nacional de Educao dos Cegos, que desde o momento em que entrou para o Ministrio da Educao, tem nos dado mais incisivo e precioso apoio, possibilitando portanto, a nossa reunio de hoje. Sra. Secretria pode passar a leitura da moo, eu pediria para a mesma a aprovao de p".

MOO: "O 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais, considerando que S. Excia, o Exmo. Sr. Ministro da Educao e Cultura, DR. FLVIO SUPLICY DE LACERDA, vem, por todos os meios e modos, prestigiando a realizao do presente conclave e, atendendo, ainda, que essa ilustre e digna homem pblica, com o seu decidido apoio e solicitude, tm proporcionado solues adequadas aos problemas e aos vitais interesses relacionados com as atividades e os altos objetivos da Campanha Nacional
de Educao dos Cegos, de que  presidente nato, visando ao melhor atendimento das mais justas e legtimas reivindicaes dos cegos: os congressistas, no encerramento dos trabalhos deste memorvel conclave, traduzem, atravs da presente moo, os seus melhores e mais expressivos agradecimentos  Sua Excia., ao mesmo tempo que manifestam a sua confiana na corajosa e brilhante atuao que vem tendo  frente dos destinos da Pasta que lhe foi confiada pelo Governo da Repblica. Sala das sesses, 13-11-64.

Ass. Dorina de Gouva Nowill, Rogrio Vieira, Jairo Moraes, Murillo Campello, J. Almeida, Dalcio Anunziato, Braslio Starepravo, Eliva M. Anunziatto, Dalva Guido Fernandes, Nazareth Pereira Mendes, Guiomar Costa Manso, Maria Ceclia C. Ferraz, Geralda A. M. Estevo, Jos Sobral, Anbal Sandano, Azaury C.. Tinha, Edy Pinheiro Alves, Flora Barroso de Albuquerque, Myriam Paiato, Hortncia Almeida de Carvalho, Isabel Teresa Guimares Alves, Olenka Reda M. Pio, Vera Alice C.. Martins, Luzia Ciscato, Elza Silveira, Sylvia Rodrigues Teixeira, Therezinha Silva, Luzia Aparecida Daniel, Pedrina S. Silveira, Ruth S. Ribeiro, Irm Maria das Graas, Irm Maria da Apresentao Vasconcelos, Ana Maria Bernard de Castro, Haide Zorzan, Maria Helena Nolf, Ruth S. Ferreira, Luzia Lopes Lima, Josefa Calasans da Cruz. Luiz Geraldo Mattos, Ezilda Tereza R. Pereira, Julha Nakamura, Keiko Tanigaki, Adalgisa Matta, M. Silva, Lucy Reinert,  Maria Elisa de Oliveira Geribelo, Susana Costa, Cinira Roca Dordal, Nice Tonhosi Saraiva, Silvino Coelho. Prof. Dr. Flvio Suplicy de Lacerda:

"A moo que acaba de ser aprovada por esse congresso, uma manifestao to eloqente e cativante foi para mim uma traio, bendita traio, que me d mais coragem e robustece ainda mais o meu nimo de continuar nessa campanha rdua de revolucionar a educao e a cultura no Brasil. Eu no tenho palavras para agradecer, e para expressar as minhas emoes, e seria para mim e  mais fcil apenas.. ir aos recessos do meu corao, para vos dizer a todos, muito obrigado".

D. Derma de Gouva Nowill: "Em nome da comisso executiva do 1 Congresso Brasileiro de educao de Deficientes visuais, Sr. Governador, desejamos agradecer de todo nosso corao a sua presena hoje e vamos solicitar a S. Exa. Ministro da Educao que manifeste o preito de nossa imensa gratido entregando-lhe o primeiro certificado deste congresso".

Prof. Dr. Flvio Suplicy de Lacerda: "Certificamos que o Dr. Adhemar de Barros, participou do 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais na qualidade de homenageado e eu me acrescento a este certificado para apresentar em nome do governo da repblica e no meu prprio as nossas homenagens especiais a V. Excia. Ainda h dois certificados passados pelo congresso ao Dr. Jos Carlos de Ataliba Nogueira, Secretrio da Educao do Estado de So Paulo e o outro ao Dr. Francisco Prestes Maia, prefeito municipal, eu fao a entrega ao seu representante. H dois certificados especiais conferidos pelo Congresso a duas participantes observadoras de Portugal que  muito significativo vindo de Portugal, so esses certificados conferidos a D. Maria Luclia de Freitas Lopes do Rego e a D. Ana Maria Bernardes Costa, que eu convido a que venham  mesa para receberem os dois certificados".

Maria Lucilia: "Serei muito breve nas minhas palavras, apenas agradecer a todos os participantes deste Congresso, o amvel acolhimento que deu aos representantes de Portugal e para l levaremos o abrao muito grande de todos vs brasileiros, esse abrao que ns ao chegarmos, demos tambm a todos os brasileiros. Obrigados vos ficamos em Portugal. Especialmente obrigado, que fica a todos vs ilustres senhores e caros colegas."

Prof. Dr. Flvio Suplicy de Lacerda: "Outros certificados sero entregues na secretaria. No era preciso a senhora dar este abrao, bastava nos falar com seu sotaque, para ns todos ficarmos profundamente emocionados. Ns vamos ter a satisfao e a honra de ouvir a palavra de Sua Excia. o Sr. Governador Adhemar de Barros.

Dr. Adhemar Pereira de Barros: "Palavra extraprograma, aceitei-a porque aqui me encontro  por duas razes. A minha homenagem fraternal aqueles que participando ou no deste congresso, so privados da viso, solidariedade que trago tambm em nome de D. Leonor, que ficou de vir, mas certamente outros compromissos a esto retendo. Em segundo lugar, homenagem ao ilustre ministro prof. Suplicy de Lacerda, para receb-lo em nome do Estado e do povo paulista, carinhosamente, que  o nosso irmo aqui do Paran. Eu poderia neste instante encerrar as minhas palavras, mas repito o que disse anteontem nos Campos Elsios, ou ontem nem sei, os meus dias so to cheios. Passam-se quinhentas coisas num dia, que s vezes em vinte e quatro horas eu penso que foi a semana passada. Realmente o governo do Estado, tem procurado inclusive reformar as suas leis, regulamentos, a uns trs ou quatro meses atrs ganhamos para um cargo na Secretaria de Segurana, esse nosso comum amigo IsnarD. At que o servio jurdico do estado, atravs de leis arcaicas, solicitou fosse a nomeao suspensa, em virtude de que se deduzindo a capacidade de viso, ele teria que pagar ao estado em vez de receber. Em segundo lugar o PBX da Secretaria da Educao ns entreamos a um cego, h trs meses, graas a Deus at agora o servio jurdico do estado no descobriu que o homem est l, mas at l, ns haveremos de alterar estas coisas e fazer com que o Isnard volte ao lugar pelo que ele tem paixo, pelo menos revelou isso a mim diversas vezes. Ento a minha presena  de solidariedade, eu sou um mdico, e mdico que sou, eu no sei, se tivesse que dizer a Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Divino Mestre, nosso Guia, se tivesse que escolher alguma coisa para me privar, se ele exigisse de cada um de ns uma privao, eu no sei, ficaria em dvida, O que escolher, qual o rgo mais importante que eu me privasse, de qualquer jeito, mdico mais de quarenta anos, da velha Faculdade Nacional de Medicina, ainda no tempo da praia de Santa Luzia, na Faculdade de Dom Joo VI, eu conheo profundamente este mundo, e  medida que avano mais eu vivo o Evangelho de Nosso Senhor, vim portanto numa solidariedade muito carinhosa a todos vocs, dizer que o estado todas vezes em que se tem batido a sua porta, ns temos procurado ajudar a melhorar as condies dos cegos, tudo fazendo para melhorar realmente esses sofrimentos da privao de um dos rgos vitais que do prazer  vida. Agradeo a gentileza deste certificado, cumprimento a todos e me coloco como disse a disposio para ajudar to importante problema. Sado os membros do Ministrio da Educao e Cultura, na pessoa do seu ilustre Ministro Suplicy de Lacerda. Ser para ns motivo de prazer participar desta campanha, e ajudar realmente a minorar o sofrimento desses nossos irmos e dessas queridas irms. A Dorina  uma criatura que conquistou a todos ns h tempos, ns que lemos um bocado, j a conhecamos de muitos anos, como muitos outros casos. A minha presena aqui foi apenas para esta solidariedade, que de corao eu transmito a todos vocs".

Prof. Dr. Flvio Suplicy de Lacerda: "Antes de encerrar os trabalhos desta derradeira sesso do 1 Congresso Brasileiro eu desejo me associar  manifestao de todos, quando foi feita aqui uma justssima homenagem a Dorina, eu digo a Dorina, por que assim ns ficamos mais prximos, por que de fato ns somos conhecidos desde o dia em que ela nasceu. Eu j mocinho, aluno da escola politcnica de So Paulo, e ela j predestinada para esta obra que o Brasil admira e que o mundo vai admirar, eu quero agradecer a ela, a Dorina, pelos benefcios que me est prestando, ela est fazendo desde o dia em que assumi o Ministrio, com que eu enxergue coisas, que eu antes no havia visto. E isto para o desempenho de uma funo revolucionria que ns estamos desempenhando no Brasil, para implantar aqui uma obra de congraamento,
uma obra de amor, e de convico, uma obra educacional. Eu trago a este congresso a notcia de que j est em mos do Sr. Presidente da Repblica o projeto de reforma administrativa do Ministrio da Educao, l figura a criao do departamento nacional de excepcionais. (palmas). Ns vamos transformar tudo isto. O Departamento Nacional de Excepcionais vai acabar, de incio, com dois horrores que existiam no Brasil, e que j esto se transformando, podemos dizer que j esto transformados,  o Instituto de Surdos e Mudos, e o Instituto Benjamin Constant, que vo passar a ser no depsitos, mas vo ser departamentos de pesquisas e centros de formao de professores, para que se leve a cabo esta obra que estava faltando no Brasil de dar ao excepcional a assistncia que lhe estava sendo negada pela nossa ignorncia e pela nossa inoperncia. O Departamento Nacional de Excepcionais vai constituir no Brasil, o rgo de assistncia as comunidades, porque de fato a educao de excepcionais, como a educao em qualquer grau, depende exclusivamente da comunidade, porque  na comunidade que ns temos a aproximao mais ntima com a famlia e a educao
 antes de tudo uma obra de amor. Por isto, este governo revolucionrio pode declarar neste primeiro Congresso, que se inaugura no mesmo momento em que o governo da repblica toma tal resoluo, que ns vamos de uma vez por todas trazer para a comunidade brasileira, aqueles que so privados de faculdades que ns temos, mas que nem por isso deixam de desempenhar no desenvolvimento nacional um papel preponderante e eu posso tambm afirmar, e trago essa notcia com a maior satisfao que seguindo o exemplo, e eu no sabia deste exemplo, adotado pelo governador Adhemar de Barros j mandei estudar, e os estudos esto adiantados, legislao no sentido de que os excepcionais no sejam privados do exerccio da funo pblica. E com os meus agradecimentos e as minhas saudaes aos congressistas, e em especial aos congressistas estrangeiros, que vieram para aqui, trazer to grande contribuio, com os meus agradecimentos ao Sr. Governador do Estado a quem eu peo que transmita os meus respeitos a sua Exma. Sra., eu declaro encerrado o 1 Congresso Brasileiro de Educao de Deficientes Visuais".
